Edgar Welzel
Edgar Welzel

O dilema da Grã-Bretanha com o Brexit

Decisão do Reino Unido em separar-se da União Europeia  traria consequências danosas e pode nunca se concretizar

Primeira-ministra britânica Theresa May aferra-se ao conceito que se mostrou uma armadilha: “Brexit é Brexit”

Primeira-ministra britânica Theresa May aferra-se ao conceito que se mostrou uma armadilha: “Brexit é Brexit”

Em junho passado, a po­pulação da Grã-Bre­ta­nha, após longo e acirrado debate decidiu, através de plebiscito, separar-se da União Europeia que, neste ano, completa 60 anos de existência. Durante seis décadas, jamais houve decisão semelhante; nunca um país membro nem mesmo cogitara separar-se da organização.

Ao contrário, muitos optaram por filiar-se, e da união inicial de 5 países fundadores resultou uma união política e econômica de 28 países. A decisão britânica é inédita e causou incompreensão tanto na própria Grã-Bretanha como no resto da Europa, sobretudo no centro do poder em Bruxelas.

A realização do plebiscito, proposto pelo então primeiro-ministro David Cameron, para terminar definitivamente com a infindável discussão sobre o descontentamento dos bri­­­tânicos com a UE, foi submetida e aprovada no parlamento em Londres.

Iniciada a campanha elementos antieuropeus da Grã-Bretanha desfraldaram a bandeira do populismo. Principais atores nesta trama ardilosa foram Nigel Farage, homem-chave do movimento, ex-presidente do partido UKIP (UK Independence Party), desde 1999 membro do Parlamento Europeu, e o burlesco Boris Johnson, ex-prefeito de Lon­dres. A proposta de Cameron, democrática e bem intencionada, acabou com um resultado inesperado: 51,9% a favor do Brexit e 48,1% contra.

David Cameron jogou alto e perdeu inclusive o cargo de primeiro-ministro; Nigel Farage reassumiu seu trabalho parlamentar no Parlamento Eu­ro­peu em Estrasburgo e Boris Johnson tornou-se ministro das Relações Ex­te­riores da Grã-Bretanha. Custa crer que um camaleão político, um antieuropeu como ele demonstrou ser, seja levado a sério no exigente e complicado palco político europeu em Bruxelas.

O plebiscito do Reino Unido deu margem a muita discussão, controvérsia e polêmica. Discutiu-se inclusive a pergunta se o plebiscíto continua sendo um instrumento democrático ideal em países com parlamentos já democraticamente eleitos. Discutiu-se a pergunta se um plebiscito, como no caso britânico, não seria supérfluo já que a questão poderia ter sido resolvida sem grandes alardes pelo próprio Parla­mento. Alertou-se sobre os perigos do plebiscito quando agitadores populistas, como bem demonstrou o caso britânico, conseguem sobrepor-se a políticos moderados, mais conscientes.

Theresa May, sucessora de David Cameron, atual primeira-ministra britânica, já antes da campanha posicionou-se claramente contra a separação da Grã-Bretanha da UE. No entanto está sendo criticada pelo fato de, durante a campanha, ter-se mantida demasiadamente reservada em relação ao assunto.

De fato, durante a campanha plebiscitária, May não se destacou com pronunciamentos significantes; manteve-se afastada das manifestações e dos palcos políticos. Conhecidos os resultados, respeitou-os com uma declaração curta e enfática: “Brexit é Brexit”. Deixou claro que o voto popular deverá ser respeitado e cumprido.

Enquanto isso passaram quatro meses. Aplacada a euforia separatista inicial, muitos “brexiteers”, os adeptos do Brexit, aos poucos estão acordando de uma quimera, livrando-se de um produto da imaginação, de uma fantasia, de uma utopia que lhes fora incutida. Conscientizam-se que caíram no conto da carochinha. Bem-vindos à realidade.

O plebiscito britânico tem características de uma tragifarsa. Nem o governo de Cameron, nem os “brexiteers” tinham um plano B. Os “brexiteers” Farage, Johnson e outros abandonaram o barco e deixaram a nova timoneira, Thereza May, a enfrentrar a tempestade. Segundo especialistas demorará, no mínimo, cinco anos para destrinchar o emaranhado de contratos, acordos, contas e demais compromissos que o governo britânico tem em reciprocidade com a UE. Trata-se do mais caro “divórcio” político e econômico da UE.

Thereza May terá um trabalho hercúleo que necessita de profundos e longos preparativos. É esta a razão pela qual a Grã-Bretenha até hoje não apresentou o pedido oficial de demissão à UE, documento formal exigido pelo Artigo 50 do Tratado de Lisboa. Segundo May, a entrega está sendo prevista para março ou abril de 2017. Só então poderão ser iniciadas as gestões oficiais. Na prática isto significa que o Brexit, a separação definitiva, poderia entrar em vigor em 2019 ou 2020 ou até mais tarde.

As parcas notícias de Londres levam a crer que o governo britânico encontra-se em apuros no que diz respeito aos preparativos das gestões com Bruxelas. Comentários à surdina em círculos londrinos revelam que, de momento, os participantes dos diálogos não estariam preparados para iniciar a tarefa.

Thereza May, logo que assumiu o governo, criou dois novos ministérios para tratar especificamente da separação junto aos órgãos competentes em Bruxelas. O Brexit Ministery, entregue ao ministro David Davis, até o momento nem sequer encontrou instalações para abrigar adequadamente seus auxiliares e Davis ainda nem conseguiu recrutar a metade dos 250 especialistas que precisa.

Em condições piores encontra-se o Ministério de Comércio Internacional, também especialmente criado, en­tre­gue ao mi­nis­tro Liam Fox. Também este novo ministério encontra-se em fase de organização e dos mil especialistas em comércio internacional que Liam Fox precisa para seu trabalho, até agora não conseguiu recrutar nem cem.

Os próprios ministros responsáveis, Davis e Fox, confirmam que eles nem mesmo têm as perguntas adequadas para formular no início das gestões em Bru­xelas. A situação é “caótica” cita no “Sunday Times” um cidadão com bons vínculos com o governo londrino.

Impressão semelhante têm os especialistas da UE que, em Bruxelas, melhor preparados, aguardam as gestões sobre o Brexit. Segundo o “Financial Times” os especialistas da UE declaram que “os britânicos vêm de Londres a Bruxelas sem saber o que afinal querem”.

Tony Blair, primeiro-ministro britânico de 1997 a 2007, interrompe seu silêncio e sugere novo plebiscito. “A decisão dos britânicos em junho passado em desmembrar-se da UE é uma catástrofe” disse o ex-primeiro-ministro Blair à BBC. “Quando se torna evidente o que realmente significa o desmembramento da UE, deveríamos dar ao povo a oportunidade para decidir mais uma vez através do Parlamento ou através de eleição ou possivelmente através de um novo plebiscito. dezesseis milhões de pessoas vo­taram a fa­vor da permanência na UE. Não devemos ignorá-las”, disse Blair.

Thereza May refuta categoricamente um segundo plebiscito e renova decididamente seu conhecido comentário: “Brexit é Brexit”.

De momento a decisão do Reino Unido em separar-se da UE é um livro aberto com um não conhecido número de páginas em branco. Nin­guém, nesta altura, sabe qual será o des­fecho do último capítulo. Não se pode excluir surpresas. O assunto tor­nar-se-á interessante quando a união do Reino Unido estiver em perigo.

Lembremos que a maioria da população da Escócia, da Irlanda do Norte e do País de Gales, nos quais historicamente sempre houve fortes tendências separatistas, votou contra o Brexit. Em um referendo popular de setembro de 2014 os escoceses decidiram permanecer ligados à Grã-Bretanha e, desta forma, serem membros da União Europeia.

A decisão britânica de separar-se da UE afeta a situação na Escócia, que reafirma seu interesse em permanecer na União Eu­ropeia. Nicola Sturgeon, a eficiente primeira-ministra da Escócia, já ameaçou com um novo referendo caso a Grã-Bretanha concretize a separaração da UE.

Em novo referendo na Escócia a maioria decidiria a favor da Europa, o que representaria a ruptura da Escócia com a Grã-Bretanha. A Irlanda do Norte e o País de Gales seguiriam o exemplo e da Grã-Bretanha pouco restaria. É o preço que a Grã-Bretanha teria a pagar pelo populismo que não soube frear.

Estamo-nos movendo num campo de conjeturas com certo grau de plausibilidade. Lem­bremos que existe o direito do Parlamento Britânico que pode aceitar ou refutar os resultados de um plebiscito. A sugestão de Tony Blair baseia-se neste fundamento. Thereza May, que tem a maioria no Parlamento, poderia acionar tal mecanismo se não estivesse ferrada ao seu “Brexit é Brexit”. Olvidá-lo significaria o fim de seu cargo e novas eleições na Grã-Bretanha com um novo primeiro-ministro não preso a um inabalável posicionamento.

A Grã-Bretanha está representada no Parlamento Europeu com 73 deputados. Pode-se admitir que nenhum terá interesse em perder o bem remunerado cargo. Até quando poderão permanecer lá? Até ao início ou ao fim das gestões? Há muitas questões não esclarecidas.

Influentes círculos londrinos, interessados em manter o atual status da Grã-Bretanha com a UE, estariam arquitetando planos para livrar-se da armadilha brexista de forma “elegante” e convincente. É, portanto, provável que o Brexit nunca chegará a concretizar-se. Esperemos o último capítulo.

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