Edgar Welzel
Edgar Welzel

O dilema da Turquia

Os curdos enfrentam os terroristas do Estado Islâmico, mas vai apresentar essa conta depois

Abdullah Öcalan, o separatista curdo: condenado e preso na Ilha Imrali, mas sua luta continua com outros | Foto: reprodução

Abdullah Öcalan, o separatista curdo: condenado e preso na Ilha Imrali, mas sua luta continua com outros | Foto: reprodução

À partir de 1980 era co­mum ver, aos sábados, sem­pre as mesmas de­monstrações, as mesmas passeatas em cidades da Europa Ocidental especialmente na Alema­nha, em parte também na França, na Inglaterra, na Áustria e Suíça. Eram caminhadas coletivas organizadas por diversos grupos imigrantes da comunidade curda que protestavam em nome e em apoio ao PKK (Partiya Karkerên Kurdistan), o Partido dos Trabalhadores do Curdistão. As demonstrações eram toleradas pelas autoridades desde que previamente autorizadas e geralmente decorriam sem maiores incidentes.

Os manifestantes curdos que viviam e continuam a viver na Europa, ostentavam bandeiras negras com legendas em língua curda que exigiam a criação de um estado próprio, o Curdistão. O fundador do PKK e líder do movimento, o curdo Ab­dullah Öcalan (pronúncia Oet­chalan), dominou o partido de forma autoritária, tratou brutalmente dissidentes e assassinou ou mandou assassinar supostos rivais e traidores.

O PKK continua sendo uma organização ativa na Turquia com entrelaçamentos estreitos em vários países da Europa. Na Dinamarca a organização chegou até a operar oficialmente uma televisão, a Mezopo­tamya Broadcasting com seus canais MMC, Nuçe TV e ROJ TV, que trans­mitiam programas em língua curda para a comunidade curda radicada na Europa.

Em 2013 as autoridades da Dinamarca, no entanto, cancelaram a licença de operação com o argumento de que a emissora estaria “difundindo programas e informações para uma organização terrorista”. Além disso a emissora foi multada com a importância de 1,35 milhãos de euros, algo ao redor de 3,5 milhões de reais. Nos Estados Unidos, na União Europeia e na Turquia o PKK é visto como um movimento subversivo, com métodos terroristas e de orientação marxista. Em seu país de origem, a Turquia, o PKK foi proibido em 1999 e Öcalan foi condenado, por ausência, à pena de morte por alta traição, formação de organização terrorista, por atentados, roubos e assassinatos.

A mídia europeia, até hoje, sempre que se refere ao PKK, também fala do PKK como “partido proibido”, o que em verdade é uma estultice pois o PKK não é registrado oficialmente como partido em nenhum país europeu. É fato confirmado que a organização usava métodos terroristas (atentados, bombas, assaltos) em sua luta para criação de um Estado próprio, o Estado curdo.

Os curdos fazem parte de uma etnia originária do oeste asiático, com língua própria, proveniente do indo-germânico. Atualmente habitam grande parte do leste da Turquia, a Anatólia, parte do Iraque, do Irã e parte da Síria. Sua população distribuída em vários países é estimada entre 25 milhões e 30 milhões. Estima-se que só na Turquia, com uma população de 76,7 milhões de habitantes, 18% (13,8 milhões) são curdos.

O governo da Turquia sempre tem refutada a ideia da criação de um Estado curdo e, por esta razão, combateu e reprimiu todo e qualquer movimento com tais ambições. Recep Tayyip Erdogan, presidente da Turquia, é um de seus mais ferrenhos opositores. A ideia da criação de um Estado curdo na Anatólia é um pesadelo que persegue Erdogan desde o início de sua carreira política. Da mesma forma é um pesadelo turco a criação de um Estado curdo em território iraquiano, na região de Mossul, junto à fronteira turca, uma área rica em petróleo denominada Curdistão.

Em 1984 foi morto um dissidente do PKK em Rüsselsheim, cidada localizada no centro-oeste da Alemanha. Em 1990 a justiça alemã emitiu um mandado de prisão internacional contra Abdullah Öcalan que, em seguida, refugiou-se na Síria, o que culminou com uma ameaça de guerra da Turquia contra aquele país. Öcalan tentou, sem sucesso, obter asilo político em vários países da Europa.

Em 1993 membros do PKK in­vadirm o Consulado Geral da Tur­quia em Munique e levaram vários funcionários como reféns. Os invasores exigiram do então chanceler Helmut Kohl, maior empenho para a causa e direitos curdos.

Em setembro de 1998 Ab­dullah Öcalan foi preso na Itália, com base na ordem de prisão internacional expedida pela Alemanha em 1990. As autoridades italianas se propuseram extraditá-lo à Alemanha. O governo alemão, no entanto, receando forte reação por parte da numerosa população curda no país, resolveu abster-se da extradição. Em consequência o governo italiano teve que pô-lo em liberdade. Öcalan deixou Roma em janeiro de 1999.

Em 15 de fevereiro de 1999 Öcalan foi sequestrado por agentes turcos, ao deixar a Embaixada da Grécia no Quênia, e levado para a Turquia. O sequestrado portava um passaporte cipriota em nome de Lázaros Mavros. O governo da República do Chipre declarou que o passaporte era uma falsificação turca. Desde aquele ano, o dia 15 de fevereiro é, para a comunidade curda internacional, um dia de luto. É o “Dia Negro”, anualmente lembrado com passeatas e demonstrações em vários países do mundo, especialmente na Europa.

Logo que Öcalan foi preso a comunidade curda na Europa moveu ações contra embaixadas e consulados, especialmente contra representações diplomáticas da Grécia, do Quênia e também da Nigéria em vários países na Europa. Só da Grécia foram atacadas 12 representações em vários países europeus.

O Consulado Geral da Grécia em Frankfurt, que se instalara numa das mais bonitas mansões históricas da cidade, foi invadido por um grupo de centenas de curdos que não só danificaram os móveis históricos, mas demoliram inclusive parte do prédio. Na Suíça foi necessária a intervenção do exército suíço (medida rara naquele país) pelo fato de elementos curdos terem atacado prédios das Nações Unidas.

Em 29 de junho de 1999 Abdullah Öcalan (desta vez presente) foi condenado à morte por alta traição pela justiça turca em Istambul. A pena, no entanto, não foi executada, entre outras por intervenção europeia; em 2002 a lei da pena de morte foi abolida na Turquia e a condenação de Öcalan foi transformada em prisão perpétua.

Desde a sua prisão em 1999 Abdullah Öcalan está confinado numa penitenciária de segurança máxima na Ilha Imrali, no Mar de Mármara, a única construção da ilha. Passou ali os primeiros dez anos como único detento. Só em 2009 a justiça turca resolveu alojar outros cinco condenados.

A condenação de Abdullah Öcalan foi levado à Corte de Justiça Europeia de Direitos Humanos que, em 12 de maio de 2005, sentenciou que o processo é incorreto e exigiu a revogação e abertura de novo processo, o que as autoridades turcas até hoje refutam. Enquanto isso, Öcalan segue preso e continua a escrever livros (o que já fizera antes de ser preso) e manifestos dos quais, de vez em vez, faz levar um ao conhecimento de seus milhares de seguidores através de seus advogados.

Com a condenação e o confinamento de Abdullah Öcalan os separatistas curdos perderam seu líder e, em consequência, amainou o movimento separatista na Europa. Inesperadamente, por influência alheia, outros movimentos curdos deflagraram de forma diferente em outra parte do mundo.

Criou-se, portanto, uma nova situação que ainda não chegou ao fim, mas que num futuro ainda indefinido poderá culminar em concretizar os anseios curdos. A Turquia e o Mundo Ocidental terão que se prepar para o que provavelmente estará por vir. O mapa do Oriente médio provavelmente terá nova configuração e os curdos, pelos serviços e pela atuação que, de momento, estão prestando, no fim de tudo, irão apresentar a sua conta.Tratarei de elucidar esta análise. Vamos aos pormenores:

A invasão do Iraque por parte dos Estados Unidos e alguns países aliados da Europa, foi uma das mais lunáticas aventuras bélicas no fim do século 20. O resultado está aí, é visível. O Iraque, um mar de escombros; a Líbia, outro mar de escombros e, de momento, um país não governável; a Síria, um inferno. E, pior de tudo, como consequência, o Islamic State, Estado Islâmico, o IS que surgiu como Fênix das cinzas e que já aterroriza, com métodos e ideologia medieval, parte do Oriente Médio, do norte da África e, provavelmente, em pouco tempo, demais regiões também em outros Continentes.

Em um determinado momento desta catástrofe bélica que, no Iraque e na Síria ainda não chegou ao último ato da tragédia, aparecem os curdos, anteriormente vistos como terroristas por parte dos Estados Unidos e da União Europeia, que se projetam como bravos e valorosos milicianos contra os bárbaros do Estado Islâmico. A milícia curda na região de Mossul onde, apesar do equipamento militar obsoleto de que dispunha, reagiu bravorosamente ante as atrocidades dos fanáticos do Estado Islâmico. Foram milicianos curdos que salvaram milhares de cristãos jesidas forçados a se refugiar nas montanhas iraquianas diante dos avanços dos selvagens do Estado Islâmico. A milícia curda, repentinamente, torna-se aliada dos Estados Unidos, que lhe dão cobertura aérea para enfrentar os ataques terrestres contra as hordas do Estado Islâmico.

Exemplo mais dramático e convincente é o caso de Kobane (alguns jornais usam o termo Kobani ou Kobanê), cidade síria, com uma população de 100 mil habitantes, a maioria curda, localizada a poucos quilômetros da divisa turca. Há cinco meses forças do Estado Islâmico tomaram conta da cidade e durante todo este tempo milicianos curdos enfrentaram galhardamente a situação.

Os curdos, com apoio aéreo dos Estados Unidos, conseguiram sobrepor-se às forças do Estado Islâmico. Kobane foi recuperada das mãos dos fanáticos cegos e intolerantes do IS. A cidade foi transformada em um grande monte de entulhos. Foi a mais ferrenha luta desde o início da guerra na Síria há quase três anos. Ali tudo virou às avessas pois terroristas lutaram contra terroristas e os Estados Unidos e a Europa bandearam-se para uma das facções. Ontem inimigos, hoje amigos. Willy Brandt (1913-1992), ex-chanceler da Alemanha, certa vez disse: “Em política muitas vezes é necessário falar até com o Diabo”.

No início da ocupação de Ko­bane por parte do Estado Islâ­mi­co, a OTAN pediu ao governo turco que intercedesse, que contribuísse para rechaçar os ocupantes do EI. A Tur­quia, mesmo sendo membro da OTAN, teve um problema com o pedido desta organização e acabou por rechaçá-lo em duas razões.

Primeiro porque a Turquia, no caso de interceder junto a Kobane, em território Sírio, para muitos países passaria a ser visto como agressora; segundo porque a Turquia, atacando o Estado Islâmico em Kobane, teria que lutar ao lado dos curdos os quais vêm combatendo há décadas. É este o dilema turco.

Por outro lado, o governo turco, receando ataques com foguetes balísticos por parte do EI da região de Kobane, pediu auxílio a OTAN para que enviasse soldados e equipamento de defesa junto a fronteira turca-síria. Baseado numa decisão interna da OTAN, o exército da Alemanha foi autorizado a estacionar equipamento antiaéreo do tipo Patriot, com foguetes sofisticados teleguiados junto a fronteira turca-síria para rechaçar eventuais ataques aéreos do Estado Islâmico ou de outros grupos litigiosos atuantes em território sírio.

Segundo especialistas da área militar a decisão da OTAN é vista como uma decisão supérflua. Técnicos do ramo argumentam que o exército turco estaria adequadamente equipado de forma que bem poderia garantir suas fronteiras sem auxílio das forças da OTAN.

O governo turco não tem demonstrado grande empenho em combater o avanço do Estado Islâmico. Aliar-se aos milicianos curdos é uma opção que o presidente Recep Tayyip Erdogan simplesmente não tolera. O impressionante desempenho dos milicianos curdos no Iraque e na Síria não pode ser do agrado do governo turco e os pesadelos do presidente Erdogan tendem a transformar-se em paranoia.

O substancial apoio que a milícia curda está tendo de parte dos Estados Unidos e da União Europeia incomodam o presidente Erdogan. Ursula von der Leyen, a ministra da Defesa da Alemanha, em recente visita feita a milicianos curdos em Mossul, prometeu atender o pedido curdo em fornecer-lhes armamento mais sofisticado. E, como se tudo isso não bastasse, vários grupos políticos da Alemanha pleiteiam que o Movimento Separatista Curdo deixe de ser visto como uma organização terrorista. Enquanto isso, círculos da União Europeia defendem a mesma ideia.

Para o presidente Erdogan este novo posicionamento europeu em relação ao PKK, o movimento separatista curdo, deve parecer coisa do demônio. Não estranha, portanto, o fato de Erdogan, em surdina, procurar uma aproximação com Vladimir Putin. O fato de a Turquia, país membro da OTAN, não ter-se filiado ao embargo americano-europeu contra a Rússia prova que o presidente Erdogan não mais confia na Europa.

A aliança americana-europeia perdeu a guerra no Iraque e na Síria. Ambos os países acabarão sendo esfacelados, divididos. O Iraque entre sunitas, xiitas e curdos. Parte da Síria provavelmente será abocanhada pelaTurquia que, há tempos vem sonhando em reestabelecer o antigo Império Otomano.

Os curdos, que não constavam na estratégia dos especialistas militares ocidentais, talvez serão os únicos vencedores desta guerra: pelo empenho que, até agora, têm demonstrado na guerra contra o Estado Islâmico os curdos acabarão apresentando a sua conta e a Europa e os Estados Unidos dificilmente poderão deixar de atendê-los em sua campanha para a criação oficial de seu país, o Curdistão.

A Turquia, de modo algum, aceitará este desfecho e tramará uma nova guerra no fim da qual teremos a configuração de um novo mapa do Oriente Médio. Aguar­daremos no que dará. l

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Francisco Henry

Excelente matéria.