Do Leitor
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“O que mais falta ao mundo hoje é empatia”

Jornalista goiano residente em Porto Alegre usa exemplos cotidianos para falar da falta de empatia no mundo de hoje

Jornalista goiano residente em Porto Alegre usa exemplos cotidianos para falar da falta de empatia no mundo de hoje

Marcelo Igor de Sousa

O que está mais em falta neste mundo? Pensei nessa pergunta quando já tinha a resposta na cabeça: empatia. Parece-me que ela está em falta. Duas cenas me chamaram a atenção neste fim de semana em Porto Alegre.

1) Depois do temporal que fez tremendos estragos na cidade, fui atrás de um vidraceiro. No caminho, vi uma árvore derrubada e fiquei olhando e fotografando — como foi o esporte dos moradores da capital neste fim de semana. Foi quando um rapaz passou por mim e me disse: “Imagina para mim, que estou na rua”. Como não havia imaginado isso até aquele momento? Nas praças estão tantas pessoas; e nessas praças estavam dezenas de árvores caídas. A colocação do rapaz me tirou o ar e me fez entender que meu drama era um tanto relativo. E foi assim, que, no domingo à tarde, depois de amenizadas as chuvas e as intempéries, um grande grupo de pessoas se aglomerou na entrada do Banco Bradesco. Vizinhos, não sei bem, se juntaram para reclamar: “Imagina se alguém precisa sacar um dinheiro, não há como!”. Talvez, no domingo à tarde, depois de sexta e sábado, esse seria o primeiro momento de sono daquelas pessoas. Aquilo me fez recordar da fala do rapaz que andava com a mochila quase que procurando um lugar seguro que ainda restasse, pois ter a casa atingida vai ser sempre menos que ter a rua toda atingida. Quiçá os amigos do banco pudessem ser tocados um dia a pensar como é se colocar no lugar do outro, a estar ao lado de pessoas concretas. Como faz bem dispor-se a enxergar o mundo a partir do outro. Enfim, há a chance de, em algum momento, abrir-se à alteridade.

2) Após alguém postar um curto vídeo de uma abordagem violenta por parte de agentes militares, uma pessoa, em poucos minutos, coloca o comentário: “Se está apanhando é porque não deve ter feito coisa boa. Se os pais não souberam educar, então um dia vai levar o que mereceu. Não vejo erro nenhum dos policiais aí”. A generalização tremenda mostra a incapacidade de parar ao menos para pensar que num Estado que se apresenta como democrático a cena não pode ser aceitável. A separação fictícia “cidadão de bem”, sabe se lá por quais mo­tivos, e criminosos (pela cara, pela condição social etc.) impede qualquer empatia. Creio que a mensagem é que, antes de qualquer esbravejamento, determinação ou ditação de regra, cabe aquela pausinha que ensina muito: “E se fosse comigo?”

É textão? É. É lição de moral? Não. É preocupação comigo e com o mundo? É.

Creio que escrever isto me ajuda a pensar no meu compromisso com este mundo. Em como posso ser mesquinho, egoísta. E como preciso melhorar a cada dia.

Marcelo Igor de Sousa é jornalista, doutorando em Comunicação na Unisinos (RS) e servidor público federal na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

 

“A vida de um professor se prolonga em outras vidas”

Tom Coelho

Minha paixão pela banda Supertramp, ainda quando garoto, levou-me a apreciar um instrumento musical em particular: o saxofone. Tanto que decidi comprar um, usado mesmo, e busquei um instrutor na expectativa de, um dia, tocar “The Logical Song” [um dos maiores hits da banda]. Mas para atingir este estágio, descobri que teria de aprender escalas musicais, além de ler partituras.

Meses se passaram e, frustrado, descobri-me absolutamente desprovido de talento musical. Olhar para um pentagrama com claves de sol, semibreves, colcheias, bemóis e sustenidos era um atestado de ignorância plena. Era o mesmo que vislumbrar a fórmula do tolueno sem entender nada de química orgânica.

Resignado, no auge de minha adolescência, aposentei meu sonho. E, desde então, o sax passou a ser um mero adorno. Aproveitando sua beleza estética, passei a afixá-lo na parede de escritórios e, mais tarde, na sala de estar de minha casa.

Quase duas décadas depois, numa daquelas fases da vida que decorrem de uma crise existencial, experimentei o meu “momento da virada”. Dentre diversas deliberações, estabeleci como meta aprender a tocar ao menos uma canção que fosse com o instrumento.

Foi quando conheci Alexandre Pena, um jovem professor que, de tão apaixonado por música, desenvolveu seu próprio método. E ele, com ponderação e tolerância, fez-me compreender que eu poderia não ter talento, mas tinha inteligência musical suficiente para aprender a tocar saxofone. Escala por escala, acorde por acorde, rompi o bloqueio mental que se instalara e aprendi a apreciar a música e a estudá-la rotineiramente. Dizem os dicionários que professor é aquele que professa, seja uma crença ou uma religião. E você só pode professar algo em que acredita, confia e segue…

Shakespeare, por sua vez, dizia que “heróis são pessoas que fizeram o que era necessário, arcando com as consequências”. Quando elegemos um guru, e muitos professores assumem este papel, em verdade estamos vislumbrando um herói, que ao longo de toda uma trajetória de erros e acertos pavimentou uma trilha pela qual o aprendiz transita com segurança e conforto.

O tempo passa e cada um de nós também abre clarões por entre a mata. E nos descobrimos igualmente como heróis, em especial quando dispostos a arcar com as consequências. Como educadores, esta é nossa maior e talvez única missão: inspirar nossos alunos. Ajudá-los a se descobrirem, a desenvolverem suas múltiplas inteligências. Trabalhar habilidades técnicas, mas também comportamentais e valorativas. Propor­cionar-lhes a oportunidade de caminhar pelo chão batido ou asfaltado de terrenos abertos e sinalizados pelo prazer ou pela dor de nossas experiências.

Muitos já devem ter sido os alunos que capitularam em seus anseios, expectativas e sonhos por conta de maus mestres que, consciente ou inconscientemente, regaram sementes com fel ou as lançaram em terreno infértil. Mas, felizmente, há também aqueles que promoveram o entusiasmo e despertaram vocações. Porque a vida de um professor se prolonga em outras vidas.

Tom Coelho é educador, escritor e palestrante em gestão de pessoas e negócios.
E-mail: [email protected]

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