Do Leitor
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“No ônibus, todos viram os cabelos brancos de meu pai. Mas ninguém deu seu lugar a ele”

VALÉRIA RAMOS

Quero reclamar da falta de estrutura dos ônibus do Eixo Anhanguera, que é minha linha de uso diário. Minha lamentação, além daquela que já faço em relação aos governantes, é em especial pela falta de educação das pessoas que usam esse meio de transporte. Por toda a concepção do sistema, é compreensível em alguns momentos a selvageria que existe nas plataformas na hora de entrar em uma condução dessas e que, no momento de ir para casa, todos querem embarcar ao mesmo tempo.

Mas, esses dias, fiquei me perguntando se em algum momento da vida alguém pensou ou pensa em agir diferente. Em ter um pouco mais de paciência, em ser um pouco mais delicado, em ser um pouco mais solidário.

Na segunda-feira, 9, como sempre, me levantei às 5 horas da matina para me ajeitar e tomar o Eixo por volta de 6h15. Mas havia certa mudança na viagem. Meu pai, que nasceu no dia 8 de setembro de 1942 – no dia da Natividade de Nossa Senhora —, um senhor de quase 74 anos, estava comigo. Coitado, experimentou o gosto amargo de viajar de Eixo! E que gosto amargo, para mim e para ele.

Às 6h23 entramos. Meu pai sentou-se? Adivinhem: não! Por um milagre, o ônibus não estava daquela forma em que não se consegue nem respirar; estava até com certo espaço a mais. Deu para ficar em pé a viagem toda sem muitos empurrões. Porém, para o meu pai, que mora numa pacata cidade de 30 mil habitantes, foi simplesmente o fim da vida entrar naquele ônibus. Para ele, a quantidade de pessoas era absurda. E inúmeras vezes reclamou: “Deus me livre, como você aguenta?”. Eu respondi: “Nem, eu não aguento isso não!”. Ele retrucou: “Valéria, é a última vez que venho aqui para fazer essa manutenção (referindo-se à manutenção no aparelho do ouvido, pois com a idade ele perdeu quase toda a audição e a cada 6 meses precisa vir a Goiânia fazer ajustes), não volto mais de jeito nenhum! Deus me livre, como você consegue vir cinco dias por semana neste ônibus?”

A cada reclamação do meu pai, meu coração cortava. E eu tentava consolá-lo dizendo: “Papai, hoje está bom: nem tem empurrões, eu sempre venho espremida.” Mas isso não amenizou em nada a situação.

Com sérios problemas de coluna e dores no joelho, ele não aguenta ficar muito tempo de pé, tampouco caminhar muito. No entanto, todos viram seus cabelos brancos, seu rosto já conta a idade que tem. Mas ninguém, ninguém mesmo, se ofereceu para se levantar e ceder-lhe o assento. E nós também não pedimos. Fomos educados de forma diferente: se virmos alguém que precise se ajuda, não esperamos que nos peça; com isso, também não aprendemos a pedir. Somos do tipo que acha que a pessoa precisa ter “desconfiômetro”. In­felizmente, a maioria não é assim.

Eu me senti triste, magoada, impotente. Ainda mais neste momento de crise, essa sensação de impotência é ainda maior. Quando eu olhava para o rosto do meu pai a fazer caretas de dor, eu pensava: meu Deus, quanta falta faz um carro! Não é justo que meu pai, depois de tanto trabalho que teve na vida, não possa ser conduzido com o mínimo de conforto a uma clínica para cuidar da sua saúde. Não é justo meu pai ter tido que levantar às 5 horas para sair comigo. Mas eu não tive alternativa: ou o levava comigo ou o levava comigo. A consulta era às 15 horas, mas como ir para Goiânia trabalhar de manhã e voltar para busca-lo? E, de todo jeito, o buscaria de ônibus. Então, o jeito foi pular da cama cedo.

Com relação à atitude das pessoas, penso que estamos precisando rever certos conceitos. No ônibus de hoje, havia muitas pessoas jovens – sentadas nos bancos destinados aos idosos, inclusive. Entre os que tinham direito, não era só o meu pai que estava em pé. É triste isso. Como nossas crianças e jovens estão sendo educados? Ninguém mais ensina a eles que é preciso ser solidário e respeitoso de vez em quando?

Dormindo sentados estavam, dormindo sentados permaneceram. E só no terminal do Dergo meu pai conseguiu uma vaga. Na praça A, trocamos de ônibus. E querem ouvir uma novidade? Contarei: é claro que meu pai não se sentou, o que só ocorreu ao chegar à plataforma da Avenida Goiás. Mas no próximo ponto já desceríamos. Mesmo assim, ele disse: “Já serve, não estou aguentando de dor nas pernas e nas costas, qualquer tanto que eu me sentar está bom!”. Tive vontade de desaparecer do mapa naquele momento. Ver meu pai se conformar de se sentar por um segundo foi dolorido demais.

Mas, fazer o quê? É a triste realidade do nosso transporte público, que não prioriza nada. É a triste realidade da educação que está sendo dada aos novos. Paciência.

Valéria Ramos é secretária.

 

 

Layout 1“Temos de respeitar quem pensa diferente da gente”

ADRIANA ACCORSI

Minha gratidão ao jornalista Euler de França Belém pela gentileza em momento tão difícil. Suas ponderações nos chamam a atenção para o ódio e a intolerância que estão permeando as relações, sobretudo nas redes sociais. Todos nós temos de combater esse ódio e respeitar quem pensa diferente da gente. Muito obrigada, em nome de minha família. [“Desejar a morte da deputada Adriana Accorsi mostra o nível do debate ‘político’ nas redes sociais”, Jornal Opção 2131, coluna “Imprensa”]

Adriana Accorsi (PT) é deputada estadual.

 

 

“É provável é que Delegado Waldir tire Iris do 2° turno”

GILBERTO MARINHO

Em relação ao Editorial “Iris Rezende e Waldir Soares podem ficar fora do 2º turno na disputa pela Prefeitura de Goiânia?” (Jornal Opção 2131), tenho a dizer que, como a campanha eleitoral ainda não começou só é possível cogitar, pois não há dados para uma abordagem mais científica. Mas ressalto que há algo de premonitório na pergunta, pois se há alguém que tira votos de Iris Rezende (PMDB) é justamente Delegado Waldir (PR). Assim, o mais provável é que o delegado tire Iris do 2° turno, repetindo, assim, o que fez com Dona Iris (PMDB) na eleição para deputado federal, pois parcela considerável dos eleitores do casal Iris é da população de baixa renda, mais sensível ao discurso e às práticas populistas.

Gilberto Marinho é jornalista.

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