Edgar Welzel
Edgar Welzel

Sobre a direita na Europa

Partidos de ideias radicais crescem com insatisfação da população em relação às elites políticas

Virginia Raggi, nova prefeita de Roma, foi eleita pelo partido de direita MoVimento 5 Stelle, o M5S

Virginia Raggi, nova prefeita de Roma, foi eleita pelo partido de direita MoVimento 5 Stelle, o M5S

Autoridades em Bruxelas, governos de países europeus, analistas e observadores políticos vem-se preocupando com um fenômeno político que, no futuro, talvez não será menos grave do que os conhecidos problemas europeus já existentes: a marcha da Europa à direita.

Esta marcha, que não é nova, em si não seria motivo de preocupação se não estivesse embutido o prenúncio do extremismo, o húmus do qual nasce o populismo. Caso continuar no atual ritmo de expansão, partidos tradicionais estarão sujeitos a tremores capazes de mudar a paisagem política europeia.

Em órgãos da mídia não europeia é frequente lermos frases como a divulgada na seção Mundo Livre da TVeja com o título “A ascenção da Europa antiEuropa”, de 6 de setembro de 2016 (16h40): a “insatisfação da população com a onda de refugiados é a principal razão para o crescimento de partidos da direita na Alemanha, na França e em outros países”. Uma análise mais suscinta nos convence de que a frase em questão, como muitas idênticas, colide com a realidade e desvirtua os fatos.

A marcha para a direita, extremada ou populista, na Europa, começou bem antes da grande onda migratória de 2015. Esta apenas contribuiu para o crescimento de movimentos direitistas já existentes décadas antes das imagens divulgadas dos milhares de migrantes a caminho, via Bálcãs, à Europa.

Na França, em 1972, há 44 anos, foi fundado o partido Front National (FN), considerado da extrema direita. Jean-Marie Le Pen, populista, ultra-nacionalista, xenófobo e antissemita foi seu presidente durante muitos anos. Atualmente o partido é liderado por Marine Le Pen, sua filha, menos extremada que o pai com o qual rompeu em virtude de seu extremismo. Nas eleições municipais de fins de 2015 o FN obteve mais de 30% dos votos e com isso o FN é o novo poder na França. Na próxima eleição presidencial em 2017 Marine Le Pen será candidata do FN, com chances de suceder o atual presidente François Hollande.

Na Áustria o Partido Libertador da Áustria (FPÖ) também da extrema direita, foi fundado em 1956. Obteve sua maior vitória eleitoral no ano 2000 com 26,9% dos votos. Com Susanne Riess, a extrema direita chegou a ocupar o cargo de vice-chanceler da Áustria. Jörg Haider (1950-2008) liderou o partido durante 14 anos; estabeleceu contatos com outros partidos da direita europeia sobretudo com o FN da França e se não tivesse morrido em acidente de automóvel o FPÖ austríaco teria mudado a paisagem política do país alpino. O FPÖ defende ideias xenófobas, antieuropeias, anti-islâmicas a ponto de pleitear a proibição do Alcorão. Mesmo assim o FPÖ tem chances de eleger, dentro de poucos meses, o primeiro presidente da extrema direita da Áustria.

Na Holanda a direita é extremamente ativa. O Partido para Liberdade (PVV), fundado em 2006, é liderado por Geert Wilders, a figura da direita populista mais conhecida na Europa. Wilders mantém uma rede com estreitas conexões com outros partidos da direita radical na Europa. Há anos critica a UE e o Islã; vê o Alcorão como livro fascista e, em relação ao terrorismo na Europa, Wilders pleiteia a expulsão de todos indivíduos não holandeses da Holanda. O PVV é a terceira força política na Holanda. Seu tema preferido: a islamização da Europa.

Na Hungria Victor Orbán, chefe de governo, com o seu “Movimento para uma Europa melhor”, um conglomerado de ultraconservadores, nacionalistas da direita, é a ovelha-negra europeia por sua política extremada em vários pontos em desacordo com os parâmetros da UE. Orbán é criticado por controlar a imprensa, a justiça e por opressão de grupos minoritários como os sinti e os roma (erroneamente chamados de ciganos; na Europa o termo é pejorativo). Victor Orbán tem em sua pauta transformar o seu partido, o Fidesz, em força política única na Hungria. No Parlamento Europeu os parlamentares da direita húngara formam coalizão com os de Marine Le Pen da França e de Geert Wilders da Holanda.

A Polônia é um caso especial por tratar-se do único país europeu com governo da direita radical. Beata Szydlo é chefe de governo desde novembro de 2015 quando o partido Prawo i Sprawiedliwosc (PiS), fundado em 2001, liderado por Jaroslaw Kaczynski, obteve a maioria absoluta. Das 560 cadeiras do Parlamento Polonês o PiS ocupa 297; no Parlamento Europeu mantém 17 deputados.

Desde então há represálias contra servidores do Estado que não se enquadram na linha do partido. Promotores, juízes e até o chefe do serviço secreto foram exonerados de seus cargos. A Polônia recusa-se a abrigar refugiados e segue uma política antieuropeia. O PiS é um partido da direita populista, que se diz cristão-democrata.

Na Itália, a Lega Nord, Liga Norte, foi criada há 27 anos. Trata-se de um partido da direita populista com fortes tendências ao extremismo. Suas atividades restringiam-se inicialmente à região da Lombardia, no norte da Itália. Em seu programa consta, entre outras, a divisão da Itália, isto é, a separaração da região rica do norte da região pobre do sul. No Parlamento em Roma o partido tem 18 deputados e 15 senadores; no Parlamento Europeu 5 deputados.

Ainda na Itália merece menção o MoVimento 5 Stelle (M5S) fundado em 2009 pelo comediante Beppe Grillo. Segundo seus líderes, o MoVimento 5 Estrelas (M5S) é um não-partido ou um pseudo-partido. Com forte tendência populista antieuropeia o M5S é um movimento de protesto que, desde sua criação, vem tendo ampla atuação na política italiana. O M5S está representado no Parlamento Italiano com 91 deputados e 36 senadores; no Parlamento Europeu encontram-se 17 deputados. Nas recentes eleições municipais o M5S saíu vitorioso em quatro grandes cidades da Itália. Virginia Raggi, nova prefeita de Roma, a primeira mulher a ocupar o cargo, foi eleita com 54,5%; em Torino, Chiara Appendino com 30,9%.

Na Grécia o partido Chrysi Avgi (Partido da Aurora Dourada) foi fundado em 1985. É um partido neonazista da direita radical que, desde sua fundação, tem ativa participação na política grega. Nas eleições parlamentares de setembro de 2015 o Aurora Dourada obteve 6,3% dos votos o que lhe garantiu 18 cadeiras no parlamento grego; no Parlamento Europeu mantém três representantes. O partido defende ideias xenófobas e luta pela ampliação territorial da Grécia com a anexão de áreas de países vizinhos.

Timo Soini é, desde maio de 2015, ministro do Exterior da Finlândia e presidente do Partido Perussomailaiset, em tradução livre, Finlandeses Simples. Soini é populista da direita, antieuropeu e contra a participação da Finlândia à OTAN. Seu lema: “Onde está a Europa, está o problema”.

Na República Tcheca, na Eslováquia e na Eslovênia o quadro pouco se altera. Juntos com a Hungria e a Polônia, negam-se a asilar refugiados, em especial, refugiados islâmicos. Na República Tcheca bem como na Eslováquia sempre houve fortes tendências populistas da direita que tiveram crescimento com a recente onda de refugiados.

Na Alemanha nasceu um novo partido em 2013 a “Alternative für Deutschland”, a AfD, Alternativa para a Alemanha. Trata-se de um partido populista da direita, antieuropeu, nacionalista, antifeminista e contra a imigração islâmica. A AfD ainda não tem representantes no Parlamento Alemão; a nível estadual, porém, já tem 119 deputados em diversos Estados da federação. Segundo pesquisas a AfD, na próxima eleição para o Parlamento Alemão em 2017, poderá conseguir 15% dos votos. A nível europeu o partido procura aproximação com o FN de Marie Le Pen da França.

A Rússia confronta-se com partido de direita extremamente radical que, curiosamente, se denomina Partido Liberal Democrático com a sigla LDPR, fundado em 1991 por Vladimir Schirinowski, até hoje seu presidente. Schirinowski pleiteia a volta da Rússia à monarquia, a restauração das fronteiras do Império Russo de 1917 com a Finlândia, parte da Polônia, a Belarus e o leste da Ucrânia. Além disso Schirinowski, um populista antissemita, pleiteia o lançamento de bombas (o plural é dele mesmo) atômicas sobre Washington. Na recente eleição para a Duma, em 18 de setembro passado, o LDPR obteve 13,2% dos votos com os quais se tornou a terceira força política da Rússia com 39 deputados (dos 450) na Duma.

Encerramos com estes exemplos, entre outros tantos, breve resumo sobre a direita na Europa que, conforme demonstramos, já existiam bem antes da onda migratória. No entanto, quase todos estes agrupamentos se serviram da problemática migratória como tema de batalha por ser algo concreto que realmente preocupa a população e, por isso, ideal para transformar em votos.

O substancial crescimento da direita, sobretudo da direita populista, é causado principalmente pela insatisfação da população em relação às elites políticas. Entre a população domina a impressão de que os governantes, uma vez eleitos, interessam-se mais em manter-se no poder do que resolver ou abrandar os anseios da população. Depoimentos de políticos em favor da população são vistos como meras platitudes. É a insatisfação e a frustração do povo que dá alento aos populistas.

Ralf Dahrendorf (1929-2009), sociólogo, autor e político alemão-britânico, já no início da década de 90 profetizou que a globalização “favorecerá antes constituições autoritárias do que democráticas e criará problemas difíceis de serem solucionados com métodos normais democráticos”.

Segundo pesquisas cerca de 30% dos europeus mostram-se propensos a ideias direitistas e há os que afirmam ser este porcentual apenas a ponta do iceberg.

O cientista político Dr Kamil Marcinkiewicz, da Universidade de Hamburgo, resume: “O crescimento dos populistas da direita durará enquanto as elites democráticas não conseguirem recuperar a confiança da população. Teremos que acostumar-nos com o fato de que os partidos populistas farão parte do espectro político”.

Uma resposta para “Sobre a direita na Europa”

  1. WILSON disse:

    Uma coisa é certa: pela vontade da centro esquerda democrata, se permitirá cada vez mais a pluralização e a relativização dos valores originalmente europeus. Com a entrada contínua de estrangeiros, é apenas uma questão de tempo para que os europeus étnicos se sintam morando num país estranho, sem identidade nenhuma e todo o refinamento cultural e filosófico alcançado ficará apenas como lembrança de um passado que se foi.

Deixe uma resposta

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.