Edgar Welzel
Edgar Welzel

Uma questão de hegemonia

Com o fim da 2ª Guerra Mundial em 1945, o mundo dividido em dois blocos, teve início à Guerra Fria

Vladimir Putin: astucioso, frio, imprevis├¡vel e p├®rfido para uns; para outros, apenas enigm├ítico| Foto: The Presidential Press and Information Office

Vladimir Putin: astucioso, frio, imprevis├¡vel e p├®rfido para uns; para outros, apenas enigm├ítico| Foto: The Presidential Press and Information Office

As opini├Áes sobre o presidente da R├║ssia, Vla┬¡di┬¡mir Putin, s├úo amb├¡guas. Para uns ├® astucioso, frio, imprevis├¡vel, p├®rfido; para outros, simplesmente enigm├ítico. ├ë prov├ível que nenhum dos predicados que lhe s├úo atribu├¡dos corresponda ├á re┬¡alidade. Para entender o que se oculta atr├ís do rosto do chefe do Kre┬¡m┬¡lin ├® necess├írio, antes de tudo, conscientizar-se das apreens├Áes que o perturbam. Tentaremos explic├í-las.

O malogrado tratado de associa├º├úo comercial entre a Ucr├ónia e a UE, em novembro de 2013, que mais tarde culminaria em acordo de livre com├®rcio, prepararia o terreno para a ades├úo da Ucr├ónia a UE e possivelmente tamb├®m a Organi-za├º├úo do Tratado do Atl├óntico Norte (OTAN). Presidente da Ucr├ónia era, na ├®poca, Viktor Janukowytsch, vinculado a Moscou. As gest├Áes, no entanto, j├í tinham sido iniciadas por seu antecessor, Viktor Juschtschenko, vinculado a Bruxelas.

Ap├│s a ruptura da Uni├úo So┬¡vi├®tica, a maioria dos ucranianos ansiava aproximar-se da UE tal qual os pa├¡ses do Leste Europeu e dos B├ílc├ús, sob hegemonia sovi├®tica desde o fim da 2┬¬ Guerra Mundial. Janukowytsch, apesar de seus v├¡nculos com Moscou, mas sentindo a press├úo dos ucranianos, optou por dar continuidade ├ás gest├Áes de aproxima├º├úo ├á UE iniciadas por seu antecessor Juschtschenko.

Vladimir Putin viu com desagrado a aproxima├º├úo de Kiev com Bruxelas. Dois dias antes da assinatura do acordo na reuni├úo de c├║pula dos chefes de governo dos 28 pa├¡ses da UE em Vilnius, capital da Litu├ónia, em fins de novembro de 2013, o presidente ucraniano, Viktor Janukowytsch, informou as autoridades em Bruxelas, depois de cinco anos de gest├Áes, que n├úo mais assinaria o documento com o argumento de que ÔÇ£a Ucr├ónia ainda n├úo estaria preparadaÔÇØ para filiar-se a UE.

O malogro, manuseado à distância diretamente de Moscou, irritou e decepcionou Bruxelas. Na Ucrânia a decisão repercutiu de forma redobrada. Em 21 de novembro de 2013, após o súbito anúncio do governo em Kiev que o acordo, de momento, não seria assinado, os ucranianos foram às ruas.

Tiveram in├¡cio as demonstra├º├Áes na Pra├ºa Maidan apoiadas com a presen├ºa de l├¡deres pol├¡ticos da Europa e dos Estados Unidos vistos ao lado dos manifestantes, cenas que obviamente n├úo foram do agrado de Vladimir Putin.

Os manifestantes reinvindicavam, entre outras, a assinatura do acordo, a demiss├úo do presidente Viktor Janukowytsch e novas elei├º├Áes. Os protestos na Pra├ºa Maidan terminaram com dezenas de mortos, Janukowytsch perdeu o cargo, houve novas elei├º├Áes e o sucessor (e atual) presidente, Petro Poros┬¡che┬¡nko, oligarca avesso a Moscou, faz de conta que esqueceu o assunto.

Com o fim da 2┬¬ Guerra Mundial em 1945, o mundo dividido em dois blocos, teve in├¡cio ├á Guerra Fria, o confronto entre Leste e Oeste ou Capitalismo e Comunismo. Em abril de 1949 foi criada a OTAN, uma alian├ºa de defesa entre os EUA e v├írios pa├¡ses europeus, para enfrentar a influ├¬ncia da Uni├úo Sovi├®tica nos pa├¡ses do Leste Europeu, subjugados pelo comunismo de St├ílin e Lenin.

Em maio de 1955 foi criado, no Leste Europeu, o Pacto de Var┬¡s├│via, outra alian├ºa de defesa e ajuda m├║tua em caso de agress├Áes militares liderada pela Uni├úo Sovi├®tica. Signat├írios, al├®m da Uni├úo Sovi├®tica, foram a Ro┬¡m├¬┬¡nia, Pol├┤nia, Bulg├íria, Hungria, Tchecoeslov├íquia e a Alemanha Oriental. A OTAN propiciou o estacionamento de milh├Áes de soldados americanos na Europa; o Pacto de Vars├│via, milh├Áes de soldados sovi├®ticos no Leste Europeu.

Com a queda do muro de Berlim em 1989, tamb├®m desabou a Uni├úo Sovi├®tica, fato que Vladimir Putin at├® hoje lamenta e ├® a causa de seu distanciado relacionamento com Michail Gor┬¡batch├®v. Culpa-o pela desagrega├º├úo da Uni├úo Sovi├®tica, pela perda de seguran├ºa da R├║ssia e argumenta que a abertura ├á democracia e ao livre mercado tamb├®m poderia ter sido conseguida sem a queda do Imp├®rio Sovi├®tico. Putin resumiu sua tese numa ├║nica frase: ÔÇ£A queda da Uni├úo Sovi├®tica ├® a maior cat├ístrofe geopol├¡tica do s├®culo XX.ÔÇØ

O mesmo fim teve o Pacto de Vars├│via que desagregou-se em 1995. A OTAN continua existindo e, por desgosto de Putin, foi substancialmente ampliada com ades├úo de v├írios pa├¡ses do Leste Europeu, anteriormente sob hegemonia sovi├®tica, entre os quais todos que pertenciam ao Pacto de Vars├│via.

A OTAN foi criada por 12 pa├¡ses; hoje s├úo 29. A amplia├º├úo da Uni├úo Europeia e da OTAN em dire├º├úo ao Leste (Teoria de Brzezinski) e projetos de amplia├º├úo ao sudoeste Europeu como Ge├│rgia, Ucr├ónia e Mold├ívia, pa├¡ses protegidos por tropas russas ou mil├¡cias locais pr├│-R├║ssia, s├úo incompat├¡veis com os planos pol├¡ticos e geoestrat├®gicos de Vladimir Putin.

Com uma superf├¡cie de 17.100 milh├Áes de km┬▓ (o dobro do Brasil) a R├║ssia tem uma popula├º├úo multi├®tnica de 146,5 milh├Áes de habitantes (incluindo a Cri┬¡meia), com 34 etnias e l├¡nguas. A religi├úo predominante ├® a Orto┬¡doxa Russa seguida do Isl├ú que representa 15 % da popula├º├úo. A R├║ssia, portanto, ├® o pa├¡s europeu com a maior participa├º├úo isl├ómica.

Sabemos, desde as duas guerras na Chech├¬nia, uma rep├║blica ant├┤noma dentro da R├║ssia no C├íucaso, onde separatistas isl├ómicos rebelaram-se contra o governo central em Moscou, que Vladimir Putin n├úo tolera manifesta├º├Áes isl├ómicas na R├║ssia e receia movimentos semelhantes nos pa├¡ses que a cercam.

No flanco sul, nos pa├¡ses da ├üsia Central que se limitam com a R├║ssia, predomina o Isl├ú. Dos 15 pa├¡ses isl├ómicos da ex-Uni├úo Sovi├®tica atualmente apenas 5 demonstram, embora d├®bil, simpatia com Moscou: Cazaquist├úo, Quirguist├úo, Tadjiquist├úo, Belarus e a Arm├¬nia. Os demais permanecem neutros ou mant├¬m-se ├á ÔÇ£reservada dist├ónciaÔÇØ.

Nos EUA, durante o governo do presidente Ronald Reagan (1911-2004), foi iniciado o projeto Strategic Defensive Initiative (SDI) incrementado no governo do presidente George W. Bush sob o nome de National Missile Defense (NMD) e prosseguido pelo presidente Barack Oba┬¡ma.Trata-se, resumidamente, de um cintur├úo de foguetes intercontinentais, guiados por sat├®lites, a serem instalados na Europa em terra e mar, desde a Finl├óndia, via B├íltico, Pol├┤nia, Hungria, Rom├¬nia e alguns pa├¡ses da ├üsia Central, com a finalidade de defender eventuais ataques do Ir├ú, um argumento que nunca convenceu o presidente Vladimir Putin. O argumento atual ├® o de defender a Europa de um eventual ataque da Coreia do Norte o que o convence ainda menos.

Em maio passado o ex├®rcito da Pol├┤nia realizou a ÔÇ£AnacondaÔÇØ, uma manobra militar de grande amplitude, com a participa├º├úo de 31 mil soldados, na qual foi simulado um ataque russo naquele pa├¡s. ÔÇ£Estamo-nos preparando para um ataque da R├║ssiaÔÇØ, declarou Andrzej Duda, presidente da Pol├┤nia.

Outra manobra militar internacional, a ÔÇ£Saber StrikeÔÇØ, foi realizada em junho passado, com a participa├º├úo de 10 mil soldados de 13 pa├¡ses membros da OTAN em tr├¬s campos de treinamento na Let├┤nia, Est├┤nia e Litu├ónia, a 150 kms da fronteira russa. Mais uma vez, Putin sentiu-se amea├ºado.

Jens Stoltenberg, secret├írio-geral da OTAN, informa que a Alian├ºa incrementar├í seus projetos armamentistas na Rom├¬nia onde colocar├í ├á disposi├º├úo soldados para uma brigada comandada por aquele pa├¡s. Trata-se de ÔÇ£uma presen├ºa feita sob medidaÔÇØ para a regi├úo do Sudoeste Europeu sob controle da OTAN, disse Stolten┬¡berg. Putin sente-se amea├ºado.

Al├®m destas medidas, a OTAN criou v├írias unidades me┬¡nores com um contingente m├íximo de 4 mil soldados, de r├ípida desloca├º├úo, a serem localizadas nos pa├¡ses b├ílticos e em outros pa├¡ses do Leste Europeu.

Na reunião de cúpula, realizada em 8 e 9 de julho passado em Varsóvia, a OTAN apresentou novos planos de defesa em reação à crise da Ucrânia e à política de Vladimir Putin com a qual sentem-se ameaçados, em especial, os países bálticos e a Polônia.

Vladimir Putin, chefe-supremo das For├ºas Armadas da R├║ssia, ordenou testar a mobiliza├º├úo do ex├®rcito russo em repress├úo ├ás manobras da OTAN no B├íltico e na Pol├┤nia. Putin age e reage de acordo.

Este desenvolvimento est├í sendo visto por alguns observadores como simples jogo de guerra. Fato ├® que encontramo-nos em plena 2┬¬ Guerra Fria na qual o confronto n├úo mais ├® entre Capitalismo e Comunismo. O novo foco de atrito ├® o Ex┬¡pan┬¡sionismo ou, em outros termos, a amplia├º├úo de ├íreas de influ├¬ncia. Putin v├¬ a OTAN como agente provocador neste conflito preocupante de interesses que j├í agora tem ingredientes que poder├úo torn├í-lo dram├ítico.

Frank-Walter Steinmeier, ministro das Rela├º├Áes Exteriores da Alemanha, comentou: ÔÇ£Esta corrida armamentista, este tilintar de espadas, n├úo serve para nadaÔÇØ. Steinmeier foi arduamente criticado em c├¡rculos da OTAN.

Para os EUA, a Teoria de Zbig┬¡niew Brzezinski (amplia├º├úo da UE em dire├º├úo ao leste Eu┬¡ropeu), divulgada em 1997 (The Grand Ches┬¡sboard ÔÇô Ame┬¡rican Primary and Its Geostrategic Imperativs, Basic Books), foi um plano estrat├®gico concretizado em grande parte conforme explicado acima. Para a R├║ssia foi e continua sendo uma agress├úo.

Paralelamente a estes desenvolvimentos a Europa, concentrada e aturdidada com a onda de refugiados, com a infind├ível guerra na S├¡ria, com um Iraque desestabilizado, com uma L├¡bia sem governo e em parte j├í dominada pelo ISIS, com um I├®men em guerra, com um Afeganist├úo sob controle de cl├ús talebanes, com uma Turquia imprevis├¡vel e inconfi├ível e com o terrorismo no pr├│prio Continente, esqueceu-se completamente de que, em sua porta sul, na Ucr├ónia, borbulha uma guerra na qual a R├║ssia amea├ºa abocanhar uma parte do pa├¡s.

Moscou n├úo poupar├í esfor├ºos para impedir a amplia├º├úo da UE e da OTAN em dire├º├úo ao Su┬¡doeste Europeu ou ├á ├üsia Central. Uma quest├úo de hegemonia que precisar├í de muita diplomacia a fim de evitar um conflito de propor├º├Áes imensur├íveis na porta sul da Europa.

Vladimir Putin, astucioso, frio, imprevisível? Talvez de tudo um pouco. Ou apenas lúcido?

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