“A novidade não é a judicialização da política, mas a midiatização do Judiciário”

Marcelo Rizzo

Parece-me que o termo da moda “judicialização da política” está absolutamente errado. A política não foi judicializada agora. Fernando Henrique Cardoso, José Sarney, Lula e outros presidentes anteriores sempre foram acusados e muitas vezes julgados por um tribunal.

Sempre houve procuradores e delegados meio malucos. Lembram-se de um magrinho de óculos, que era considerado “petista” na época de FHC? Portanto, a Lava-Jato tem todo o direito de sair acusando – aliás, é o que acusadores fazem.

Então, parece-me que a grande mudança foi, isso sim, a “midiatização do Judiciário”. Ou seja, o Judiciário acabou sendo deslocado para uma esfera em que a opinião pública torna-se a principal balizadora do processo. É esse o grande cerne da coisa: as acusações deixam de ficar “escondidas” no processo legal para serem discutidas por Merval Pereira e Cristiana Lôbo na Globonews. Toda entrevista com um político sobre isso agora sempre tem um momento em que o sujeito fala: “Eu enfrentei diversas acusações e blablablá…”. Acusações essas que não foram debatidas em público em um momento anterior, seriam agora. Um terço dos deputados federais são acusados de algo. Essas acusações são de um paradigma anterior.

Pergunto então: a política estava judicializada? Sempre esteve. O que ocorria era a acusação (ou a condenação) se “midiatizar”. Nesse sentido, tanto a Globo como Sérgio Moro e sua estratégia de destruir a reputação dos acusados – o que deixou impresso em texto – são pontos essenciais nisso.

Temos, então, um segundo debate, o que diz respeito à ocupação de espaço. Observa-se que o Judiciário não ocupou espaço nenhum a mais. Pelo contrário, o espaço em que se movimentava sem escrutínio foi absolutamente diminuído. Tanto que hoje tem de se curvar à acusação. Isso se enxerga a olho nu: o Judiciário foi se encolhendo e não aumentando. Tinha a aparência de seu aumento enquanto concordava com a opinião pública. Mas, quando ele discorda, percebe.

Marcelo Rizzo é historiador e doutorando em História da Economia pela UFG.

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