Italo Wolff
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Sexo e Covid-19: Como as doenças selecionaram a reprodução sexuada

A reprodução sexuada garante que os descendentes serão geneticamente diferentes de seus pais, o que dificulta a dispersão dos parasitas em uma população

Foto: Reprodução/EBC

Inevitavelmente, nós, seres humanos, enxergamos um mundo que gira em torno de nosso papel ecológico particular: nossos dramas cotidianos são os da competição contra demais pessoas, da escolha de parceiros sexuais, da disputa por recursos. Tendemos a pensar que a maior ameaça às nossas vidas são outros seres humanos – criminosos, invasores – e gastamos muito tempo tentando entender o comportamento das pessoas. Evoluímos para agir assim. Como sempre vivemos em sociedades, antecipar e mudar a conduta do próximo era a forma mais imediata que nossos antepassados tinham de transformar seus ambientes.

Mas com o avanço da ciência, aprendemos a enxergar o mundo mais de perto, e o que descobrimos é que os piores inimigos de um povo nunca foram outros povos. A Primeira Guerra Mundial matou 25 milhões de pessoas em quatro anos. A epidemia de influenza que seguiu o ano do fim da guerra matou 25 milhões em quatro meses. Na maior parte das extinções de civilizações, os culpados estavam dentro dos corpos da própria população, ou dentro dos vegetais cultivados para sua alimentação.

A Europa já foi devastada pelo sarampo no ano 165 da Era Comum (EC), por varíola  251 EC, pela peste bubônica em 541 EC e 1348 EC, por sífilis depois de 1492 EC, e por tuberculose depois de 1800 EC. Essas são apenas as epidemias; se contarmos endemias, perderemos as contas no cemitério da história. Mas se as doenças são uma ameaça tão grave às nossas existências, por que a evolução não direcionou nosso comportamento no sentido de lutarmos contra esses parasitas ao invés de nos condicionar a rivalizar com nossos semelhantes? 

Na realidade, estamos mais programados para lutar contra doenças do que conseguimos perceber. O próprio sexo é uma manifestação do eterno conflito entre hospedeiros e parasitas – bactérias, vírus, protozoários, vermes e artrópodes que vivem com os recursos obtidos pelo hospedeiro e se multiplicam dentro de seu corpo. Muitos animais evoluíram para identificar sinais de parasitas no corpo dos pretendentes, bem como inventaram novas formas de se mostrar saudáveis para seus possíveis parceiros.

Em um dos livros mais célebres da divulgação das ciências biológicas, “A Rainha de Copas” (2004, 429 páginas, Editora Gradiva), o jornalista britânico Matt Ridley explica a relação entre o sexo e o comportamento humano. O título do livro é uma referência a “Alice no País das Maravilhas”, de Lewis Carroll, em que uma corrida exaustiva faz os personagens permanecerem no mesmo lugar; a mesma relação que acontece entre os parasitas e os hospedeiros.

“Quanto mais bem-sucedido o ataque do parasita (quanto mais hospedeiros ele infecta ou mais recursos ele obtém de cada um), mais a sobrevivência do hospedeiro dependerá de ele conseguir inventar uma defesa. Quanto melhor o hospedeiro se defender, mais a seleção natural promoverá os parasitas que puderem superar a defesa. Assim, a vantagem estará sempre oscilando de um para o outro: quanto maior for o avanço de um, melhor o outro lutará: este é verdadeiramente o mundo da Rainha Vermelha, onde você nunca vence, você só ganha uma trégua temporária” (p. 67). 

Para entender na prática como essa competição acontece, vamos tomar como exemplo o Sars-CoV-2, causador da Covid-19. O vírus parasita precisa de uma chave (proteína spike) que se ligue a uma fechadura em nossas células (receptor ACE2) para nos infectar. Pode ser que surja uma mutação nos seres humanos que altere o receptor ACE2, fazendo que a proteína spike do coronavírus não consiga mais infectar pessoas que possuem esses genes mutantes. Indivíduos que carregam esses genes terão maior probabilidade de sobreviver e passar seus genes adiante. 

Mas então, em poucas gerações, pessoas que possuem a mutação da imunidade serão maioria, e o vírus terá um prêmio para inventar uma chave que consiga infectar todo aquele novo grupo de pessoas. Os vírus, cujas gerações sucedem muito mais rapidamente do que as dos humanos, podem mutar até encontrar a nova chave para a fechadura mais comum. Quando encontrarem a fórmula, essa chave se multiplicará e, em poucas gerações, se tornará também a mais comum, e aqueles que possuem a antiga fechadura (ACE2) voltarão a ser gratificados por terem uma fechadura diferente. O prêmio está na raridade.

É um pouco como o esporte: no xadrez ou no futebol, a tática que se mostra mais eficaz logo é aquela que as pessoas aprendem a bloquear facilmente. Cada inovação em ataque logo é combatida por outra em defesa.

E o comportamento?

Está explicada a obviedade de que a reprodução sem sexo gera apenas clones dos pais, e todos os clones podem ser extintos por uma mesma cepa de doença. Mas como o sexo molda comportamentos? O livro “A Rainha de Copas” é recheado de exemplos fascinantes de como a seleção sexual pode ter formado diversos tipos de sociedade e até mesmo direcionado nossa concepção de beleza. 

Um rouxinol macho que pode cantar alto e por muito tempo convence as fêmeas de que ele deve ter uma saúde vigorosa, e aquele que tem um grande repertório de diferentes melodias deve ser experiente ou engenhoso, ou ambos. Perdizes machos inflam os sacos de ar em seus papos para se exibir às perdizes fêmeas. O pesquisador Mark Boyce e seus colegas da Universidade de Wyoming pintaram manchas nos papos dos perdizes que se assemelhavam a carrapatos, e descobriram que as fêmeas evitavam esses machos pintados. 

E por que as fêmeas dessas espécies são atraídas por esses adornos (sonoros ou visuais)? Várias teorias explicam o fenômeno. O pavão macho carrega uma espalhafatosa cauda colorida que sinaliza sua posição, espanta presas e atrai predadores. Assim, ele tem uma desvantagem em relação ao macho sem o adorno, e é exatamente essa desvantagem que comunica às fêmeas que ele possui bons genes. Afinal, um macho fraco com parasitas não conseguiria sobreviver se ainda tivesse de carregar o fardo da cauda inconveniente. 

Mais do que isso: arranjos elaborados e simétricos, como os das aves-do-paraíso (família Paradisaeidae), são uma maneira de o portador anunciar que seus genes estão em ordem e que seus herdeiros não receberão mutações indesejadas. Isso funciona porque os genes que fazem com que o ornamento apareça estão sujeitos a mutações aleatórias, mas quanto mais complexo o ornamento, maior a probabilidade de uma mutação aleatória tornar o ornamento menos caprichoso, e não mais perfeito. Por quê? 

Matt Ridley descreve uma mutação como uma chave inglesa arremessada aleatoriamente na máquina genética: jogar uma chave inglesa em um dispositivo simples, como um balde, pode não alterar muito sua função, mas lançar uma chave inglesa em um dispositivo mais complicado, como uma bicicleta, quase certamente irá estragar algo na bicicleta. Mutações aleatórias podem aprimorar a “bicicleta genética”, mas é muito improvável. Assim, qualquer mudança em um gene tenderá a tornar o ornamento menor, menos simétrico ou menos colorido.

Esse “viés mutacional” é suficiente, segundo os matemáticos, para fazer valer a pena da fêmea escolher o macho ornamentado porque significa que qualquer defeito no ornamento poderia ser herdado pelos filhos; ao escolher o ornamento mais elaborado, ela está escolhendo o macho com o menor número de mutações. Com múltiplas cores e formatos de penas, cada ave-do-paraíso tem um desenho tão caprichoso que qualquer assimetria ou defeito em suas penas saltaria aos olhos dos outros indivíduos da espécie. Mesmo entre humanos, a noção de beleza e atração está profundamente ligada com a simetria.

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