Edgar Welzel
Edgar Welzel

Jovens querem a criação dos Estados Unidos da Europa

88% dos alemães não querem a Alemanha desligada da União Europeia. Até ingleses mudaram de opinião. Donald Trump contribuiu para fortalecer a ideia de uma Europa unida

Donald Trump: o presidente afirma que quer fortalecer os Estados Unidos, mas está contribuindo, com seu discurso radical, para fortalecer a União Europeia; é o chamado tiro pela culatra

Após a decisão da Grã-Bre­ta­nha, em junho de 2016, de se desligar da União Euro­peia (UE), alguns órgãos da mídia alardearam que outros países seguiriam o exemplo do Reino Unido. Não faltaram aqueles que afirmavam que a decisão dos britânicos seria o início do fim da UE. Para os mais pessimistas a Europa já se encontrava no leito de morte e até seu réquiem já teria sido composto. Na verdade, houve motivos que deram origem a tais visões e um clima de emotividade exagerada propagou-se sobre o continente.

Nas últimas duas décadas, alguns países da UE defrontaram-se com graves crises econômicas, financeiras e bancárias. Algumas foram “feitas em casa”, resultantes de má administração, incompetência política, especulação desenfreada, falta de visão, de controle e seriedade; outras, resultado dos efeitos colaterais dos acontecimentos no setor imobiliário dos Estados Unidos com o consequente desastre do Lehman Brothers e demais bancos.

Tais crises foram superadas, graças às medidas tomadas pelos próprios governos com apoio logístico e financeiro dos órgãos da UE, do Banco Central Europeu, do Euro­pean Stability Mechanism (ESM), do Banco Mundial, do FMI e outras instituições. Quem ainda fala da crise da Irlanda, Islândia, Chipre, Portugal, Espanha?

Irlanda e Islândia desfrutam de cômoda estabilidade. Portugal honrou empréstimos antes do prazo e in­vestidores estrangeiros mostram renovado interesse no país. A Es­pa­nha anda no bom caminho. Segundo o FMI, em 2016, o país se encontrava em 14° lugar da lista das maiores economias mundiais quando registrou um crescimento de 0,9%, um dos mais altos índices da zona do Euro.

No entanto, permanecem questões não resolvidas, graves e de grande amplitude que causam preocupações. A infindável crise grega da qual a Europa e o mundo ocidental dificilmente conseguirão livrar-se — a não ser que debitem os empréstimos como fundo perdido, uma medida contábil que ninguém ousa expressar oficialmente.

A onda migratória segue com seus dramas via Mediterrâneo. Cem mil pessoas aportaram no sul da Itália de janeiro a julho deste ano. A maioria só conseguiu chegar em terra firme pelo fato de ter sido salva por embarcações da Frontex ou de uma das dezenas de organizações não governamentais engajadas no serviço de salvamento. A atuação de algumas destas organizações é vista de forma crítica por alguns governos da UE. Ninguém sabe quantos, neste período, pereceram nas águas do Me­diterrâneo. Estimativas falam de 4 a 5 mil pessoas. O drama inquieta a EU.

Populismo derrotado

No primeiro semestre de 2017 houve eleições em vários países da UE. Populistas exacerbados da extrema direita semearam discórdia e xenofobia contra estrangeiros e pleiteiam o fechamento total das fronteiras externas da UE. Mas o populismo sofreu derrotas em vários países, especialmente na Holanda, Áustria e França.

A Itália, terceira economia da zona do Euro, há tempos mostra evidentes sinais de preocupação. Matteo Renzi, quando chefe de governo, repetiu o erro praticado por David Cameron ao propor um plebiscito que, como o Brexit, surpreendeu e custou-lhe (igual ao britânico) o cargo. Matteo Renzi propôs Paolo Gentiloni como sucessor, pois, esperando que fizesse um governo interino, planejava voltar ao governo. Enganou-se.

Paolo Gentiloni, desde o primeiro dia no governo, tem tido desempenho político tão convincente que impressiona inclusive círculos em Bruxelas. Demonstra gostar de seu trabalho e não vai abandonar o go­verno no qual tem apenas uma magra maioria razão. A Itália provavelmente terá eleições antecipadas em 2018. Pesquisas indicam que o populista antieuropeu e ex-comediante Beppe Grillo, fundador e presidente do partido Movimento 5Stelle (M5S), Movimento 5Estrelas, poderá projetar-se como o mais forte partido da Itália. Preocupante é a precária situação bancária, área na qual o governo já “injetou” 17 bilhões de euros (cerca de R$ 64,5 bilhões) — dinheiro do contribuinte — para salvar alguns bancos. Existe o perigo de o sistema financeiro italiano entrar em colapso, o que estremeceria os alicerces da zona do Euro.

Turcos e Ucrânia

No território da UE vivem 5 milhões de turcos ou descendentes de turcos que acompanham o drama que se desenvolve no seu país de origem. O presidente da Turquia, Recep Erdogan, não poupa ataques à EU, em especial à Alemanha (onde vivem 3 milhões de turcos, dos quais 2 milhões são curdos). Líderes da UE confirmam dificuldades em lidar com um presidente, ou com um governo, que taxativamente declara todo e qualquer opositor como terrorista. Erdogan não foi eleito pela maioria do povo turco. Em sua visão a oposição, a maioria que não lhe deu o voto, é terrorista. A Turquia talvez seja o país que abriga o maior número de opositores inocentes em prisões superlotadas. Lá estão professores, magistrados, médicos, jornalistas, advogados, militares, taxistas e donas de casa. Pior perseguição política só se encontra na Coreia do Norte. O assunto preocupa a EU.

Outro assunto não resolvido é o movimento separatista no leste da Ucrânia. Desde a participação mais ativa da Rússia no conflito na Síria, amainou o conflito no leste ucraniano, o que não significa que o assunto esteja resolvido. O presidente da Rússia, Vladimir Putin, apenas evita o confronto em duas frentes. Apaziguada a Síria, separatistas na Ucrânia voltarão às armas.

Nos Estados Unidos foi eleito um presidente que vê os líderes da UE como uma malta de ineptos, a Otan como obsoleta. Ele sugere que uma UE fraca ou dividida atende aos interesses americanos. Este último detalhe era conhecido, embora nunca tenha sido dito publicamente por uma autoridade estadudinense. Donald Trump foi o primeiro a explicitá-lo. Felizmente, seus depoimentos, verdadeiros ou “fake news”, não duram mais do entre um twitter e outro.

Eurobarômetro

Pergunta-se: como está UE? Quase todos os países da UE realizam pesquisas anuais próprias para verificar o grau de emotividade de sua população em relação a Bruxelas. Desde 1973, Bruxelas tem o Eurobarômetro que, anualmente, faz pesquisas, com perguntas-padrão e alternativas sobre temas diversos para sondar o grau de emotividade em relação a Bruxelas no contexto dos países membros. A partir de 1978 os resultados do Euro­barômetro se tornaram referência para medidas a serem tomadas.

Os atuais resultados do Euro­barômetro demonstram que 56% da população europeia é otimista em relação ao futuro da EU. Em 2016 eram apenas 38%. A UE é uma instituição aceita pela maioria da população europeia, mesmo naqueles países nos quais os governos vivem às turras com Bruxelas — como Polônia e Hungria.

Pesquisa feita por uma instituição fora da UE confirma os resultados do Eurobarômetro. O Pew Research Center (PRC), com sede em Washin­gton, publicou os resultados de uma pesquisa realizada nos dez maiores países da UE na qual foram consultadas dez mil pessoas. Segundo o PRC o posicionamento pró-europeu dos alemães e dos franceses subiu 18%, dos holandeses 15% e dos espanhóis 13% em relação ao ano anterior. No Reino Unido mais de 50% da população vê a UE de forma positiva, um resultado que, segundo o PRC, chegou tarde.
À pergunta “deveria o nosso país desligar-se da EU”, 88% dos alemães responderam não. Os espanhóis com 84%, poloneses com 82%, holandeses com 80%, franceses com 76%, suecos com 74%, gregos com 58% e os italianos, mais céticos, com 54%. O PRC conclui que a eleição de Donald Trump contribuiu para que os europeus se voltassem mais ao berço da UE.
Em um mundo que se torna cada vez mais inconstante, sem liderança calculável dos EUA, ninguém quer andar sozinho. Donald Trump deu à Europa a chance de se reinventar. Os eu­ropeus terão que aproveitá-la. Só uma Europa forte e unida, autárquica e competitiva poderá evitar que outras potências, como a China, os EUA ou a Rússia, entrem nesta brecha.
A maioria da geração europeia jovem e esclarecida também vê o futuro da UE de forma positiva. Esta faixa etária vê de bom grado uma Europa grande e forte, aberta e sem fronteiras. A possibilidade de poder viajar livremente de Helsinki a Atenas e de Lisboa a Bucareste, de estudar ou trabalhar em qualquer país da UE, e de poder pagar sempre com a mesma moeda — o euro — são argumentos que pesam mais na vida dos jovens do que o argumento de que a Europa já passa por um período de 70 anos sem guerra.

Os mais jovens são menos propensos à crítica de que Bruxelas, sinônimo de UE, seja um elefante burocrático que se asfixia em sua própria burocracia. Afinal, 500 milhões de habitantes precisam e querem ser governados. O problema da Europa, pensam, não é o elefante burocrático bruxeliano mas os diversos Estados-membros, ou melhor, seus governos. Os jovens anseiam por mais Europa e menos Estados nacionais e que os Estados Unidos da Europa terão de ser criados em qualquer dia do futuro. Há razões para refutar tais anseios?

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João Alberto Neves

E o Brasil, hein! Vai largar o Mercosul?