Edgar Welzel
Edgar Welzel

O Brexit e o vaticínio de Shakespeare

Jean-Claude Junker e Theresa May: o jantar deles era para ser harmônico, mas terminou em desastre

Desde o Brexit em junho de 2016, vários acontecimentos de ampla repercussão agitaram o Continente. Os alicerces da União sofreram fissuras mas a Casa Europeia em seu todo não se encontra na iminência de desmoronar, o que alguns adversários do projeto europeu gostariam que se concretizasse. A União Europeia, contrariamente aos críticos da estagnação, encontra-se em movimento.

Na área econômica o corrente ano começou com dados alentadores em seguimento aos índices registrados no decorrer do segundo semestre de 2016. A única excessão é a Grécia, que luta com nova recessão de momento mais uma vez em debate nos círculos financeiros europeus.

O crescimento econômico da Eurozona no primeiro trimestre de 2017 foi duas vezes mais do que a da maior economia mundial, a dos EUA. Segundo estatísticas da Eurostat, a Eurozona registrou um crescimento do PIB de 0,5% de janeiro a março em relação ao trimestre anterior. Neste mesmo período o PIB dos EUA cresceu apenas 0,2%. Entre os quatro maiores países da Eurozona a Espanha com 0,8% registrou o melhor crescimento, seguido da Alemanha com 0,6%, da França com 0,3% e da Itália com 0,2%. A Finlândia, que não faz parte da Eurozona, registrou um acréscimo de 1,6%. A nível europeu a Comissão Europeia calcula com um crescimento de 1,7% para o ano em andamento.

O Brexit segue sendo tema crucial. No Reino Unido haverá eleições antecipadas para o Parlamento Britânico em 8 de junho próximo. Theresa May, primeira-ministra da Grã-Bretanha, que durante a campanha para o Brexit se posionara decididamente contra a medida, surpreendeu ao apresentar o programa para seu novo governo ao deixar claro que agora exige um Brexit radical, com todas as consequências. Não são conhecidas as razões que levaram Theresa May a mudar de ideia.

As gestões oficiais entre Londres e Bruxelas sobre os detalhes da separação nem sequer tiveram início e o assunto já causa irritações. As negociações oficiais deverão começar logo após as eleições, na segunda quinzena de junho, e deverão se prolongar até fins de 2019. O processso de separação exigirá extraordinário esforço, substância e muito dinheiro. Sobre o último item já existem veementes conflitos: a Grã-Bretanha tenciona bloquear o atual orçamento da União Europeia (medida à qual tem direito) o que indica desentendimentos programados.

Um jantar particular de Jean-Claude Junker, presidente da Comissão Europeia, com Theresa May em princípios de maio em Londres, inicialmente declarado agradável e harmônico por ambas as partes, na verdade nada teve de harmonia conforme indiscrições tornadas públicas, em doses homeopáticas, nos dias subsequentes. Farpas mordazes recíprocas azucrinaram o diálogo de um lado a outro da mesa e o jantar terminou em desastre.
Junker, irritado com as indiscrições vazadas de seu próprio círculo, num momento de descuido, contribuiu para acirrar os ânimos. Referindo-se a Theresa May, ele foi taxtivo ao dizer ante câmeras: “Ela vive em outra galáxia”. No mesmo dia Theresa May retruca: “Durante a campanha eleitoral do ano passado fui criticada por alguns adversários políticos de ser uma mulher bastante complicada. O próximo que irá sentir isto será Jean-Claude Junker em Bruxelas”.

Alfinetadas como esta e outras mais demonstram o estado de espírito e de tensão reinante entre Bruxelas e a 10 Downing Street. O polonês Donald Tusk, presidente do Conselho Europeu, conclamou ambas as partes a baixar o tom de voz no que diz respeito ao Brexit. “As gestões já são suficientemente complicadas”, disse Tusk. “Se já começamos a brigar antes de termos iniciado, as gestões tornar-se-ão impossíveis”.
Boris Johnson, hoje ministro das Relações Exteriores da Grã-Bretanha, o mais intransigente populista a favor do Brexit, acirrou as discussões com um comentário mordaz: “Bruxelas poderia ser forçada a assumir os custos do Brexit”, disse Johnson, sábado 20 de maio passado, em entrevista ao jornal “Daily Telegraph”.

O comentário de Johnson foi causado por um artigo do “Financial Times” segundo o qual a União Europeia poderia emitir uma fatura de 100 bilhões de euros para o Brexit da Grã-Bretanha. O artigo causou nervosismo em círculos londrinos. “Bruxelas quer sugar o sangue de meu país”, arrematou Johnson. Fato é que o valor de 100 bilhões de euros nunca foi mencionado por nenhum dos líderes políticos em Bruxelas.

Enquanto isso os 27 países restantes da UE outorgaram mandato a Michel Barnier, experiente e habilidoso político francês, para dirigir as gestões junto ao governo britânico. Barnier foi ministro das relações exteriores da França em 2004-2005 e comissário de Mercado Interno Europeu de 2010 a 2014, durante o segundo período de José Manuel Barroso quando presidente da Comissão Europeia. “Estamos prontos e bem preparados” disse Barnier, e adiantou que até fins do corrente ano pretende apresentar a conta ao governo da Grã-Bretanha sobre a importância que esta deverá restituir a Bruxelas por seus 40 anos de filiação à UE. Um tema extremamente nevrálgico para os britânicos.

O mandato para as negociações do Brexit prevê duas fases segundo as quais inicialmente deverão ser esclarecidas questões fundamentais para a UE como a garantia de permanência e de trabalho para 3,2 milhões de cidadãos da UE de momento com residência e trabalho na Grã-Bretanha e 1,2 milhão de cidadãos britânicos em países da UE e as exigências financeiras de Bruxelas. Esclarecidos estes detalhes a UE estaria disposta a negociar o futuro relacionamento e um possível tratado de comércio com a Grã-Bretanha. Uma questão de suma importância é a situação da Irlanda do Norte, que faz parte do Reino Unido e ao mesmo tempo é membro da UE. Bruxelas quer evitar a volta dos conflitos na Irlanda do Norte.

O Acordo de Lisboa, documento oficial que regula a convivência entre os Estados membros da União Europeia, em vigor desde 1º de dezembro de 2009, prevê regras para a filiação de novos membros à União Europeia, mas não contém nenhum item ou parágrafo que regula a decisão de um país que queira desligar-se, como ocorre agora com a Grã-Bretanha. Eis porque as gestões com a Grã-Bretanha são terreno novo de extrema complexidade para o qual não existem leis, regras, acordos, diretrizes ou coisa que valha.

Só o bom senso poderá superar as inúmeras dificuldades deste emaranhado. O bom senso é, de momento, o que menos parece existir. A Escócia e a Irlanda do Norte, que foram contra o Brexit e querem permanecer na União Europeia, poderão pôr em jogo a união do Reino Unido. O nervosismo na Grã-Bretanha aumenta. Os súditos de Sua Majestade preocupam-se com o um futuro incerto. William Shakespeare, há 400 anos, já sabia disso. Em “Hamlet”, Ato 4, Cena 5, o grande dramaturgo já vaticinava: „We know what we are, but not what we may be“! (Sabemos o que somos, mas não sabemos o que eventualmente seremos!

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