Edgar Welzel
Edgar Welzel

O jogo ousado da Grã-Bretanha

Reino Unido reivindica que a União Europeia seja mais transparente, menos burocrática e mais competitiva

Winston Churchill, o grande ideólogo da unificação dos países europeus

Winston Churchill, o grande ideólogo da unificação dos países europeus

Em 19 de setembro de 1946, logo após o fim da 2ª Guerra Mundial, Winston Churchill (1874-1965), primeiro-ministro britânico de 1940 a 1945 e de 1951 a 1955, proferiu célebre discurso na Universidade de Zurique. Foi um de seus mais notáveis pronunciamentos que entrou nos anais como o “Discurso Europeu”.

Churchill foi o primeiro político europeu que manifestou publicamente uma visão para uma unificação europeia que, não tardou, encontrou simpatizantes, homens de distintas origens e biografias, que acataram a ideia embrionária do estadista britânico: Konrad Ade­nauer, Alcide De Gasperi, Walter Hallstein, Jean Monet, Robert Schuman, Paul-Henri Spaak, Altiero Spinelli e outros.

O primeiro parágrafo do discurso encerra a ideia básica da visão do notável orador: “Permitam-me falar-lhes hoje sobre a tragédia da Europa. Este nobre Continente que abrange as mais belas e desenvolvidas regiões do Globo, com clima temperado e equilibrado, é o berço de todas as grandes nações do mundo ocidental. É aqui que se encontram as fontes da fé e da ética cristã, as origens de quase todas as culturas, artes, ensinamentos filosóficos da Antiguidade até a época moderna. Caso uma Europa unida alguma vez tiver condições de compartilhar sua herança comum, seus trezentos ou quatrocentos milhões de habitantes gozariam de honra, bem-estar e felicidade”

A seguir Churchill expõe suas ideias iniciais de como a Europa poderia realizar tal projeto e termina com a seguinte proclamação: “Nosso constante objetivo deverá ser a construção e a fortificação das Nações Unidas (da Europa). Abaixo e dentro desta concepção mundialmente abrangente teremos que reestruturar a família das nações europeias em uma nova organização regional que talvez poderemos denominar de Estados Unidos da Europa. Se quisermos criar os Estados Unidos da Europa, ou com outra denominação que quiçá lhe daremos, teremos que começar agora”.

Na época a Europa vivia o seu próprio drama resultante da 2ª Guerra Mundial e ainda agonizava sob os escombros de suas cidades destruídas, situação agravada com a vinda de 12 milhões de refugiados provenientes do leste europeu. Um drama que se repete em nossos dias com outras premissas.

O discurso visionário de Chur­chill não ficou sem efeito. Já em 1951 foi assinado o Tratado da Comu­nidade Europeia do Carvão e Aço (Ceca). Passados 65 anos, com vários acordos e tratados adicionais e, com diversas denominações, a Ceca desenvolveu-se no que é hoje a União Europeia (UE) da qual fazem parte 28 países dos quais 19 têm o euro, introduzido em 2002, como moeda comum, por isso denominados de Eurozona ou EU-19.

A primeira petição da Grã-Bretanha para filiar-se à “família europeia”, nos dizeres de Winston Churchill, ocorreu nos anos 60 sem sucesso. A segunda deu-se em 1973, por plebiscito, quando foi aprovada pelos seis países fundadores. Na época a união foi ampliada com a adesão da Grã-Bretanha, juntamente com a Irlanda e a Dinamarca. Mais tarde, com a introdução do euro a Grã-Bretanha decidiu permanecer com a libra esterlina.
Renovadamente os britânicos sentiam-se descontentes com decisões da UE e exigiam isenções ou condições especiais para certas medidas adotadas em Bruxelas com a concordância dos demais países membros.

Uma das condições especiais foi negociada em 1984 por Margaret Tatcher (1925-2013) chefe do governo britânico de 1979 a 1990. Margaret Tatcher reclamou das altas contribuições da Grã-Bretanha ao orçamento da União Europeia e pleiteou por um desconto de 66% em suas contribuições líquidas o que, na época, lhe foi concedido e continua em vigor até hoje. O acordo é conhecido como Bônus Britânico, comumente também chamado de Cheque Britânico. Nenhum país da UE goza de privilégio semelhante.

Grande parte das contribuições ao orçamento da União Europeia retornam aos países em forma de subvenções ou auxílios diversos. Mas Tatcher reclamava do retorno que achava demasiadamente baixo. (“What we are asking for is a very large amount of our own money back”). No ano de 2001 o desconto de 66% representou um valor de 7,3 bilhões de euros; em 2005 chegou a 5,1 bilhões.

O general Charles de Gaulle (1890-1970) refutou, desde o início, a participação da Grã-Bretanha na UE com o argumento de que esta era insulana, marítima e mais ligada a outros continentes. De fato a Grã-Bretanha parece nunca ter-se sentido feliz em seu papel como membro da UE. Já em 1975 foi realizado um primeiro plebiscito sobre a permanência dos britânicos na UE. O escrutínio terminou com a permanência mas o debate nunca terminou e, de momento, continua mais acirrado do que nunca.

No auge da crise da Grécia (que ainda não terminou) a imprensa europeia falava em Grexit, palavra artificial oriunda da fusão dos termos Grécia+exit (termo latino que significa saída de um ator da cena); de momento fala-se em Brexit, ou seja, a saída da Grã-Bretanha da União Euro­peia. (Bre-tanha+exit=Brexit).

A Brexit é uma resultante das eleições para o Parlamento Britânico realizadas em maio de 2015. Para terminar com eterna discussão so­bre a permanência da Grã-Bretanha na UE, David Cameron, chefe de governo, decidiu tornar o assunto tema da campanha eleitoral. Pro­me­teu aos ingleses que, caso reeleito, levaria a questão à apreciação popular para que o povo a decidisse via ple­biscito. O partido conservador de David Cameron, inesperadamente, venceu as eleições com grande mar­gem obtendo a maioria absoluta.

A maioria absoluta obteve também o Scottisch National Party, o SNP, Partido Nacionalista Escocês que conseguiu ocupar quase todos os assentos no Parlamento da Escócia que, em caso de uma separação do Reino Unido, pretende filiar-se à UE e, contrariamente ao resto da Grã-Bretanha, introduzir o euro como moeda corrente.

David Cameron, no dever de cumprir sua promessa eleitoral, provavelmente deverá conclamar os britânicos para um plebiscito ainda no decorrrer de 2016 ou, no mais tardar, em fins de 2017.

Enquanto isso Cameron apresentou suas requisições à UE que, caso atendidas, lhe serviriam de argumento para convencer os ingleses a votar a favor da permanência da Grã-Bretanha na UE. Uma forma de extorsão, segundo alguns analistas.

Responsáveis em Bruxelas, empenhados em evitar a Brexit, mostram-se dispostos a vir ao encontro dos anseios de David Cameron. Afinal o Reino Unido é a segunda mais forte economia da UE. Martin Schulz, presidente do Parlamento Europeu, em discurso pronunciado na London School of Economics não deixou dúvidas quanto ao assunto: “Se a Grã-Bretanha reinvidica que a UE deveria ser mais transparente, menos burocrática e mais competitiva, estou ao lado dela”.

As requisições de David Came­ron são, em sua maioria, reformas de caráter estrutural da própria UE as quais beneficiariam também os demais países. Menos ingerência de Bruxelas em assuntos nacionais, restrições sociais (nos primeios quatro anos) para imigrantes de outros países da UE são apenas alguns exemplos. A chanceler da Alemanha, Ângela Merkel, expressou-se publicamente a favor das reformas solicitadas por David Cameron, no que não está sozinha.

Pela complacência que está tendo por parte de Bruxelas, Came­ron está sendo criticado por seus adversários políticos de “ser um grande europeu”, coisa que o premier britânico decididamente nunca foi. Pessoalmente afirma que não é a favor de um desligamento da Grã-Bretanha da UE.

Para Bruxelas a discussão da Brexit vem em tempo inoportuno tendo em vista ter a Europa, de momento, outros problemas de crucial importância para solucionar. A questão dos refugiados, já agora visto como o maior problema político-social da Europa após a 2ª Guerra Mundial, demonstra quão pouca unidade realmente existe no seio da União Europeia. Há analistas que já agora vislumbram no horizonte uma possível ruptura da União.

O que falta na Europa não é apenas a união. O que mais lhe falta é uma identidade que não existe como um todo conforme o confirmam as atuais discussões em torno dos refugiados. Predomina o nacionalismo, o nacionalismo exacerbado que começou a se manifestar bem antes da vinda dos refugiados, sobretudo no leste europeu.

Nos Estados Unidos da América todos têm origens migratórias, com excessão dos poucos remanescentes dos nativos que não sofreram o infortúnio da dizimação. No início da colonização aquele país também não tinha identidade. Com a assinatura da Constituição em 1787 o país começou a tê-la. Algo que se desenvolveu de forma espontânea, sem que tivesse sido incutido nas pessoas, através das escolas ou outras instituições.

Este sentimento de identidade espontâneo desenvolveu-se e, passados 230 anos, é normal que todo cidadão estadudinense vive com a firme convicção: “I’m proud to be an American” (Tenho orgulho em ser americano). Nunca encontrei um europeu que me disse: “Tenho orgulho de ser europeu”. Falta-lhe a identidade europeia que ainda não existe.

A visão dos Estados Unidos da Europa de Winston Churchill, por mais altruísta que tenha sido, continua um produto da imaginação, uma utopia europeia de difícial concretização.

Mesmo assim, a União Euro­peia, apesar de todos os nacionalismos, não poderá sucumbir. Em seu desenvolvimento ela já foi longe, suficientemente longe de forma que atende a uma das máximas do líder po­lítico chinês Deng Xiaoping (1904-1997): “Se quisermos realizar algo com sucesso, temos que ir tão longe para que os nossos sucessores não tenham possibilidade de regresso”.

Só uma União Europeia como bloco unido poderá ser uma instituição forte. A maioria dos países europeus numa europa desmoronada não teria chances de sobreviver sozinhos num mundo globalizado extremamente competitivo. A Europa correria o risco de ser dominada economicamente ou por um lado ou por outro ou por ambos. Os responsáveis em Bruxelas sabem disso. A Grã-Bretanha, em caso de desligamento da UE não teria nada a ganhar, mas muito a perder.

Deixe uma resposta

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.