Edgar Welzel
Edgar Welzel

Ursula von der Leyen apresenta a sua equipe para o novo comando na Comunidade Europeia

A nova presidente não conseguiu compor o seu quadro dentro do prazo oficial — por isso só poderá assumir suas funções em 1° de dezembro

Ursula von der Leyen, que deveria ter assumido a presidência da Comissão Europeia em 1° de novembro, escolheu seus auxiliares diretos — os quais, no entanto, não levam o título de ministro. São os comissários que, na prática, exercem função idêntica à de um ministro de Estado. Na escolha, que não lhe foi fácil, ocorreram alguns transtornos. A nova presidente não conseguiu compor o seu quadro dentro do prazo oficial de forma que só poderá assumir suas funções em 1° de dezembro. Até lá os atuais dirigentes continuarão interinamente em suas funções.

Ursula von der Leyen assume a presidência da Comissão Europeia no início de dezembro deste ano | Foto: Reprodução

Cada país dos 28 membros da União Europeia tem o direito de indicar um comissário com exceção do país de origem do presidente, atualmente a Alemanha com Ursula von der Leyen. São, portanto, vinte e sete candidatos que, primordialmente, deverão ter a aceitação de von der Leyen, além de submeter-se a uma escabrosa sabatina no Parlamento Europeu e, posteriormente, eleitos em votação parlamentar majoritária.  Em virtude do Brexit, questão ainda não resolvida, a Grã-Bretanha absteve-se de indicar um candidato de forma que que Ursula von der Leyen provavelmente terá apenas 26 comissários.

Em seu último discurso de sua campanha eleitoral no Parlamento Europeu Ursula von der Leyen declarou que em sua gestão 50% dos postos a comissário deverão ser ocupados por mulheres. Os chefes de governo foram solicitados a indicar dois candidatos para cada posto, um homem e uma mulher, e ela decidiria por um dos dois; só então o candidato por ela preferido enfrentaria a sabatina e o processo de votação no Parlamento Europeu.

A declaração de von der Leyen, interpretada por alguns chefes de governo  como exigência, causou polêmica. Comentários como “indicaremos nosso candidato por capacitação e não por gênero”, “capacidade ou aptidão não tem sexo”, “competência é assexual e é a única coisa que conta, independentemente se for homem ou mulher”, vieram de todos os quadrantes, em especial dos países do leste europeu. Ao mesmo tempo o assunto viralizou e, como em muitos casos, oscilou entre comentários de respeitoso nível e os de maioria não publicáveis.

Diante deste quadro, houve indícios de que a primeira sugestão de Ursula von der Leyen, na ocasião ainda não eleita, redundaria em fracasso. Fato é que, apesar da polêmica, Ursula von der Leyen conseguiu o que muitos, desde o início, achavam impossível:  formou sua equipe com 12 mulheres e 14 homens, uma participação feminina de 46% nunca antes registrada na história da União Europeia. (Relação que poderá mudar, dependendo dos candidatos que a Hungria e a Romênia ainda indicarem). No governo de Jean-Claude Juncker a participação feminina foi de apenas 32%, nove mulheres e 19 homens.

O método de pré-seleção de Ursula von der Leyen que, obviamente acabou decidindo a seu bel-prazer por mulheres simplesmente para preencher seus próprios objetivos, foi criticado pela mídia e, em especial, pelos chefes de governo como não democrático. Uma crítica irrefutável que a acompanhará com um gosto amargo nos próximos cinco anos de seu governo considerando que o tema “quota feminina” é, há anos, altamente discutido e politizado na Europa.

Os 26 futuros comissários são representantes de três grandes partidos políticos ativos nos países da União Europeia: liberais, cristãos-democratas e social-democratas.

Os transtornos que causaram a prorrogação da posse de Ursula von der Leyen ocorreram no Parlamento Europeu. Três de seus candidatos preferidos não conseguiram passar pela sabatina. Segundo o jargão de Estrasburgo foram “grelhados”.

Quem foram os candidatos reprovados?

O primeiro candidato reprovado foi Laszlo Trocsanyi, da Hungria, que tinha sido designado para o  posto de “Expansão da União Europeia”. Trocsanyi nem chegou a ser sabatinado. Seu requerimento foi refutado por apenas uma omissão em suas declarações. Laszlo Trocsanyi, que pertence ao partido Fidesz, era ministro de Justiça no atual governo do controvertido Viktor Orbán o que não foi motivo para a refutação de seu requerimento.

Trocsanyi omitiu em seu requerimento que, enquanto ministro da Justiça, continuou a trabalhar como advogado em seu escritório de advocacia.  Em muitos países tal omissão talvez não teria sido motivo de impedimento. Em Estrasburgo e Bruxelas, no entanto, valem outras regras.

O segundo candidato grelhada foi a romena Rovana Plump,cujos motivos já envolvem negociatas  mais graves.  A candidata à comissária tinha sido prevista para a pasta dos Tranportes. Rovana Plump, que há anos já é deputada no Parlamento Europeu, também tropeçou por omitir um detalhe, neste caso um crédito bancário, em seu requerimento de candidatura.

Rovana Plump solicitou um crédito bancário particular num valor de 147 mil euros, (cerca de R$ 655 mil) um valor longe de exorbitante dentro de um procedimento totalmente normal. Acontece que Rovana Plump não usou o crédito que lhe foi concedido para uma necessidade particular. Ao contrário doou a quantia ao Partido Social Democrático da Romênia ao qual pertence. Em compensação o partido indicou-a, via governo, como candidata à comissária em Bruxelas. Uma candidata, com o emprego de tal negociata, não tem chance a posto nenhum em Bruxelas.

A terceira candidata não aprovada na sabatina foi Sylvie Goulard, da França, que deveria ser nomeada comissária para Assuntos Industriais, um tema chave segundo analistas negligenciado no período de Jean-Claude Junker. Esta terceira “grelhada” foi a de maior impacto por ter provocado grave colisão entre o presidente da França, Emmanuel Macron, e Ursula von der Leyen.

Lembremos que Emmanuel Macron, junto com a chanceler Ângela Merkel, da Alemanha, foi o arquiteto que levou Ursula von  der Leyen ao mais alto cargo político da União Europeia. E já agora, um conflito entre os dois? O quê é que aconteceu?

Emmanuel Macron indicou três candidatos, dois homens e uma mulher, a já mencionada Sylvie Goulard, a comissário para Assuntos Industriais. Ao indicá-los teve um contato com Ursula von der Leyen no qual deixou claro: “Os três candidatos são excelentes profissionais. Mas tenha cuidado com a mulher. O seu passado poderá causar transtorno”.

Ursula von der Leyen, no intuito de alcançar os seus 50% de participação feminina, ignorou completamente o aviso de Emmanuel Macron e optou pela candidata feminina, Sylvie Goulard, filiada à bancada dos partidos liberais, desde 2009 deputada no Parlamento Europeu e figura por demais conhecida em Bruxelas; por curto período chegou a ocupar o ministério da Defesa da França em 2018.

Sylvie Goulard angariou sólida experiência em Bruxelas, conhece seus labirintos e tem excelentes contatos na alta esfera política da Alemanha, detalhe de importância para a indústria alemã; além disso Goulard é, desde maio de 2017,  conselheira e confidente do presidente Emmanuel Macron e consequentemente  pessoa de importância para o relacionamento entre Paris e Berlim. Desde janeiro de 2018 Goulard é vice-presidente do Banco Central da França. Além do francês, domina o alemão, italiano e o inglês. Com tal biografia, é lícita a pergunta: por que foi grelhada na sabatina do Parlamento Europeu?

Verdade é que Sylvie Goulard teve um problema de nepotismo ao empregar no Parlamento Europeu um funcionário fora dos quadros; além disso empregou parentes e amigos em outras instituições em Paris. No Parlamento Europeu foi condenada a devolver 45 mil euros por ordenados a funcionário não condizente. Tudo isso contribuiu para que Sylvie Goulard também perdesse o cargo de ministra da Defesa da França em 2018 que ocupara apenas por poucos meses.

O veredito da comissão da sabatina em Estrasburgo foi curto e claro: “Uma candidata condenada em Estrasburgo e com tais antecedentes  em seu próprio país, não pode ser comissária em Bruxelas”.

Para o presidente Macron o assunto foi um debacle. Magoado, comentou: “Ursula von der Leyen insistiu na candidata Sylvie Goulard!” Para amainar a situação, Ursula von der Leyen apressou-se a encontrá-lo pessoalmente no Palácio dos Elísios. Do encontro a dois foi vinculada apenas uma fotografia que mostra ambos sorridentes, de mãos dadas, no cumprimento de despedida. Verdade é que farpas verbais mordazes espicaçaram o encontro.

Por outro lado, não faltaram comentários críticos em relação ao próprio presidente Emmanuel Macron. Não foram poucos os colunistas que perguntaram: “Afinal, por que Macron indicou Sylvie Goulard, sua confidente, ciente que sua aceitação poderia ser problemática?”

Enquanto isso Emmanuel Macron indicou novo candidato. Segundo notícias das agências Reuters e AFP de 24 de outubro de 2019, confirmadas pelo Élysée, Thierry Breton, ex-ministro das Finanças deverá ser indicado para o posto de comissário para Assuntos Industriais e Mercado Interno da União Europeia.

Breton tornou-se conhecido na França enquanto chefe da France Télécom, responsável pelo total saneamento e privatização do cambaleante empreendimento. Em seguida foi membro do gabinete do então presidente Jacques Chirac no qual ocupou o cargo de ministro da Economia, Indústria e Finanças. Além disso, foi presidente executivo de vários grandes grupos entre os quais Thomson e Atos.

Paralelamente Thierry Breton é professor em várias universidades entre as quais na Harvard Business School. Sua especialidade: “Leadership and Corporate Accountability” (Liderança e Responsabilidade Corporativa). Segundo informe do Palácio dos Eliseus, Thierry Breton é “homem de ações” que conhece os mecanismos da indústria e tem “fundada competência” necessária para o cargo. Além disso “conhece as instituições em Bruxelas”.

Tanto a Romênia como a Hungria ainda terão que apresentar novos candidatos. Provavelmente também serão homens, já que a França também optou por esta via.

Feitas estas explicações achamos oportuno apresentar algumas das personalidades europeias que, junto com Ursula von der Leyen, formarão a equipe de comissários responsável no comando da Comissão Europeia, o mais alto órgão executivo da União Europeia. Veremo-nos limitados a apresentar apenas alguns candidatos que, com certeza serão os mais importantes e dos quais muito ouviremos no futuro.

Margrethe Vestager, da Dinamarca

Outra mulher de destaque que ocupará posto chave é Margrethe Vestager da Dinamarca, do partido liberal, candidata derrotada na eleição de maio passado ao posto de presidente da Comissão Europeia por falta de maioria. Vestager, já devidamente retratada nesta coluna, foi comissária para assuntos de Concorrência Comercial no governo de Jean-Claude Junker, tarefa que executou com competência não receando atritos, quase sempre vitoriosos, tanto com gigantes multinacionais quanto com governos europeus.

Em virtude de seu profissionalismo e competência, Margrethe Vestager é pessoa conhecida e respeitada não só em Bruxelas; sua reputação entre os chefes de governo também é indiscutível. Diante destes fatos, Ursula von der Leyen decidiu dar-lhe cargo de destaque. A dinamarquesa Margrethe Vestager é a única que responderá por duas pastas: permanecerá com a que já ocupara na gestão de Juncker, a da Concorrência Comercial e, adicionalmente, encabeçará a pasta da Digitalização, assunto de suma importância no conceito europeu.  A futura comissária já adiantou que se confrontará com as grandes monopolistas da área digital, área na qual vê graves distorções sujeitas a correções.

De acordo às regras do organograma todos os comissários são subordinados à presidente Ursula von der Leyen e obrigados a reportar diretamente a ela. Margrethe Vestager é a única exceção: na pasta da Concorrência Comercial Vestager é completamente autárquica, i.é., sem obrigatoriedade de reportar ou aceitar ordens de ninguém nem mesmo de sua chefe Ursula von der Leyen.  Além disso Margrethe Vestager ostenta o título adicional de vice-presidente executiva o que a coloca no papel de substituta de Ursula von der Leyen e uma das comissárias com o cargo mais influente na Comissão Europeia. Convém não esquecer seu nome.  Ao todo Ursula von der Leyen tem três comissários na posição de vice-presidentes executivos.

Frans Timmermans, da Holanda

Outro comissário que ostenta o título de vice-presidente executivo é o social-democrata Frans Timmermans da Holanda — mais um candidato derrotado na eleição de maio por falta de apoio de vários países do Leste Europeu. O poliglota Timmermans, já retratado em matéria passada, será responsável pela pasta de Assuntos Climáticos, tema prioritário para Ursula von der Leyen. “Só convenceremos os jovens que vão às ruas, caso tivermos soluções que atendam seus anseios”, disse von der Leyen. Os múltiplos talentos de Frans Timmermans, que também já foi comissário no governo de Jean-Claude Junker, e sua enorme capacidade de trabalho são conhecidos em Bruxelas. O problema climático é universal e a indicação de Frans Timmermans foi bem acolhida pela mídia europeia.

Valdis Dombrovskis, da Letônia

O terceiro comissário que exercerá a função de vice-presidente executivo é Valdis Dombrovskis da Letônia que ocupará a pasta das Finanças. Valdis Dombrovskis tem sólida formação.  Formou-se em Física na Universidade da Letônia e em Ciências Econômicas na Universidade de Riga. Trabalhou na Johannes-Gutenberg Universitaet de Mainz, na Alemanha; no Instituto de Física da Universidade da Letônia e foi assistente de pesquisa na Maryland University nos Estados Unidos.

A partir de 1998 foi especialista em macroeconomia no Banco do Estado da Letônia; em 2003 foi nomeado ministro das Finanças cargo que ocupou por curto período para se candidatar como deputado ao Parlamento Europeu onde foi eleito para o período de 2004 a 2009. Em seguida tornou-se chefe de governo da Letônia, seu país de origem, cargo que ocupou até 2014 quando retornou à Bruxelas onde, no governo de Jean-Claude Junker,  já ocupou a pasta das Finanças e foi um dos seus três vice-presidentes executivos; terá a mesma função e o mesmo título também  no novo governo de Ursula von der Leyen. Valdis Dombrovskis pertence ao partido Democratas Europeus e fala além de seu idioma materno o letão, o alemão, o inglês e o russo.   Em Bruxelas tem fama de político altamente competente.

Josep Borrell, da Espanha

Incumbência de suma importância na Comissão Europeia é o do encarregado para   assuntos exteriores cargo que corresponde a de um ministro das Relações Exteriores em qualquer país à nível nacional. Quem o ocupa nos dias atuais numa organização como a União Europeia, deverá estar ciente de que terá que ocupar e confrontar-se constantemente com vários focos explosivos em todos os quadrantes. Uma tarefa delicada por envolver tanto interesses europeus quanto internacionais.

Um dos grandes dramas europeus e mundiais é o da migração que envolve aspectos sociais, raciais e sobretudo religiosos. A infiltração islâmica e o suporte financeiro da Arábia Saudita a mesquitas e demais instituições religiosas islâmicas sem que haja controle rigoroso por parte das autoridades europeias é uma bomba-relógio que poderá, em qualquer dia do futuro, estremecer os alicerces não só da Europa como do mundo ocidental em seu todo.

Para a difícil tarefa de encarregado para assuntos exteriores, cujo título oficial é Alto Representante da União Europeia para Política Exterior e de Segurança, foi indicado o catalão Josep Borrell que sucederá Federica Mogherini, da Itália, cujo período expira em fins de outubro. Josep Borrell é o segundo espanhol a ocupar tal cargo desde a fundação da União Europeia; o primeiro foi Javier Solana de Madariaga, de 1999 a 2009.

Quase todos os candidatos à comissário são pessoas de excelente formação e muitos de larga experiência política. Josep Borrel também se enquadra nesta linha. Nascido em 1947 na região autônoma espanhola da Catalunha, ainda jovem filiou-se ao Partido Social Democrático da Catalunha (PSC).

Formou-se em Técnica Espacial na Universidad Politécnica de Madrid e em Ciências Econômicas na Universidad Complutense da mesma cidade; tem um Master da Stanford University e outro do Institut français du pétrole. Iniciou sua carreira política em Madrid onde foi membro da municipalidade de 1979 a 1982. A seguir assumiu altas funções no ministério das Finanças da Espanha. Em 1991 assumiu o ministério da Infraestrutura, Transportes e Meio Ambiente. Em 2004 foi eleito para o Parlamento Europeu onde foi presidente de 2004 a 2007; de 2010 a 2012 foi presidente da Escola Superior Europeia, em Florença, um instituto de pesquisa para a formação de elites fomentada pela União Europeia.

Diante do movimento separatista da Catalunha, liderado pelo então presidente daquela região autônoma, Carles Puigdemont, Josep Borrell posicionou-se claramente contra o movimento separatista de sua terra natal. Borrell foi, desde o início do movimento e continua sendo até hoje, ferrenho crítico de Carles Puigdemont.

Em 2018 Pedro Sánchez tornou-se chefe de governo da Espanha e indicou Josep Borrell como ministro das Relações Exteriores; após a eleição para o Parlamento Europeu, em maio passado, o Conselho Europeu indicou Josep Borrell como candidato ao posto de Alto Representante da União Europeia para Política Exterior.

Já ao assumir o ministério das Relações Exteriores em Madrid Josep Borrell, em um de seus primeiros depoimentos em relação ao problema migratório, exigiu mais segurança no controle das divisas exteriores da União Europeia. Em posição idêntica, porém mais ampla e influente em Bruxelas, Josep Borrell seguramente continuará a empenhar-se pela mesma causa em nível europeu.

Os demais 22 candidatos são, sem exceção, pessoas com ampla experiência política em seus países de origem e, não raro, com funções no exterior. Entre esses encontram-se 13 ministros ou ex-ministros; seis candidatos que já são comissários em Bruxelas;  um ex-presidente;  um presidente de banco e um diplomata. Por razões óbvias, eximimo-nos a mencioná-los e retratá-los de forma mais abrangente.

Como vemos, todo candidato ou candidata a comissário em Bruxelas deve preencher alguns requisitos básicos:  bom preparo, experiência política e idoneidade moral. Quanto ao último requisito, o candidato não pode ter nenhum “cadáver no porão”.  Detalhe este que terminou com a carreira de alguns candidatos, conforme descrito ao longo deste enredo.

Desde que foi introduzida a sabatina no Parlamento Europeu, todos os candidatos a postos mais relevantes tiveram e terão que se submeter a este procedimento.  Ursula von der Leyen, curiosamente, foi inocentada; não foi confrontada com a sabatina e muitos se perguntam: por que será?

Até lá os atuais dirigentes continuarão interinamente em suas funções.

Cada país dos 28 membros da União Europeia tem o direito de indicar um comissário com exceção do país de origem do presidente, atualmente a Alemanha com Ursula von der Leyen. São, portanto, vinte e sete candidatos que, primordialmente, deverão ter a aceitação de von der Leyen, além de submeter-se a uma escabrosa sabatina no Parlamento Europeu e, posteriormente, eleitos em votação parlamentar majoritária.  Em virtude do Brexit, questão ainda não resolvida, a Grã-Bretanha absteve-se de indicar um candidato de forma que que Ursula von der Leyen provavelmente terá apenas 26 comissários.

Em seu último discurso de sua campanha eleitoral no Parlamento Europeu Ursula von der Leyen declarou que em sua gestão 50% dos postos a comissário deverão ser ocupados por mulheres. Os chefes de governo foram solicitados a indicar dois candidatos para cada posto, um homem e uma mulher, e ela decidiria por um dos dois; só então o candidato por ela preferido enfrentaria a sabatina e o processo de votação no Parlamento Europeu.

A declaração de von der Leyen, interpretada por alguns chefes de governo  como exigência, causou polêmica. Comentários como “indicaremos nosso candidato por capacitação e não por gênero”, “capacidade ou aptidão não tem sexo”, “competência é assexual e é a única coisa que conta, independentemente se for homem ou mulher”, vieram de todos os quadrantes, em especial dos países do leste europeu. Ao mesmo tempo o assunto viralizou e, como em muitos casos, oscilou entre comentários de respeitoso nível e os de maioria não publicáveis.

Diante deste quadro, houve indícios de que a primeira sugestão de Ursula von der Leyen, na ocasião ainda não eleita, redundaria em fracasso. Fato é que, apesar da polêmica, Ursula von der Leyen conseguiu o que muitos, desde o início, achavam impossível:  formou sua equipe com 12 mulheres e 14 homens, uma participação feminina de 46% nunca antes registrada na história da União Europeia. (Relação que poderá mudar, dependendo dos candidatos que a Hungria e a Romênia ainda indicarem). No governo de Jean-Claude Juncker a participação feminina foi de apenas 32%, nove mulheres e 19 homens.

O método de pré-seleção de Ursula von der Leyen que, obviamente acabou decidindo a seu bel-prazer por mulheres simplesmente para preencher seus próprios objetivos, foi criticado pela mídia e, em especial, pelos chefes de governo como não democrático. Uma crítica irrefutável que a acompanhará com um gosto amargo nos próximos cinco anos de seu governo considerando que o tema “quota feminina” é, há anos, altamente discutido e politizado na Europa.

Os 26 futuros comissários são representantes de três grandes partidos políticos ativos nos países da União Europeia: liberais, cristãos-democratas e social-democratas.

Os transtornos que causaram a prorrogação da posse de Ursula von der Leyen ocorreram no Parlamento Europeu. Três de seus candidatos preferidos não conseguiram passar pela sabatina. Segundo o jargão de Estrasburgo foram “grelhados”.

Quais foram os candidatos reprovados?

O primeiro candidato reprovado foi Laszlo Trocsanyi, da Hungria, que tinha sido designado para o  posto de “Expansão da União Europeia”. Trocsanyi nem chegou a ser sabatinado. Seu requerimento foi refutado por apenas uma omissão em suas declarações. Laszlo Trocsanyi, que pertence ao partido Fidesz, era ministro de Justiça no atual governo do controvertido Viktor Orbán o que não foi motivo para a refutação de seu requerimento.

Trocsanyi omitiu em seu requerimento que, enquanto ministro da Justiça, continuou a trabalhar como advogado em seu escritório de advocacia.  Em muitos países tal omissão talvez não teria sido motivo de impedimento. Em Estrasburgo e Bruxelas, no entanto, valem outras regras.

O segundo candidato grelhada foi a romena Rovana Plump,cujos motivos já envolvem negociatas  mais graves.  A candidata à comissária tinha sido prevista para a pasta dos Tranportes. Rovana Plump, que há anos já é deputada no Parlamento Europeu, também tropeçou por omitir um detalhe, neste caso um crédito bancário, em seu requerimento de candidatura.

Rovana Plump solicitou um crédito bancário particular num valor de 147 mil euros, (cerca de R$ 655 mil) um valor longe de exorbitante dentro de um procedimento totalmente normal. Acontece que Rovana Plump não usou o crédito que lhe foi concedido para uma necessidade particular. Ao contrário doou a quantia ao Partido Social Democrático da Romênia ao qual pertence. Em compensação o partido indicou-a, via governo, como candidata à comissária em Bruxelas. Uma candidata, com o emprego de tal negociata, não tem chance a posto nenhum em Bruxelas.

A terceira candidata não aprovada na sabatina foi Sylvie Goulard, da França, que deveria ser nomeada comissária para Assuntos Industriais, um tema chave segundo analistas negligenciado no período de Jean-Claude Junker. Esta terceira “grelhada” foi a de maior impacto por ter provocado grave colisão entre o presidente da França, Emmanuel Macron, e Ursula von der Leyen.

Lembremos que Emmanuel Macron, junto com a chanceler Ângela Merkel, da Alemanha, foi o arquiteto que levou Ursula von  der Leyen ao mais alto cargo político da União Europeia. E já agora, um conflito entre os dois? O quê é que aconteceu?

Emmanuel Macron indicou três candidatos, dois homens e uma mulher, a já mencionada Sylvie Goulard, a comissário para Assuntos Industriais. Ao indicá-los teve um contato com Ursula von der Leyen no qual deixou claro: “Os três candidatos são excelentes profissionais. Mas tenha cuidado com a mulher. O seu passado poderá causar transtorno”.

Ursula von der Leyen, no intuito de alcançar os seus 50% de participação feminina, ignorou completamente o aviso de Emmanuel Macron e optou pela candidata feminina, Sylvie Goulard, filiada à bancada dos partidos liberais, desde 2009 deputada no Parlamento Europeu e figura por demais conhecida em Bruxelas; por curto período chegou a ocupar o ministério da Defesa da França em 2018.

Sylvie Goulard angariou sólida experiência em Bruxelas, conhece seus labirintos e tem excelentes contatos na alta esfera política da Alemanha, detalhe de importância para a indústria alemã; além disso Goulard é, desde maio de 2017,  conselheira e confidente do presidente Emmanuel Macron e consequentemente  pessoa de importância para o relacionamento entre Paris e Berlim. Desde janeiro de 2018 Goulard é vice-presidente do Banco Central da França. Além do francês, domina o alemão, italiano e o inglês. Com tal biografia, é lícita a pergunta: por que foi grelhada na sabatina do Parlamento Europeu?

Verdade é que Sylvie Goulard teve um problema de nepotismo ao empregar no Parlamento Europeu um funcionário fora dos quadros; além disso empregou parentes e amigos em outras instituições em Paris. No Parlamento Europeu foi condenada a devolver 45 mil euros por ordenados a funcionário não condizente. Tudo isso contribuiu para que Sylvie Goulard também perdesse o cargo de ministra da Defesa da França em 2018 que ocupara apenas por poucos meses.

O veredito da comissão da sabatina em Estrasburgo foi curto e claro: “Uma candidata condenada em Estrasburgo e com tais antecedentes  em seu próprio país, não pode ser comissária em Bruxelas”.

Para o presidente Macron o assunto foi um debacle. Magoado, comentou: “Ursula von der Leyen insistiu na candidata Sylvie Goulard!” Para amainar a situação, Ursula von der Leyen apressou-se a encontrá-lo pessoalmente no Palácio dos Elísios. Do encontro a dois foi vinculada apenas uma fotografia que mostra ambos sorridentes, de mãos dadas, no cumprimento de despedida. Verdade é que farpas verbais mordazes espicaçaram o encontro.

Por outro lado, não faltaram comentários críticos em relação ao próprio presidente Emmanuel Macron. Não foram poucos os colunistas que perguntaram: “Afinal, por que Macron indicou Sylvie Goulard, sua confidente, ciente que sua aceitação poderia ser problemática?”

Enquanto isso Emmanuel Macron indicou novo candidato. Segundo notícias das agências Reuters e AFP de 24 de outubro de 2019, confirmadas pelo Élysée, Thierry Breton, ex-ministro das Finanças deverá ser indicado para o posto de comissário para Assuntos Industriais e Mercado Interno da União Europeia.

Breton tornou-se conhecido na França enquanto chefe da France Télécom, responsável pelo total saneamento e privatização do cambaleante empreendimento. Em seguida foi membro do gabinete do então presidente Jacques Chirac no qual ocupou o cargo de ministro da Economia, Indústria e Finanças. Além disso, foi presidente executivo de vários grandes grupos entre os quais Thomson e Atos.

Paralelamente Thierry Breton é professor em várias universidades entre as quais na Harvard Business School. Sua especialidade: “Leadership and Corporate Accountability” (Liderança e Responsabilidade Corporativa). Segundo informe do Palácio dos Eliseus, Thierry Breton é “homem de ações” que conhece os mecanismos da indústria e tem “fundada competência” necessária para o cargo. Além disso “conhece as instituições em Bruxelas”.

Tanto a Romênia como a Hungria ainda terão que apresentar novos candidatos. Provavelmente também serão homens, já que a França também optou por esta via.

Feitas estas explicações achamos oportuno apresentar algumas das personalidades europeias que, junto com Ursula von der Leyen, formarão a equipe de comissários responsável no comando da Comissão Europeia, o mais alto órgão executivo da União Europeia. Veremo-nos limitados a apresentar apenas alguns candidatos que, com certeza serão os mais importantes e dos quais muito ouviremos no futuro.

Margrethe Vestager, da Dinamarca

Outra mulher de destaque que ocupará posto chave é Margrethe Vestager da Dinamarca, do partido liberal, candidata derrotada na eleição de maio passado ao posto de presidente da Comissão Europeia por falta de maioria. Vestager, já devidamente retratada nesta coluna, foi comissária para assuntos de Concorrência Comercial no governo de Jean-Claude Junker, tarefa que executou com competência não receando atritos, quase sempre vitoriosos, tanto com gigantes multinacionais quanto com governos europeus.

Em virtude de seu profissionalismo e competência, Margrethe Vestager é pessoa conhecida e respeitada não só em Bruxelas; sua reputação entre os chefes de governo também é indiscutível. Diante destes fatos, Ursula von der Leyen decidiu dar-lhe cargo de destaque. A dinamarquesa Margrethe Vestager é a única que responderá por duas pastas: permanecerá com a que já ocupara na gestão de Juncker, a da Concorrência Comercial e, adicionalmente, encabeçará a pasta da Digitalização, assunto de suma importância no conceito europeu.  A futura comissária já adiantou que se confrontará com as grandes monopolistas da área digital, área na qual vê graves distorções sujeitas a correções.

De acordo às regras do organograma todos os comissários são subordinados à presidente Ursula von der Leyen e obrigados a reportar diretamente a ela. Margrethe Vestager é a única exceção: na pasta da Concorrência Comercial Vestager é completamente autárquica, i.é., sem obrigatoriedade de reportar ou aceitar ordens de ninguém nem mesmo de sua chefe Ursula von der Leyen.  Além disso Margrethe Vestager ostenta o título adicional de vice-presidente executiva o que a coloca no papel de substituta de Ursula von der Leyen e uma das comissárias com o cargo mais influente na Comissão Europeia. Convém não esquecer seu nome.  Ao todo Ursula von der Leyen tem três comissários na posição de vice-presidentes executivos.

Frans Timmermans, da Holanda

Outro comissário que ostenta o título de vice-presidente executivo é o social-democrata Frans Timmermans da Holanda — mais um candidato derrotado na eleição de maio por falta de apoio de vários países do Leste Europeu. O poliglota Timmermans, já retratado em matéria passada, será responsável pela pasta de Assuntos Climáticos, tema prioritário para Ursula von der Leyen. “Só convenceremos os jovens que vão às ruas, caso tivermos soluções que atendam seus anseios”, disse von der Leyen. Os múltiplos talentos de Frans Timmermans, que também já foi comissário no governo de Jean-Claude Junker, e sua enorme capacidade de trabalho são conhecidos em Bruxelas. O problema climático é universal e a indicação de Frans Timmermans foi bem acolhida pela mídia europeia.

Valdis Dombrovskis, da Letônia

O terceiro comissário que exercerá a função de vice-presidente executivo é Valdis Dombrovskis da Letônia que ocupará a pasta das Finanças. Valdis Dombrovskis tem sólida formação.  Formou-se em Física na Universidade da Letônia e em Ciências Econômicas na Universidade de Riga. Trabalhou na Johannes-Gutenberg Universitaet de Mainz, na Alemanha; no Instituto de Física da Universidade da Letônia e foi assistente de pesquisa na Maryland University nos Estados Unidos.

A partir de 1998 foi especialista em macroeconomia no Banco do Estado da Letônia; em 2003 foi nomeado ministro das Finanças cargo que ocupou por curto período para se candidatar como deputado ao Parlamento Europeu onde foi eleito para o período de 2004 a 2009. Em seguida tornou-se chefe de governo da Letônia, seu país de origem, cargo que ocupou até 2014 quando retornou à Bruxelas onde, no governo de Jean-Claude Junker,  já ocupou a pasta das Finanças e foi um dos seus três vice-presidentes executivos; terá a mesma função e o mesmo título também  no novo governo de Ursula von der Leyen. Valdis Dombrovskis pertence ao partido Democratas Europeus e fala além de seu idioma materno o letão, o alemão, o inglês e o russo.   Em Bruxelas tem fama de político altamente competente.

Josep Borrell, da Espanha

Incumbência de suma importância na Comissão Europeia é o do encarregado para   assuntos exteriores cargo que corresponde a de um ministro das Relações Exteriores em qualquer país à nível nacional. Quem o ocupa nos dias atuais numa organização como a União Europeia, deverá estar ciente de que terá que ocupar e confrontar-se constantemente com vários focos explosivos em todos os quadrantes. Uma tarefa delicada por envolver tanto interesses europeus quanto internacionais.

Um dos grandes dramas europeus e mundiais é o da migração que envolve aspectos sociais, raciais e sobretudo religiosos. A infiltração islâmica e o suporte financeiro da Arábia Saudita a mesquitas e demais instituições religiosas islâmicas sem que haja controle rigoroso por parte das autoridades europeias é uma bomba-relógio que poderá, em qualquer dia do futuro, estremecer os alicerces não só da Europa como do mundo ocidental em seu todo.

Para a difícil tarefa de encarregado para assuntos exteriores, cujo título oficial é Alto Representante da União Europeia para Política Exterior e de Segurança, foi indicado o catalão Josep Borrell que sucederá Federica Mogherini, da Itália, cujo período expira em fins de outubro. Josep Borrell é o segundo espanhol a ocupar tal cargo desde a fundação da União Europeia; o primeiro foi Javier Solana de Madariaga, de 1999 a 2009.

Quase todos os candidatos à comissário são pessoas de excelente formação e muitos de larga experiência política. Josep Borrel também se enquadra nesta linha. Nascido em 1947 na região autônoma espanhola da Catalunha, ainda jovem filiou-se ao Partido Social Democrático da Catalunha (PSC).

Formou-se em Técnica Espacial na Universidad Politécnica de Madrid e em Ciências Econômicas na Universidad Complutense da mesma cidade; tem um Master da Stanford University e outro do Institut français du pétrole. Iniciou sua carreira política em Madrid onde foi membro da municipalidade de 1979 a 1982. A seguir assumiu altas funções no ministério das Finanças da Espanha. Em 1991 assumiu o ministério da Infraestrutura, Transportes e Meio Ambiente. Em 2004 foi eleito para o Parlamento Europeu onde foi presidente de 2004 a 2007; de 2010 a 2012 foi presidente da Escola Superior Europeia, em Florença, um instituto de pesquisa para a formação de elites fomentada pela União Europeia.

Diante do movimento separatista da Catalunha, liderado pelo então presidente daquela região autônoma, Carles Puigdemont, Josep Borrell posicionou-se claramente contra o movimento separatista de sua terra natal. Borrell foi, desde o início do movimento e continua sendo até hoje, ferrenho crítico de Carles Puigdemont.

Em 2018 Pedro Sánchez tornou-se chefe de governo da Espanha e indicou Josep Borrell como ministro das Relações Exteriores; após a eleição para o Parlamento Europeu, em maio passado, o Conselho Europeu indicou Josep Borrell como candidato ao posto de Alto Representante da União Europeia para Política Exterior.

Já ao assumir o ministério das Relações Exteriores em Madrid Josep Borrell, em um de seus primeiros depoimentos em relação ao problema migratório, exigiu mais segurança no controle das divisas exteriores da União Europeia. Em posição idêntica, porém mais ampla e influente em Bruxelas, Josep Borrell seguramente continuará a empenhar-se pela mesma causa em nível europeu.

Os demais 22 candidatos são, sem exceção, pessoas com ampla experiência política em seus países de origem e, não raro, com funções no exterior. Entre esses encontram-se 13 ministros ou ex-ministros; seis candidatos que já são comissários em Bruxelas;  um ex-presidente;  um presidente de banco e um diplomata. Por razões óbvias, eximimo-nos a mencioná-los e retratá-los de forma mais abrangente.

Como vemos, todo candidato ou candidata a comissário em Bruxelas deve preencher alguns requisitos básicos:  bom preparo, experiência política e idoneidade moral. Quanto ao último requisito, o candidato não pode ter nenhum “cadáver no porão”.  Detalhe este que terminou com a carreira de alguns candidatos, conforme descrito ao longo deste enredo.

Desde que foi introduzida a sabatina no Parlamento Europeu, todos os candidatos a postos mais relevantes tiveram e terão que se submeter a este procedimento.  Ursula von der Leyen, curiosamente, foi inocentada; não foi confrontada com a sabatina e muitos se perguntam: por que será?

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