Do Leitor
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Dorme, menino sírio!

sirio

DHA / Asspciated Press

Anderson Alcântara

Dorme menino sírio, não acorde para nenhuma vida! Não sois filho da promessa, não sois povo escolhido! Da vida nada ganhastes além de um nome: Aylan Kurdi. Um nome que em vida não sensibilizou nenhum coração. Dorme o sono eterno em sua posição fetal. Não há do outro lado nenhum Deus, nenhum homem, nenhuma lei a lhe abrir o imenso mar. Não há vida em abundância, sequer um fiapo de vida a atracar ao seu magro destino. Dorme menino, logo será um farrapo desimportante no mar das estatísticas.

Foge da morte, mas a morte lhe espera no cais. Foge da dor, mas a dor lhe arrebata em suas mãos. Não há coisas de menino do outro lado. Não há outro menino a lhe esperar com uma bola debaixo do braço. Há apenas o mar e seu terror, sua gula, seu implacável cemitério.
(sobre o texto “A Europa não queria ver a foto de Aylan Kurdi, de 3 anos, morto numa praia da Turquia”, de Edmar Oliveira, Jornal Opção 2096)

Anderson Alcântara é jornalista e escritor.

“A Europa, hoje, recebe o que construiu”

Felippe Jorge Kopanakis

Uma das primeiras medidas dos países europeus a partir do século 15 era proibir a língua nativa dos povos dominados. Isto quebrava toda uma cultura ancestral e criava uma nova relação entre dominador e dominado. Eram obrigados a falar a língua e “engolir” a nova cultura. Tanto que em todos os países africanos hoje existem várias línguas oficiais. Somente em Angola são seis. A Europa, hoje, recebe o que construiu. É muito mais fácil fugir para um país onde eu fale e compreenda a língua do que ir para um lugar onde não posso me comunicar.

“Ninguém tem feito mais do que a Alemanha pelos refugiados”

Arnaldo B. S. Neto
Todos os refugiados tem a Alemanha como destino preferencial. Um país que combina eficiência estatal, instituições inclusivas e mercados dinâmicos. Escolados por terem experimentado a violência e o obscurantismo dos dois totalitarismos que marcaram o século 20, os alemães não tem ambiguidades para com a democracia. Já foram ao inferno com hiperinflação, guerras e Estados policiais. Sabem que sua coesão social depende da inteligência de seu sistema educacional e da excelência da sua saúde pública.

Conservadores em poupança e investimentos, acreditam mais em organização e disciplina. Alemanha tem empresas fortes e inovadoras e suas universidades criam conhecimento de ponta. Fazem as máquinas que outros países usam para produzir mercadorias. Muito fácil criticar a Alemanha atual pela sua resistência em receber mais que 20 mil refugiados por mês (o Brasil recebeu 8 mil desde que o conflito sírio começou, anos atrás). Mas ninguém tem feito mais do que eles! Uma grande nação e um grande povo, já de muito redimidos do eclipse dos anos 30 e 40.

A Europa pode fazer mais pelos refugiados, sim. Mas vamos criticar primeiro as ideias retrógradas do primeiro-ministro húngaro, Viktor Orbán, que quer ver o que ele chama de “identidade” europeia congelada no tempo. Como se “identidade” não fosse algo em permanente movimento, um princípio dinâmico que se modifica o tempo todo. Outros países não estão oferecendo apoio algum, mas, ao contrário, contribuem para manter o conflito na Síria.

Arnaldo B. S. Neto é professor universitário.

“Ele superou tudo, menos a barreira do capitalismo”

João Carvalho

Este menino sobreviveu às bombas e à guerra, aos loucos do Estado Islâmico e à escassez de comida e água, mas não conseguiu superar uma barreira que impede muitas vezes os pobres de terem acesso à liberdade, comida e trabalho em qualquer lugar do mundo: não conseguiu superar a barreira do capitalismo. Todos esses países que não querem pobres nos seus territórios são capitalistas, ricos, endinheirados e fechados na sua própria insensibilidade diante do ser humano mais carente.

“Tragédias se repetirão até bater em nossa porta”

Manoel Francisco Pereira

O que torna a humanidade cada dia mais insensível é cometer sempre o mesmo erro de esquecer as tragédias e holocaustos rapidamente. Elas, então, sempre se repetem com maior proporção, até que um dia uma delas bate em nossa porta. Só aí entenderemos o seu peso e suas consequências.

“Em poucos dias, essa foto não vai mais incomodar”

Ton Alves

E acreditem! Dentro de poucos dias esta foto não comoverá nem incomodará nem um pouco nosso confortável comodismo. Se não aparecer outra tragédia, alguma fofoca irrelevante de uma celebridade descartável vai virar motivos de curtidas e likes nas redes sociais.

Ton Alves é jornalista.

“Votei em Collor e vou levar esse erro para o caixão”
| Foto: Agência Senado

| Foto: Agência Senado

Gloria Anaruma

Eu votei em Fernando Collor [ex-presidente da República, hoje senador pelo PTB] porque pensei que ele seria um bom presidente, apesar de ser alertada por quem o conhecia sobre “como era a peça”. Fiz minha mãe votar também em Collor. Deu no que deu. Vi meu pai aposentado, com os olhos marejando com a aposentadoria que foi reduzida a pó; quatro conhecidos morreram por causa do confisco de todo o dinheiro no banco — e não só a poupança; minha mãe não se conformava de tê-la convencido a votar no sujeito que lesou todos os brasileiros de bem, pois os poderosos tiraram o dinheiro deles antes. Então, vou levar para o caixão este erro que não tem conserto. Eu também eu sofri tanto financeiramente quanto moralmente, mas mereci, por confiar num belo falar e não em um conselho de quem o conhecia. Falo sem vergonha porque o fardo é meu, mas o alerta fica para os demais que vierem: procurem saber de quem vive perto como a pessoa é.

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