Edgar Welzel
Edgar Welzel

O redescobrimento da Rota da Seda

Linha férrea entra China e Alemanha transporta material por 10.200 quilômetros, numa viagem que dura 17 dias e diminui o valor do frete à metade em relação ao transporte aéreo

Locomotiva parte de Hamburgo em direção a Chengzou, na China

Locomotiva parte de Hamburgo em direção a Chengzou, na China

Grandes inovações ou empreendimentos costumam ser alardeados aos quatro ventos. En­tre a Alemanha e a China foi concretizado um empreendimento que tem todas as características de “grande empreendimento” e que tem bons ingredientes para dar certo. Mesmo assim, o assunto quase passou despercebido. Só poucos jornais o registraram, alguns apenas em pequenas notas. Grande parte da população da Alemanha nem tomou conhecimento da inovação.

Considerando a magnitude do projeto é realmente curioso que o fato tenha ocorrido sem grandes alardes. Inaugurar uma linha férrea, a nível nacional, mesmo na Europa normalmente é um ato que merece menção. Inaugurar uma linha férrea a nível internacional, sobretudo quando a extensão da linha chega a 10.200 quilômetros e atravessa vários países, já deveria ser notícia de impacto. Mas não foi.

O projeto entrou em operação já em 2013 com um trem chinês com partida semanal de Chengz­hou, centro industrial a cerca de 700 quilômetros ao sul de Pequim, com destino a Hamburgo, cidade portuária no norte da Alemanha. Desde setembro passado o trajeto também está sen­do feito em sentido oposto, com um trem alemão com partida de Hamburgo para Chengzhou. A viagem de 10.200 qui­lômetros dura 17 dias, o que re­presenta uma redução de tempo de 20 dias em comparação ao transporte por navio. Além disso reduz pela metade os custos do frete em relação ao transporte aéreo.

O frete marítimo obviamente continua sendo mais barato, mas é demorado. Um navio que sai de Hamburgo mesmo usando a rota mais curta via Estreito de Gibraltar, Mar Mediterrâneo e Canal de Suez, leva em regra 40 dias para chegar a Xangai, na costa leste da China. De Xangai a Chengzhou são outros 700 quilômetros por terra.

A mercadoria é toda transportada em contêineres.O trem parte de Hamburgo, atravessa a Polônia, Belarus, o sul da da Rússia, todo o Casaquistão em cuja divisa leste adentra a China, atravessando-a em direção a Chengzhou. Por uma questão de bitola os contêineres estão sujeitos a vários transbordos durante o trajeto; além disso, as locomotivas também precisam ser trocadas. Em outras palavras, o trem que parte de Ham­burgo não é o mesmo que che­ga em Chengzhou. O trem chi­nês que parte de Chengzhou com destino a Hamburgo está sujeito aos mesmos procedimentos.

Desde a inauguração da linha já foram transportados 50 mil contêineres com peças para as linhas de montagem da indústria automobilística alemã e demais países europeus na China. A via férrea é ideal para o transporte de máquinas e equipamentos e, em especial, para o transporte de produtos sensíveis como os da área eletrônica e outras. O interesse por parte do empresariado alemão e europeu é enorme. Represen­tantes dos grandes grupos empresariais elogiaram a medida.

O comércio bilateral entre a Ale­manha e a China já agora oferece grande potencial e o interesse para o transporte por via férrea crescerá. Também para a China a inauguração desta linha oferece enormes vantagens tendo em vista que a China já exporta duas vezes mais à Alemanha do que a Ale­ma­nha à China. Vale mencionar que parte dos produtos chineses que vêm à Alemanha por esta via, não ficam na Alemanha. São destinados a outros países europeus.

Em 29 de março de 2014 Ji Jinging, presidente da China, esteve em visita de Estado na Ale­manha. Nesta oportunidade o presidente chinês visitou também a cidade de Duisburg, situada na confluência dos Rios Reno e Ruhr, a cerca de 230 quilômetros ao sul de Hamburgo, perto da divisa com a Bélgica, Holanda e Lu­xem­burgo. Em Duisburg encontra-se o maior porto fluvial da Europa com ligações diretas aos portos marítimos de Amsterdã, Emden, Rotterdã, Antuérpia e Hamburgo.

Além disso encontra-se em Duisburg o maior entroncamento de linhas férreas europeias. O presidente Ji Jinging sugeriu que se inaugurasse mais uma linha férrea partindo de Duisburg para Cheng­zhou, sugestão que as autoridades portuárias e municipais de Duisburg não demoraram para concretizar.

Enquanto isso partem quatro trens semanais de Duisburg à Chengzhou que usam praticamente os mesmos trilhos dos trens que partem de Hamburgo; quatro trens chineses fazem o mesmo percurso em sentido oposto.

No início do projeto eram transportados apenas peças para a montagem de autómoveis na China. Desde setembro passado automóveis completos estão sendo enviados por via férrea à China. Os trens chineses que, em regra, transportam mais volume do que peso podem alcançar um comprimento de até 650 metros.

Sören Link, prefeito de Duis­burg, comentou o projeto: “A conexão férrea entre a Ásia e a Europa é de grande valor simbólico para a China. Ela equivale ao redescobrimento da Rota da Seda das caravanas entre o Extremo Oriente e a Europa”.

A visão esquecida de um presidente

Renomados homens de Es­ta­do, chefes de governo e ilustres per­sonalidades da vida cultural, artística e demais áreas do conhecimento humano costumam deixar frases ou pensamen­tos que per­duram os séculos. Desta forma chegaram até os nossos dias frases de antigos gregos, de es­tudiosos da Idade Média e de personalidades mais re­centes como Winston Chur­chill, Mahat­ma Gandhi, John F. Kennedy, Martin Luther King, Nelson Mandela, Madre Teresa e outros.

Algumas dessas frases, pensamentos ou ditados nem sempre foram compreendidas na época em que seus autores as pronunciaram ou escreveram. Seu real sentido e valor só se tornou claro às gerações vindouras. Retrospe­ctivamente tendemos a ver tais homens como videntes, porque tiveram uma visão que nos deixaram em forma de uma frase ou texto curto e comprimido.

A fim de elucidar o acima ex­posto abordaremos apenas uma destas frases tendo em vista a sua atualidade. Pronunciada na década de 70 do século passado, na época nem sequer chamou atenção, esquecida por uns, ignorada por outros e não compreendida por muitos. Lida à luz de nossos dias, a frase preocupa, mexe, faz pensar, enfim, é assustadora.

Seu autor, Houari Boume­dienne (1927-1978), político argelino, formou-se em teologia islâmica e em seguida filiou-se a um dos partidos políticos da Argélia, a Front de Libération Nationale (FLN). Projetou-se como comandante durante a Guerra de Liber­tação da Argélia (1954-1962), conseguindo grande influência. A partir de 1960 foi comandante também da FLN na Tunísia e no Marroco. Em 1965, numa crise interna da Argélia, Houari Bou­me­dienne depôs Ahmed Ben Bella e assumiu o poder em dupla função: a de chefe de governo e chefe de Estado.

Politicamente Boumedienne defendia um islã orientado ao socialismo semelhante às ideias de Gamal Abdel Nasser (1918-1970) pre­sidente do Egito de 1954 a 1970 sem, no entanto, simpatizar com as ideias pan-arabistas de Nasser.

Boumedienne fomentou a industrialização da Argélia graças aos recursos provenientes da produção de petróleo, estatizou empresas particulares e nunca deixou de odiar os franceses, aos quais combateu arduamente durante toda a Guerra da Argélia. Foi admirado em quase todos os países islâmicos em virtude de seus sucessos econômicos. Boume­dien­ne teve substancial influência também nos movimentos de libertação nacional que terminaram com o colonianismo das potências europeias em muitos países da África.

No início da década de 70 Houari Boumedienne pronunciou um discurso no qual afirmou o seguinte: “Chegará o dia em que milhões de pessoas deixarão o hemisfério sul a fim de invadir o hemisfério norte. Elas com certeza não virão como amigas. Virão como conquistadoras. E elas o conquistarão com os seus filhos que habitarão a região. O ventre de nossas mulheres nos trará a vitória”. (Pesquisei e verifiquei a veracidade das palavras de Boumedienne. Há inúmeas fontes que as citam. Atualmente são usadas por grupos radicais da direita e esquerda para criticar a “invasão” estrangeira na Europa!)

As palavras de Boumedienne foram esquecidas logo após a sua prematura morte ocorrida em 1978, mas foram redescobertas diante dos acontecimentos no Oriente Médio, no norte da África e outras regiões africanas.

Tomei conhecimento da “vi­são” de Boumedienne por oportunidade de uma palestra sobre o Islã, seguida de uma discussão com a audiência, na qual tive a o­por­tunidade de participar. Du­rante a discussão um cidadão de origem migratória (eufemismo empregado para designar pessoas de origem estrangeira) pediu a palavra e leu para a audiência a “visão” de Boumedienne num alemão impecável.

Após a leitura, a sala foi dominada por um silêncio quase que sepulcral; não demorou e as pessoas começaram a se retirar. A maioria cabisbaixos. O que mais me impressionou não foi a leitura da frase de Boumedienne, mas foi o silêncio que se seguiu.

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