Edgar Welzel
Edgar Welzel

Sobre o Acordo Minsk II

Se vigorar, salvará muitas vidas, mas deixará o presidente russo, Vladimir Putin, com o gosto da vitória

A reunião de Minsk, capital da Belarus, em princípios de fevereiro com a participação da chanceler da Alemanha, Ângela Merkel, do presidente François Hollande, da França, do presidente Petro Poroshenko, da Ucrânia e do presidente da Rússia, Vladimir Putin, foi um acontecimento histórico acompanhado com grande interesse em todos os quadrantes.

Tendo em vista o que estava (e ainda está) em jogo, os resultados das negociações foram aguardados com grande ansiedade. A situação na Ucrânia tornara-se explosiva; um conflito incontrolável com fins imprevisíveis, mas seguramente catastróficos ameaçava (e ameaça) eclodir. As negociações em Minsk visavam evitar o recrudescimento das lutas em andamento e tentar resolver o conflito por via diplomática. Tarefa complicada e hercúlea tendo em vista o acirramento dos combates à partir de janeiro passado.

Diante desta situação, a chanceler Ângela Merkel declarou a guerra na Ucrânia como assunto de chefia. Assumiu o comando das gestões, sempre apoiada por François Hollande, o que culminou com o encontro em Minsk e o resultante Acordo Minsk II.

O impressionante empenho de Ângela Merkel, com exaustivo esforço físico, não passou despercebido e foi  amplamente elogiado pela mídia europeia. Ao chegar em Bruxelas, donde viera diretamente de Minsk com escala em Munique, onde discursara na Conferência de Segurança, um diplomata comentou: “É um milagre que ela ainda vive”.

Em entrevista concedida durante as poucas horas em que se encontrava em Munique, um jornalista interrogou-a sobre os motivos de tanto empenho. Sua resposta foi clara e enfática: “Desde o início de minhas gestões, sempre deixei claro de que não tenho ideia de onde e como vão terminar meus esforços. Mesmo assim, resolvi tentar conciliar. Eu teria remorsos para o resto de minha vida se não tivesse feito nada”.

Passadas apenas uma semana, Minsk II já parece documento sem valor. As partes conflitantes na Ucrânia ignoraram-no e os separatistas aproveitaram para conquistar Debalzewe, cidade em ponto estratégico para o que ainda está por vir. Kiev declarou a cidade como perdida e ordenou a retirada de suas tropas.

Mesmo assim Minsk II, apesar de seus defeitos, continua documento válido que só perderá sua validez caso Vladimir Putin ou os Estados Unidos conseguirem dividir a Europa. Neste caso, o confronto entre Washington e Moscou é inevitável e a Europa ficará, como peteca, entre os dois rivais. Um cenário pouco promissor.

A reação da mídia europeia em relação ao Acordo Minsk II é altamente controversa como evidenciam alguns exemplos publicados no portal da www.web.de em 13 de fevereiro às 10:06 horas. A compilação foi feita por Arzu Dagci e Christian Aichner. De minha parte, acrescentei apenas os dois últimos comentários e fiz  a tradução especialmente para o Jornal Opção. Ei-los para julgamento e critério do leitor:

“Frankfurter Allgemeine Zeitung“ (Alemanha): “Somen­te saberemos o que vale o acordo conseguido em dezesseis horas de trabalhos se os canhões no leste da Ucrânia realmente sossegarem. Mesmo assim, ainda não é certo se, mais tarde, não voltarão  a causar morte e desgraça numa região que se tornou campo de manobras para os interesses russos”.

“Süddeutsche.de”(Alema­nha): “O problema com a paz é muito simples: ou ela existe ou não existe. O termo paz não tem aumentativo nem diminutivo. Ela não vem em pequenas doses nem em vestimenta pomposa. Esta simples constatação explica a expressão facial sombria do presidente ucraniano Petro Poros­hen­ko e da chanceler da Alema­nha, Ângela Merkel. Ambos apenas conseguiram um pouquinho de paz – o que não é suficiente.”

“Handelsblatt”(Alemanha): “A população da Ucrânia anseia pela paz, mas não acredita realmente que este anseio venha a se concretizar. Os combates continuam. O povo passa fome e os remédios são escassos – e a confiança no governo diminui”.

“Spiegel Online” (Alema­nha): “Desde a longa noite de negociações em Minsk, Vladimir Putin pode festejar-se como vencedor. Foi a chanceler da Ale­manha e o presidente da França que lhe propiciaram esta vitória. Esta afirmação não tem nehuma conotação crítica. O assunto está em ordem. Caso realmente resultar um cessar fogo, então tudo valeu. Só que o Ocidente, já agora, deverá conscientizar-se de que Putin não se transformará em pacificador da noite para o dia e que ele não respeitará o primeiro parágrafo do acordo de Minsk que fala do ‘irrestrito respeito à soberania e da in­tegridade territorial da Ucrânia’”.

“Die Welt”(Alemanha): “Moscou parece uma sala no qual se encontra um cadáver. Todos os presentes procuram fingir que não o veem. O cadáver é a guerra na Ucrânia. (…) A Rússia se isola como se fosse uma embalagem à vácuo e no país há cada vez menos ar para respirar”.

“Ukraina Moloda” (Ucrâ­nia): “O presidente Petro Poro­­s­hen­ko estabeleceu um acordo com Valdimir Putin para a retirada das tropas estrangeiras da Ucrânia, a libertação de prisioneiros e uma trégua à partir do dia 15 de fevereiro. Ao analisar as críticas de ambos os lados pode-se concluir que o acordo é realmente um compromisso máximo. Mas será que este documento realmente contribuirá para garantir a tão esperada paz duradoura? A resposta, muito provavelmente, será: não. A maioria dos pontos do acordo são uma repetição dos pontos do Acordo de Minsk I do outono passado que, infelizmente, terminou com o que estamos presenciando neste momento: mais mortos e ataques terroristas na sofrida terra ucraniana.”
“Gaseta po-ukrainski” (Ucrâ­nia): “Dezesseis horas de discussões dificilmente poderão ser consideradas decisivas para um fim da guerra na Ucrânia. O ponto crucial é que atualmente ninguém obriga Putin a abster-se de seus planos para a destruição da Ucrânia. Ele está sendo apoiado por mais de 80% de idiotas russos. Além disso, o efeito das sanções do Ocidente são suportáveis. Por isso é bem possível que os acordos conseguidos em Minsk são, para o chefe do Kremlin, apenas mais uma artimanha para a obtenção da paz e a esperança para evitar novos apertos nas sanções ocidentais”.

“Moskowski Komsomolez” (Rússia): “Diz-se que deverá haver um ‘tênue fio de esperança para paz’ na região do Donbass mas os participantes da conferência em Minsk abstiveram-se de dar uma conferência de imprensa em comum. O ‘Quarteto da Nor­mandia‘ (Alemanha, França, Rússia e Ucrânia) gastou dezesseis horas a fim de entender-se para um cessar fogo no Donbass e sobre o início de uma reforma constitucional que deverá dar mais autonomia à região. (…) A dupla Merkel-Hollande certamente não mais tem aspiração moral ao Nobel da Paz. Os chefes das duas nações líderes da União Europeia poderiam muito bem ter evitado, já bem no início, o pesadelo ucraniano. Se Merkel e Hollande poderão ser criticados por culpa, é válida a afirmação de que ambos procuram lavar a si mesmos ao máximo. O desastroso e demasiado amplo documento,  controverso em si, elaborado em Minsk fornece poucas novas respostas mas muitas não solucionadas”.

“Libération” (França): “Rara­mente houve tão fraca alegria sobre um acordo de paz. É certo que, após mais de dez meses de conflito, o texto de Minsk estabelece um armistício e uma zona  desmilitarizada mais ampla nas linhas do confronto. Ao mesmo tempo o texto fornece suficiente margem de atuação aos russos de forma que estes saíram como os grandes vencedores do ringue de Minsk. Vladimir Putin foi o único que realmente se alegrou com os resultados conseguidos que praticamente fixam as áreas conseguidas pelos separatistas nestes últimos meses. No novo texto, a palavra ‘Crimeia’ não aparece em lugar algum. A relação de forças, portanto, ainda mostra vantagem para Putin”.

“GazetaWyborcza” (Polônia): “As negociações em Minsk foram turbulentas. Parece que Merkel e Hollande  mais abrandaram as exigências de Putin do que reinforçaram a pouca firmeza de Poros­henko. Para a Rússia isto é um sinal que a União Europeia está ao lado da Ucrânia e que não a deixará desamparada simplesmente à custa do sossego. No Memorando de Budapeste do ano 1994 o Ocidente, juntamente com a Rússia, garantiu a inviolabilidade territorial da Ucrânia. Hoje não mais se toca neste assunto se bem que a anexação da Crimeia já representa uma violação deste memorando. A Ucrânia não conseguiu a paz; conseguiu apenas tempo…É este o compromisso que teremos que suportar.”

“Latvijas Avize” (Letônia): “Durante dezessete horas, o presidente da Ucrânia, Petro Poroshenko, a chanceler da Alemanha Ângela Merkel, o presidente da França François Hollande e o chefe do Kremlin Vladimir Putin negociaram em Minsk, capital da Belarus. O resultado destas difíceis negociações é um armistício, a vigorar à partir de 15 de fevereiro, com o qual concordaram as Forças Armadas da Ucrânia e os grupos terroristas apoiados pela Rússia. Entre os líderes políticos houve acordo também para a retirada de armamentos pesados das linhas de fogo. No entanto, o quarteto fracassou na maratona de negociações, que durou a noite toda, em encontrar um denominador comum para uma série de outras perguntas cuja solução é de vital importância para por um fim à guerra contínua no leste da Ucrânia a qual, até o momento, já custou a vida de mais de cinco mil pessoas.”

“Pravo” (República Tcheca): “Para o população no leste da Ucrânia conta cada dia em que as armas sossegam. É este o ponto mais importante do jogo de xadrez noturno. Mesmo se nenhum outro detalhe seje duradouro, o resultado da maratona de dezessete horas é louvável. Há, no entanto, muitos pontos de interrogação: será que Putin conseguirá que os separatistas fiquem apenas a espreitar quando o governo central (Kiev) controlar as fronteiras com a Rússia? E como explicará o presidente ucraniano Petro Po­roshenko aos ativistas da Praça Maidan e aos radicais direitistas as promessas de mais autonomia dadas à região separatista? (…) O chefe do Kremlin, Putin, saíu vitorioso numa etapa. Sem a Rússia, na Ucrânia,  nem mesmo as folhas das árvores se movimentarão no futuro, tanto em sentido militar como político. Além disso Putin faturará pontos no palco interno pelo fato de ter terminado com a expansão da influência ocidental até às portas fronteiriças da Rússia”.

“El País” (Espanha): “A acordo sobre o armistício é  boa notícia. A suspensão temporária dos combates abre   caminho pa­ra uma saída de uma situação perigosa que ameaça uma confrontação direta entre a Rússia e vários países da OTAN. É o primeiro passo de um longo e complicado processo que ainda nos espera. (…) Muitas perguntas continuam sem resposta. Entre essas, encontra-se o esclarecimento da responsabilidade para os atentados aos direitos humanos no leste da Ucrânia bem como a derrubada de uma aeronave civil que sobrevoava a região. A tarefa mais importante consiste no fato de garantir à Ucrânia o direito, como país soberano, de decidir livremente sobre o seu sistema de governo e sua filiação a organizações internacionais.”

“La Vanguardia” (Espa­nha): “O armistício na Ucrânia está em pernas bambas. Uma negociação maratônia de mais de dezesseis horas em Minsk terminou quinta-feira, nas primeiras horas da manhã, com um acordo para a pacificação da guerra no leste do país. O acordo foi a coroação de uma acão diplomática de enormes proporções da chanceler da Alemanha, Ângela Merkel e do presidente da França, François Hollande, na semana passada.”

“Kapital Daily” (Bulgária): “A princípio parecia que um cessar fogo na Ucrânia seria inviável. Finalmente, o presidente da Rússia, Vladimir Putin, e o presidente da Ucrânia, Petro Poros­hen­ko,  conseguiram  um acordo sobre um armistício em Minsk, capital da Belarus. O documento elaborado sob a mediação da chanceler da Alemanha, Ângela Mer­kel, e do presidente da Fran­ça, François Hollande, parece pos­tergar, pelo menos de mo­mento, que o perigo de  um conflito armado continue a escalar na Europa.”

“Corriere della Sera” (Itália): “Em Minsk foi estabelecido um acordo. Sobrevalorizá-lo seria um erro. A esperança para a paz ainda terá que superar alguns obstáculos e hipocrisias; prudência, que beira ao ceticismo, é obrigatória. Merkel e Hollande são corajosos representantes da União Europeia que continua dividida mesmo tendo uma guerra  diante de suas portas. Ambos evitaram um fracasso nas negociações que muitos julgavam possível e mesmo provável. Graças à chanceler e ao presidente francês a Europa saíu de Minsk com mais influência e maior independência.”

“Der Standard” (Áustria): “Minsk II é, praticamente, uma evidente vitória para Putin. Caso o armistício for respeitado à partir de domingo e ambos os lados realmente retirarem seus armamentos pesados, isto corresponde ao reconhecimento de facto da região controlada pelos separatistas”.

“Der Volkskrant” (Hollanda): “É indubitável que o presidente Vladimir Putin, da Rússia, espera que o acordo conseguido prepare o caminho para anular o embargo econômico contra o seu país. Isto significaria gratificar o ladrão que entra na casa e sai com os objetos  roubados. Os países europeus têm que continuar a manter o embargo sem restrições”.

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