Afonso Lopes
Afonso Lopes

Guerra ou paz e parceria com ­o Palácio das Esmeraldas?

Equipe de transição não concluiu levantamento, mas sabe que a situação é complicada. Prefeito buscará harmonia administrativa com o governo ou vai atender aos interesses políticos de seus aliados?

No próximo ano, serviços como a varrição de ruas podem ser afetados pela falta de recursos na Prefeitura de Goiânia

No próximo ano, serviços como a varrição de ruas podem ser afetados pela falta de recursos na Prefeitura de Goiânia

No mundo fantástico e virtual da campanha eleitoral, o então candidato Iris Rezende dizia com entusiasmo que em seis meses resolveria todos os problemas de Goiânia. No mundo real, a história que começa a ser escrita tem outro enredo. Muito diferente e menos cor-de-rosa. O prefeito eleito não tem ainda a dimensão exata do tamanho do buraco que vai encontrar após dia 1º de janeiro, mas já sabe que vai precisar de pelo menos uns seis meses para preparar o terreno para sua administração. E olha que ele está esbanjando otimismo. A situação da Prefeitura de Goiânia, assim como de mais de 5.000 cidades de todo o país, foi duramente afetada também pela crise econômica que afeta o Brasil há pelo menos três anos. E tem mais: se a esperada recuperação não se der como se deseja e preveem os economistas, Iris vai precisar de muito mais tempo para reequilibrar as finanças da Prefeitura.

Iris sabe que não terá vida fácil com a população. As cobranças vão começar na primeira semana após a posse. Ele pode até conseguir ganhar o prazo que precisa politicamente na Câmara de Vereadores, mas não nos bairros. Recolhimento do lixo doméstico, industrial e hospitalar precisa ser normalizado definitivamente. As ruas e avenidas esburacadas também são itens de cobrança imediata. Haverá dinheiro para cobrir pelo menos esses dois serviços essenciais? Provavelmente, não. Então, Iris terá que usar todo o seu enorme capital político para utilizar como crédito. Com um pesado detalhe: os fornecedores estão também com a corda da crise econômica no pescoço.

É uma autêntica sinuca de bico. De um lado, a pressa da população que se cansou dos problemas cotidianos. Do outro, a falta de dinheiro que resolveria grande parte dessas questões. O que resta a Iris Rezende é repetir em Goiânia o que Marconi Perillo fez no Estado ao perceber o terrível temporal econômico que se formou nos instantes finais de 2014: uma dramática reforma administrativa, com redução de secretarias, diretorias, gerências e cargos de assessoramento. Não há alternativa: ou se reduz e limita o tamanho da despesa, ou o crescimento do buraco vai engolir qualquer possibilidade de se manter a casa pelo menos em funcionamento. O exemplo negativo mais evidente no país de Estados que não promoveram qualquer solução nesse sentido são o Rio de Janeiro e o Rio Grande do Sul. Precisam fazer isso, mas agora os governadores não têm mais condições políticas para muita coisa.

Se Goiás conseguiu evitar o caos enquanto outros Estados submergiram ou estão nesse caminho terrível, Goiânia, obedecidas as proporções, também poderá evitar o caos absoluto. Caberá a Iris Rezende recorrer politicamente à dramaticidade que significa uma reforma que diminua os espaços a serem ocupados pelos aliados que o ajudaram a vencer a guerra eleitoral. Ele deve esperar inclusive algumas por algumas dissidências entre os mais descontentes. Faz parte do jogo. Iris vai precisar enfrentar essa situação, e aí o prazo de seis meses torna-se muitíssimo curto. Se a economia do país apresentar melhora substancial, pelo menos superando a recessão, é coisa para um ano de dureza. Se a recuperação nacional for mequetrefe, como pode — numa visão pessimista — acontecer, o tempo necessário para equilibrar as finanças de Goiânia, com a reforma administrativa, claro, aumentará razoavelmente.

Iris, portanto, não poderá ficar refém da popularidade. Ela virá no tempo certo, desde que ele assuma a possibilidade de gerar desconforto inicial. Se não, ele até poderá viver uma bolha de popularidade, mas será passageira e de curta duração. Da forma como está concebida administrativamente, a Prefeitura de Goiânia não é sustentável a médio ou a longo prazo. Mais do que isso, Iris terá que rever alguns de seus conceitos político-administrativos que influenciaram para ampliar o quadro geral das dificuldades enfrentadas pela Prefeitura ao longo dos últimos quatro anos. Num rasgo de sinceridade, o prefeito Paulo Garcia disse que manteve uma relação muito ruim com o governo do Estado por questões políticas.

Ao afirmar isso, completou o raciocínio avaliando que boa parte dos problemas que sua administração enfrentou se deve unicamente a esse período belicoso. E não é necessário ir muito longe para corroborar com realidade as palavras dele. Basta atravessar a ilha da avenida Rio Verde e adentrar a cidade administrada pelo prefeito Maguito Vilela. As características urbanas de Aparecida de Goiânia são piores do ponto de vista administrativo do que as de Goiânia, mas Maguito não apenas termina seu segundo mandato com boa popularidade como conseguiu eleger seu sucessor já no primeiro turno. Ele jamais escondeu sua ótima relação político-administrativa com o governador Marconi Perillo.

O prefeito Iris Rezende, nesse sentido, não deve nada a nenhum de seus aliados. A dívida dele é com os eleitores e com a população goianiense de uma maneira geral. Caberá a Iris optar pelos interesses de um e do outro. Se escolher politicamente, vai ter que se virar sozinho. Se preferir atender à população de Goiânia, ele vai colocar dois palácios trabalhando pela cidade. Parece óbvio o que é melhor para todos. l

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