Edgar Welzel
Edgar Welzel

Não devemos esquecer o pequeno Aylan

Desde o ataque às torres gêmeas do World Trade Center, nos EUA, o terrorismo faz parte do jogo político

sirio

O pequeno Aylan morto na praia: uma foto que dilacera nossos corações

As imagens dramáticas que abalaram o mundo em 2015 permanecem vivas em nossa memória: os conflitos na Síria, no Iêmen, atentados no Iraque, na Nigéria, no Mali, na Tunísia, no Egito, na península do Sinai, na Somália, no Quênia, na Líbia, no Líbano, na Faixa de Ga­za, em Israel, na Ucrânia, só para ci­tar alguns. A lista não é completa. O Oriente Médio está em chamas e o mundo aterrorizado com o terrorismo.

Atentados já aconteceram tanto no Oriente Próximo como em Madrid, Londres, Paris, Afega­nistão, Paquis­tão, Mombai, Beslan, no teatro em Moscou, na ilha de Djerba, em Bali, Ancara e, nos primeiros dias do ano que apenas iniciou, em Istambul, Ja­car­ta, Burkina Faso, na Universidade de Peshawar no Paquistão e talvez em outros lugares que nem registramos.

Desde o ataque às torres gêmeas do World Trade Center em 11 de setembro de 2001, o terrorismo islâmico, esta forma perversa de guerrilha liderada por fanáticos religiosos intolerantes, faz parte do jogo político; o terrorismo é fator quase dominante na atual política não só regional. Confrontamo-nos com um problema global.

O 11 Setembro em Ma­nhat­tan mudou o mundo. Tornou-o mais complicado, se comparado ao mun­do da Guerra Fria com fronteiras delineadas entre dois blocos claramente definidos: o mundo ocidental, livre, democrático; e o oriental, oprimido, comunista. O terrorismo não conhece fronteiras. Podemos encontrá-lo tanto em países islâmicos como em países de outras confissões. Homens-bomba atuam aqui, lá e acolá.

A desestabilização do Oriente Médio, guerras, fome, terrorismo e milhões de jovens sem perspectivas são as causas dos atuais movimentos migratórios. Segundo dados das Nações Unidas, 70 milhões de pessoas são vítimas dessa tragédia. Desarraigaram-se, perderam suas bases, abandonaram suas aldeias, suas cidades, são expatriados que se encontram em fuga ou, no melhor dos casos, encontram-se em um dos inúmeros campos de refugiados, sob proteção da ONU na Síria, no Iraque, na Turquia, no Líbano, no Paquistão, Grécia, Itália e em outros países. Milhões de desesperados dirigem-se à Europa na esperança de encontrar aí segurança e possibilidades para uma nova vida. Uma esperança que para muitos terminará em ilusão.

Enfim, os atentados em Paris, há cerca de um ano na sede do jornal “Charlie Hebdo”, num supermercado e em novembro passado no Bataclan, mais uma vez em Paris. Os ultrajantes ataques de sexismo praticados por uma horda de mais de mil homens de feições magrebinas, africanas e árabes em Colônia, na Alemanha, na noite de 31 de dezembro passado, foram assunto da mídia mundial. O laudo policial sobre os ultrajes, um texto impróprio para publicação extrapolicial, causa horror e arrepios.

A Alemanha que abrigou 1 milhão de refugiados em 2015 não encontra apoio da maioria dos países da União Europeia para uma distribuição mais justa no conti­nente dos milhares que já chegaram e dos que ainda virão. Os apelos de Ângela Merkel, a chanceler alemã, não encontram os ouvidos da maioria dos líderes europeus. Alguns países negam-se a aceitar imigrantes. A Eu­ropa mostra-se dividida. No Fo­ro Econômico Mundial de Davos, em janeiro, Jo­a­chim Gauck, presidente da Ale­ma­nha, criticou severamente a falta de solidariedade por parte dos países do leste europeu “que tanto auxílio receberam da União Euro­peia após a queda do Império Soviético.”

Martin Schulz, presidente do Parlamento Europeu, desabafou: “A União Europeia não é um Estado federativo mas uma união de Estados. Numa união de Es­tados, os governos dos Estados membros têm uma responsabilidade especial para o sucesso desta união. Alguns, no entanto, mostram menos interesse na união do que em seus interesses nacionais. Com tal comportamento abalam os alicerces da União.”

Grupos com ideologias radicais ganham terreno a nível europeu. Autoridades mostram-se preocupadas ante a crescente onda xenobófica que se manifesta na França, Itália, Hungria, Polônia, República Tcheca e em algumas cidades do leste da Alemanha como Dresden e Leipzig. Representantes da comunidade judaica mostram-se apreensivos pelo fato de muitos dos refugiados que chegam serem procedentes de países reconhecidamente antissemitas.

Paralelamente aumenta a pressão sobre Ângela Merkel, que vacila em tomar uma decisão no sentido de limitar a entrada de refugiados na Alemanha que entrementes também ja vêm de países como o Marroco e a Argélia. Os dois partidos coligados de seu governo, a opinião pública e mesmo elementos de seu próprio partido fomentam a pressão conforme revela uma carta divulgada em 19 de janeiro, assinada por 54 deputados do partido governamental que exigem uma drástica limitação do número de imigrantes e controles nas fronteiras da Alemanha, uma medida contrária aos regulamentos do Tratado de Schengen.

As previsões para o ano de 2016 indicam que mais 1 milhão de refugiados virão à Alemanha (em janeiro, apesar do frio europeu, continuaram a chegar entre 3 mil e 4 mil refugiados por dia pela rota dos Bálcãs, à divisa sul da Áustria). Ângela Merkel está de costas contra a parede e só lhe restam duas possibilidades: atender ao apelo dos partidos coligados e da própria bancada ou pôr o cargo à disposição antes que seja forçada para tal.

Poucos dias passados do novo ano de 2016 um homem-bomba explodiu-se junto a um grupo de turistas alemães em Istambul. Resultado: 12 mortos dos quais 10 alemães. Efkan Ala, ministro do interior da Turquia declarou: “O terrorismo é o maior problema de nossa época”.

“Um morto é uma tragédia; 1 milhão de mortos é uma estatística”. A frase é de Josef Stálin (1878-1953), ditador soviético que baseou toda sua política de terror nesta frase cínica. Isto, no entanto, é História. Pertence ao passado. Acabou.

O que não acabou é o conflito na Síria que se mostra ser extremamente complicado. Em termos de complexidade nem mesmo as duas grandes guerras mundiais do século 20 tiveram motivos tão confusos, intrincados e embaraçados como o dramático conflito em andamento naquele país do Oriente Próximo que já vai para o seu quinto ano.

A Síria não declarou guerra a nenhum país e não foi atacada por outro país. O governo sírio foi atacado internamente por grupos opositores. A Europa e o mundo ocidental inicialmente permaneceram inertes ante a catástrofe que se de­senvolvia na Síria. Um erro fatal que contribuíu para o fato de que outros grupos aderissem à luta contra o re­gime do presidente Bashar al-Assad. Enquanto isso mais de dez grupos jihadistas lutam contra o governo e, incrível mas verdadeiro, alguns grupos se combatem entre si, o que torna a situação de difícil transparência. O país está em escombros.

A liderança do movimento, no entanto, está sob o comando do autoproclamado Estado Islâmico que controla parte do Iraque, da Líbia, do Iêmen com fortes ramificações na Tunísia e em alguns países do centro europeu, onde já existe uma geração nativa local de descendentes de imigrantes que compactua com as lideranças do Estado Is­lâ­mico do Iraque e da Síria. As ramificações europeias são um pesadelo para as autoridades cientes de que os acontecimentos de Paris, cujos autores eram jihadistas europeus, poderão se repetir, a qualquer hora, em qualquer outra cidade do continente.

Entre os responsáveis da aliança ocidental liderada pelos Estados Unidos, criada para pôr fim às atrocidades do Estado Islâmico, da qual fazem parte o Canadá, Dinamarca, Holanda, Grã-Bretanha, Bélgica, França, Austrália, Arábia Saudita, Alemanha e ultimamente a Turquia, existe concordância de que, para terminar com o conflito na Síria, é necessário aniquilar o Estado Islâmico. No entanto, nenhum membro da aliança tem um plano de como fazê-lo.

Adicionalmente às atividades da aliança ocidental, Mohammed bin Salman, vice-príncipe herdeiro e ministro de Defesa da Arábia Sau­dita, anunciou, em dezembro passado, a criação de uma aliança formada por 34 países islâmicos, sob a liderança da Arábia Saudita, pa­ra erradicar o Estado Islâmico, “esta moléstia que prejudicou o mundo islâmico”, segundo as palavras do próprio príncipe bin Salman.

Analistas políticos não se mostram eufóricos diante desta iniciativa que mais parece ser uma questão de ambição pessoal do jovem príncipe saudita. A aliança por ele anunciada é formada por países islâmicos com população majoritária sunita para combater o Estado Islâmico que é, em sua maioria, formado por xiitas, o que prova o confronto religioso existente dentro do mundo islâmico.

Ademais há duas grandes incógnitas nos acontecimentos na Síria: até o momento permanecem obscuros os verdadeiros objetivos do presidente da Rússia, Vladimir Putin, agora participante ativo dos acontecimentos na Síria, e do Iraque; o mesmo vale dizer sobre Recep Tayyip Erdogan, presidente da Turquia, cuja atuação inicial no conflito foi ambígua. Ambos são atores enigmáticos que seguem interesses distintos, não de todo conhecidos.

A maior idiossincrasia é o fato de que as duas alianças, a saudita (34 países) mais a ocidental (20 países) lutam apenas contra um Estado, o Estado Islâmico, que nem Estado é.
Refugiados, guerras e terrorismo. Eis o drama da Humanidade que afeta a todos. A fotógrafa turca Nilüfer Demir, da agência de notícias DHA, condensou a tragédia toda em uma única foto: a do menino sírio Aylan Kurdi encontrado morto numa das praias da Turquia na madrugada de 2 de setembro passado. Uma foto dolorosa e comovente que entrará na História. Uma foto que dilacera nossos corações, representativa para milhares de outras tragédias não só aquelas tragadas pelas águas do Mediter­râneo.

“Assim que vi o menino Aylan, meu sangue gelou. Não podia fazer nada por ele apenas fazer com que seu grito fosse escutado em todo o mundo. Fiz isso com estas fotos, quis mostrar para todos a dor que senti ao vê-lo naquele estado”, disse a fotógrafa.

Não devemos esquecer o pequeno Aylan, aquele menino sírio de camiseta vermelha e calças azuis.

Deixe uma resposta

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.

Franco

Nunca esquecerei de quem nao pude conhecer.