Edgar Welzel
Edgar Welzel

Helmut Kohl, um político europeu

Correligionários e amigos cui­dam para transformá-lo em figura política única e colocá-lo num insuperável pedestal da história da Alemanha e da Eu­ro­pa

Helmut Kohl, em 1990: Entre seus méritos, está o de ter “descoberto” a jovem militante Ângela Merkel

Helmut Kohl reunificou a Alemanha, dominou a Europa e deu-lhe novo impulso. Criou o euro e governou a Re­pú­blica por mais tempo que todos os outros no cargo de chanceler. É o mais extraordinário, mais bem-sucedido e poderoso chanceler na história da Alemanha após a 2ª Guerra Mundial e – ao mesmo tempo – o mais controverso”.

O comentário é de Armin Käfer, colunista da Stuttgarter Zeitung, em matéria publicada na edição de 17 de junho passado, um dia após o falecimento de Helmut Kohl, ocorrido sexta-feira, 16 de junho, na idade de 87 anos, em sua residência em Oggersheim, no Palatinado. Helmut Kohl foi chanceler da Alemanha durante 16 anos, de 1982 a 1998.

No parágrafo em questão Armin Käfer descreve suscintamente a vida deste invulgar político. O texto poderia constar em lugar de milhares de outros que, por estes dias, proliferaram na mídia na Alemanha e mundo afora. Helmut Kohl, ainda em vida, já era uma figura histórica, uma instituição, um monumento. Morto, superará a si mesmo. Ele próprio teve o dissimulado cuidado para que seu nome figurasse inapagavelmente nos anais da história europeia.

A CDU, partido de Kohl, correligionários e amigos parecem cui­dar para transformá-lo, post mortem, em figura política única e colocá-lo num insuperável pedestal da história da Alemanha, da Eu­ro­pa e alguns até da história mundial.

Helmut Kohl merece isso? Eis a pergunta que muitos alemães fazem e as respostas são tanto positivas quanto negativas e, não raro, impregnadas de controvérsia dependendo do ângulo político donde emanam. O comentário de um forista resume a questão: “Helmut Kohl, sem dúvida, tem seus méritos e merece um pedestal na história da Alemanha e da Europa. No entanto, quero saber qual será a altura do pedestal. Qualquer exagero nas medidas não fará bem nem a Kohl nem à Alemanha”.

No contexto da política da Ale­manha Helmut Kohl foi um ho­mem de Estado com estatura política não superior nem inferior a ou­tros que o antecederam no car­go de chanceler como Konrad Ade­nauer, Ludwig Erhard, Willy Brand, Helmut Schmidt para citar alguns.

A ideia da reunificação sempre esteve presente, como ideia mestra e objetivo comum, na política alemã desde a criação da Re­pú­blica Federal da Alemanha em 1949 independente do partido político no poder. No en­tanto, como nenhum outro, Helmut Kohl sempre via a reunificação da Alemanha como um processo inseparável da integração europeia e avaliava ambas acima de quaisquer poderações ou riscos econômicos. Kohl foi, an­tes de tudo, um visionário da ideia europeia e muitas de suas visões tornaram-se re­alidade. Neste sentido, Helmut Kohl foi, antes de tudo, um grande europeu.

A reunificação da Ale­ma­nha foi um drama longo com a participação de vários atores. Helmut Kohl, sem dúvida, participou deste drama, embora tenha aparecido no palco apenas na última cena do último ato como ator coadjuvante. Na me­mó­ria coletiva formou-se a imagem de que tem sido o ator principal.

No momento crucial o chanceler Kohl por desígnios do Destino, acaso, sorte ou fortuna, foi o homem certo, na hora certa, no lugar certo ao lado de outros, fora da Alemanha, de igual importância. As causas que, afinal, culminaram com a reunificação da Alemanha e que vieram de roldão ao encontro de Kohl foram mais o resultado de desenvolvimentos exógenos do que internos da própria Alemanha. As grandes transformações ocorridas no leste europeu a partir de 1969, duas décadas antes do governo Kohl, foi a semente cujo fruto foi a queda do muro de Berlim e a consequente reunificação da Alemanha.

Willy Brand, chanceler da Alemanha de 1969 a 1974, com seu credo “Transformação via Aproximação”, iniciou a política de reaproximação, denominada Ostpolitik, Política do Leste, cujos países, na época, se encontravam sob hegemonia da União Soviética e formavam com esta o Pacto de Varsóvia.

Em 1969, por iniciativa de Willy Brand, tiveram início as conversações com os países além da Cortina de Ferro que culminaram com os tratados Salt I e Salt II (Strategic Arms Limitation Talks), assinados em 1979 por Jimmy Carter, presidente dos Estados Unidos, e Leonid Brejnev, da União Soviética. A Ostpolitk de Brand representou uma cesura no confronto político da Guerra Fria e contribuiu para o apaziguamento e equilíbrio entre os dois blocos resultantes da 2ª Guerra Mundial. Em 1971 Willy Brand foi laureado com o Nobel da Paz por sua política de abertura ao leste.

Helmuth Kohl: o mais extraordinário, bem-sucedido e poderoso chanceler na história da Alemanha após a 2ª Guerra

Outro ator de não menos importância neste processo foi o eletricista polonês Lech Walesa que, partindo dos estaleiros de Danzig, seu lugar de trabalho, estremeceu os alicerces políticos da Polônia, na época governada pelo general Woiciech Jaruzelski, adepto da linha dura comunista de Moscou. Lech Walesa, como presidente do sindicato Solidarnosc (Solidariedade) lutou contra o comunismo e transformou o sistema real-socialista da Polônia em um sistema de mercado democrático. Foi presidente da Polônia de 1990 a 1995 e laureado com o Nobel da Paz em 1983.

Incontestável também é que Karol Wojtyla, outro cidadão polonês, que em 1978 tornou-se papa João Paulo II, teve influência fundamental nos acontecimentos internos da Polônia e contribuíu para terminar com o regime do general Wojciech Jaruzelski. João Paulo II deu apoio a Lech Walesa e ao Sindicato Solidariedade o que acabou com o socialismo em sua terra natal. As transformações na Polônia tiveram influência nos desenvolvimentos internos de outros países da Cortina de Ferro.

A União Soviética, de 1979 até 1989 envolvida numa invencível e financeiramente desgastante guerra no Afeganistão, a corrida armamentista da Guerra Fria, custos na área da pesquisa espacial, parque industrial obsoleto e a economia socialista de Karl Marx, acabou sucumbindo sob o peso de seus exorbitantes custos. O resto é conhecido: a União Soviética acabou de existir oficialmente em 8 de dezembro de 1991. Foi o fim da Guerra Fria.

Há 32 anos Michail Gorbat­chov foi eleito secretário geral do Partido Comunista da União Soviética; em 1980 foi eleito presidente. Desde cedo Gorbatchov deu-se conta da inviabilidade da União Sovética. Com sua política da Glasnost (Abertura, transparência) e Pe­restroika (Transformação) Gorbat­chov deu início às grandes alterações que abalaram as bases do Império Soviético. (Perestroika, isto é, transformação, não foi este também o credo de Willy Brand?)

Gorbatchov foi laureado com o Nobel da Paz em 1990. Em seu discurso, digno de leitura, Gorbatchov explica as razões do esfacelamento da União Soviética. É provável que, sem o aparecimento de Michail Gorbatchov no cenário político internacional, o muro de Berlim não teria caído e a reunificação da Alemanha ainda estaria no campo dos sonhos.

É incontestável que a participação de George H. W. Bush, presidente dos EUA de 1989 a 1993 (pai de George W. Bush), foi de maior importância no processo da reunificação da Alemanha. Foi o presidente dos EUA que interagiu entre os chefes de governo dos países vencedores da 2ª Guerra Mundial Margaret Thatcher da Grã-Bretanha, François Mitterrand da França e Michail Gorbatchov da Rússia no sentido de aceitar a reunificação das duas Alemanhas. Helmut Kohl e os alemães nunca esqueceram a atuação do então presidente dos EUA razão pela qual continua sendo altamente venerado até hoje.

Por fim não se pode esquecer que na República Democrática Alemã, a Alemanha Oriental comunista, foi o povo que foi às ruas para manifestar seu descontentamento contra o regime e contra a situação desoladora interna. Foi o povo que afinal derrubou o muro. O governo da Hungria e da na época (ainda) Tchecoeslo­vá­quia tiveram grande participação nesses desenvolvimentos ao abrirem suas fronteiras e darem acolhida aos milhares de homens, mulheres e crianças que fugiram do “paraíso” comunista, a República Democrática Alemã.
São estas, em análise suscinta, entre outras, as principais causas que, somadas, levaram à queda do muro de Berlim em 9 de novembro de 1989 e a consequente reunificação da Alemanha. Como vimos, um processo longo e multifacetado cuja história ainda não foi escrita. Mesmo assim, Helmut Kohl entrará no panteão da história da Alemanha e da Europa como o chanceler da reunificação. Ele assim o quis e a mídia, neste particular, permaneceu inerte. Aos poucos Kohl, já em vida, era um mito que os alemães e a Europa respeitaram e aceitaram. Uma forista resume: “Ele era como foi descrito: sedento de poder, irreconciliável, descomedido. Como político foi irrefreável lutador em prol da reunificação em cujo caminho também colheu frutos que não semeou”.

Em pequena cerimônia no Parlamento Alemão em homenagem e memória a Helmut Kohl, Norbert Lammert, presidente do Parlamento, em discurso deixou claro: “Não foi Helmut Kohl sozinho que concretizou a reunificação da Alemanha. Mas sem Kohl seria difícil de imaginá-la”.
Voltemos ao euro, também mencionado no início destes comentários. Ainda em Bonn o governo da Alemanha havia conjeturado acerca de uma moeda comum na União Europeia mas mostrava-se cético em relação ao assunto e cauteloso no que diz respeito à data da introdução. Na época Helmut Kohl argumentava que, antes da moeda comum, seria necessária uma união política estável sem a qual uma união monetária seria de difícil controle. A situação mudou a partir de 1989 logo após a queda do muro de Berlim quando os líderes políticos, reunidos em Maastrich, optaram a favor da união monetária. Kohl aceitou-a com um argumento visionário: “Se a Europa, a partir de 1997 ou 1999, tiver uma moeda comum de Copenhague até Madrid, de Haia até Roma, em nenhuma repartição pú­blica europeia ninguém mais poderá frear o processo da integração política na Europa”. Era o que queria.
A introdução do euro foi portanto decidida em Bruxelas; afirmar que o euro tenha sido um projeto unicamente de Kohl não corresponde bem à verdade. François Mitterrand (1916-1996), na época presidente da França, teve grande influência neste projeto. Ficou a critério dos governos nacionais decidir a respeito da data e a forma de introdução, se por decisão parlamentar ou por referendo popular. Na Alemanha a CDU, partido de Kohl, optou por um referendo popular. Contrariando o partido, Kohl optou pela decisão parlamentar pois receava que via referendo não conseguiria maioria. Atualmente dos 28 países que formam a atual União Europeia 19 têm o euro como moeda comum.

Não foi esta a primeira nem a última vez que Kohl decidiu contra os interesses do partido, razão pela qual criou inimigos, desafetos políticos. Vários pesos-pesados, correligionários, friccionaram-se com ele. Alguns ficaram pelo caminho; outros optaram pelo ostracismo político do qual não perdiam oportunidade em criticá-lo publicamente. E Kohl não perdoava a quem o criticava.

Helmuth Kohl mantinha bom relacionamento com os demais líderes políticos europeus. Admirado e respeitado por muitos, criticado por alguns entre os quais se encontrava Margaret That­cher (1925-2013), primeira-ministra do Reino Unido de 1979 a 1990. Não é segredo que That­cher não podia lidar com Kohl e este não com Thatcher; os dois se azucrinavam reciprocamente. A própria Margaret Thatcher resume esta incompatibilidade após um encontro com o chanceler Kohl ainda em Bonn. Ao tomar assento na aeronave de volta a Londres, deixou-se cair exausta em sua poltrona e desabafou: “Meu Deus, como este homem pode ser tão alemão!” A história foi contada recentemente na TV por um longevo assessor de Thatcher.

Há pouco o governo do Reino Unido liberou documentos da era de Thatcher, a Lady de Ferro, como também era conhecida. Chamou atenção um curioso documento, redigido por um de seus assessores, no qual este lhe dava conselhos sobre a forma de como lidar com o chanceler Helmut Kohl: “Use, nos encontros, essencialmente os termos amigo, aliado e parceiro, contanto que a senhora aguente”! Apa­ren­temente Margaret Thatcher não aguentou pois posicionou-se contra a reunificação da Alemanha até que George H.W. Bush a convenceu do contrário.

Como muitos grandes homens da história, também Helmut Kohl teve problemas e não só políticos. Em 1999, já substituido por Gerhard Schroeder à frente do governo, Kohl torna-se pivô de um escândalo sem precedentes na história política da Alemanha ao receber donativos de 2,1 milhões de marcos (o euro ainda não existia) sem incluí-los na contabilidade do partido. A importância fora depositada numa conta na Suíça, o que não é ilegal contanto que seja declarado, o que não tinha sido feito. Na época Kohl já não mais tinha funções políticas mas continuava sendo presidente honorário do partido.

O caso foi parar na Justiça e Kohl e o partido foram condenados. Kohl, após assumir a responsabilidade sobre a irregularidade (embora tenha havido outros envolvidos) foi condenado a pagar 300 mil marcos o que o salvou de uma pena maior. O partido foi condenado a pagar 6 milhões de marcos, quantia esta que Kohl em seguida repôs na caixa partidária. Dentro de poucos dias conseguira angariá-la através de uma campanha tendo, desta vez, o cuidado de contabilizá-la oficialmente.

Pressionado pela Justiça em revelar nomes dos doadores, Kohl foi intransingente: “Não ci­tarei nomes pois dei minha pa­lavra de honra em não revelá-los”. Kohl foi criticado ao pôr sua palavra de honra acima da lei. Mesmo assim saiu do imbróglio isento da suspeita de que tenha se enriquecido pessoalmente, já que a importância depositada na Suíça foi integrada na contabilidade do partido. Moralmente, no entanto, o episódio foi uma catástrofe pois o homem que, em seu primeiro governo, havia conclamado à “transformação espiritual e moral”, segundo o semanário “Der Spiegel”, estava desacreditado.

Helmut Kohl nutria antipatia visceral contra alguns órgãos da mídia, especialmente contra a re­vista mais influente da Alemanha, o “Der Spiegel”, com a qual viveu às turras durante quase toda a sua vida política. Nos 16 anos nos quais foi chanceler, Kohl não lhe deu sequer uma entrevista. Por mais que esta se esforçasse, Kohl foi intransingente. Negava toda e qualquer tentativa de aproximação e menosprezava certos jornalistas, não só do “Der Spiegel”. Um profissional da imprenssa que andava em seu encalço chegou a sentir, com toda rudeza, o pouco apreço que Kohl lhe tinha: “O senhor é o jornalista mais burro da Alemanha; sei o que escreve, conheço seus textos”! Outros exemplos há.

Na acepção de Sigmund Freud, Kohl foi o protótipo do indivíduo que o mestre vienense denominou de “Übervater”, um termo por ele criado sem equivalente adequado no sentido freudiano em português. Segundo o pai da psicanálise o “Übervater” seria um suprapai (os franceses usam o termo “sur-père”) que não é necessariamente uma característica negativa. Pessoas com tais qualidades normalmente têm capacidade de liderança, gostam de se ver como líderes e crescem além de sua própria estatura quando outros os aceitam tal qual são. No campo político tais particularidades poderão ser vantajosas. No ambiente particular, familiar, o convívio com um suprapai pode ser traumático por inibir o desenvolvimento natural dos que o cercam. E a vida particular de Helmut Kohl tem inconfundíveis episódios de tragédia grega que continua mesmo após a sua morte.

Na idade de 14 anos, Helmut Kohl teve um trauma do qual nunca se livrou ao perder o irmão mais velho, Walter, jovem soldado de 16 anos, morto nos últimos dias da 2ª Guerra Mundial. Este episódio traumático, o próprio Kohl explicou, transformou-o num antibelicista para o resto de sua vida. “Nunca mais guerra na Europa”, era o que pregava com sua sua conviçção europeia.

Helmut Kohl doutorou-se em História e entrou na política em idade jovem. No início foi rebelde (a bem da verdade, não do tipo dos rebeldes de hoje). Quando chanceler não faltaram aqueles, mesmo partidários, que o criticavam por sua falta de conhecimentos em finanças e economia. Mas o doutor em História corrigia esta deficiciência de forma pragmática: deixava estas áreas para seus ministros.

Em 1960 Helmut Kohl casou com Hannelore Renner, fluente em vários idiomas, e a quem conhecia desde 1948. Nascera em Dresden onde sobreviveu ao bombardeio em 13 de fevereiro de 1945. O casal Kohl tem dois filhos. Ao primogênito, nascido em 1963, deram o nome de Walter, em reverência ao irmão do pai morto na 2ª Guerra Mundial. Para Walter, um fardo para a vida toda; o segundo, Peter, nasceu em 1965.

A família Kohl costumava passar as férias de verão na Áustria, sempre no mesmo lugar, um aprazível lago cercado de montanhas, nas imediações de Salzburgo. Pertencia ao ritual que Kohl, mesmo em descanso, dava entrevistas e selecionava fotografias à imprensa que mostravam o aparente idílio de uma família intacta.

Mais tarde o filho Walter corrigiu aquela imagem de família intacta. Em 2011 publicou seu primeiro livro no qual conta os sofrimentos que ele e o irmão tiveram como filhos de um pai célebre e importante, mas que não conseguia despir a casaca do “Übervater” quando em casa. Nesta época, os filhos já eram casados e viviam longe da casa paterna. Walter em Zurique e Peter em Ancara. O relacionamento entre pai e filhos sempre foi problemático. A publicação do livro de Walter provocou discusssões familiares que terminaram com a ruptura entre pai e filhos.

Fora do círculo familiar o livro de Walter Kohl foi um sucesso. Durante semanas ficou em primeiro lugar na lista dos mais vendidos. Entrementes já publicou um segundo e um terceiro.

Nas três obras ele fala do difícil relacionamento com o pai e da procura e tentativa de reconciliação. Na opinião de resenhistas o autor, num processo de autoterapia, procura livrar-se de traumas através da escrita.
Em 2011 o “Health Media Award” agraciou Walter Kohl com o prêmio especial “Ânimo e Coragem” pelo fato de ter revelado de forma sincera detalhes da família Kohl, detalhes estes que o povo alemão desconhecia. Heiner Geissler, um de seus desafetos, no passado em estreito contato com Kohl, resumiu: “A vida matrimonial e familiar de Helmut Kohl é uma farsa”.

Ambos os filhos de Helmut Kohl estudaram nos Estados Unidos. Walter na Harvard University (posteriormente em Viena); Peter no Massachusetts Institut of Technology (posteriormente em Viena e Cambridge). Acerca disso Walter escreveu: “Foram os nossos melhores anos; lá ninguém sabia quem éramos; ninguém nos conhecia”.

Anos antes, em 2002, Peter Kohl em parceria com Dona Kujacinski publicou um livro sobre a mãe, Hannelore Kohl. Os dois filhos mantinham bom relacionamento com a mãe. Hannelore, desde os anos 60, era alérgica à penicilina. Em 1993 teve uma infecção quando foi tratada com um antibiótico semelhante à penicilina, o que provocou uma reação alérgica extremamente crítica (Síndrome de Lyell). Em consequência Hannelore teve uma alergia solar que atacou a visão e que se agravou de forma tal que, a partir do ano 2000, a obrigara a passar os dias confinada em um quarto escuro de sua casa, em Oggersheim.

Em 5 de julho de 2001, Hannelore Kohl, na idade de 68 anos, suicidou-se ingerindo um coquetel de remédios enquanto seu marido se encontrava em Berlim. Deixou duas cartas. Uma ao marido, outra aos dois filhos. Não culpou ninguém. Na imprensa houve especulações em torno de sua morte, logo abrandadas. Ficou na memória coletiva da população o sofrimento pelo qual passara e até compreensão pela medida extrema adotada.

Walter, em um de seus livros, desabafa: “Nosso pai nem sequer nos informou a respeito da morte de nossa mãe. Uma voz feminina de seu secretariado me disse ao telefone: Walter, a tua mãe morreu!”
Anos mais tarde Helmut Kohl, em entrevista, disse: “Ela sofria de dores insuportáveis”.

A partir de 2005, Helmut Kohl passou a viver com Maike Richter, alta funcionária ministerial na chancelaria em Berlim, 34 anos mais jovem do que ele. Em 2007 passou por uma operação do joelho. Na reconvalescença, em casa, teve uma queda em virtude da qual sofreu sérias lesões cranianas-cerebrais. O titã alemão, além de terminar preso a uma cadeira de rodas, ficou com irreversíveis problemas de articulação verbal.

Em maio de 2008, Helmut Kohl e Maike Richter casaram, sob testemunho de um pequeno grupo de amigos restritos, na capela da clínica de recuperação em Heidelberg. Os filhos Walter e Peter não foram convidados. Mas receberam a seguinte mensagem eletrônica: “Casamos e estamos felizes – Helmut e Maike”. Mais uma vez, e pela última vez, Walter procurou o pai, a fim de evitar uma ruptura familiar definitiva. No fim do encontro, Walter foi direto ao assunto: “Pai, o senhor quer romper as relações comigo e Peter totalmente?” Resposta do pai: „Quero“!

A partir desse momento, Maike Richter, que adotara o nome de Maike Kohl-Richter, passou a assumir total controle sobre Helmut Kohl. Ela decidia onde Helmut Kohl aparecia em público, o que devia dizer e quem podia visitá-lo. Amigos e companheiros de partido criticavam-na pela forma como decidia quem tinha acesso a Kohl e quem não.

Helmut Kohl foi um assíduo colecionador de documentos oficiais e particulares, inclusive anotações de seu próprio punho. Durante seus 16 anos como chanceler, acumulou um acervo de milhares de documentos oficiais que somavam mais de 400 classificadores. Milhares de documentos particulares acumularam-se no subsolo de sua residência em Oggersheim. Ao deixar a chancelaria em 1998 Kohl encaminhou a completa documentação oficial à Fundação Konrad Adenauer, ligada à CDU. Foi criticado com razão pois deveria tê-la encaminhado ao Arquivo Nacional em Koblenz.

Em 2010, Helmut Kohl pediu a documentação de volta com o argumento de que a precisava para dar início à redação de suas memórias. Desde então os 400 classificadores também se encontram nos porões de sua residência em Oggersheim.

Antes da queda que o afetou física e mentalmente, Helmut Kohl começou a redigir suas memórias. Para auxiliá-lo contratou os serviços de um profissional, o jornalista Heribert Schwan. Os três primeiros volumes foram lançados em 2004, 2005 e 2007; o quarto e último deverá sair em breve. O trabalho entre Kohl e Heribert Schwan terminou em contenda judicial, que vem do ano 2005.

Naquele ano Kohl resolveu ditar suas memórias à Heribert Schwan. O trabalho, que durou meses, foi feito em 105 sessões de várias horas e que resultaram na gravação de 200 cassetes. Nestas gravações Kohl falou de sua vida política, das lutas e debates que teve, de encontros e desencontros, enfim, farto material para um jornalista ou biógrafo e mesmo para estudos históricos posteriores. Acontece que Kohl, às vezes, falava à lingua solta e ditava detalhes mordazes, maliciosos e mesmo picantes sobre determinadas pessoas que conhecera, encontrara ou lidara durante sua trajetória. Nestas passagens tinha o cuidado de acrescentar: “Isto aí não é para o público”.

Heribert Schwan ao terminar o quarto volume das memórias de Kohl escreveu um quinto livro, (Os Protocolos de Kohl), embora nunca tenha sido autorizado para tal tarefa. Nesta obra não autorizada Heribert Schwan usou inúmeras das citações picantes de Kohl extraídas das cassetes que ainda se encontravam em seu poder. Helmut Kohl, tanto ofendido como traído, levou o caso à Justiça e reclamou uma indenização de 5 milhões de euros por danos morais.

Heribert Schwan e a editora foram condenados a pagar a Kohl 1 milhão de euros. Além disso a venda da primeira edição foi cancelada. Poderá ser reeditata contanto que as citações ofensivas sejem eliminadas, ao todo um total de 116 passagens. Os condenados entraram em revisão e o contencioso segue em segunda instância. (O biógrafo autorizado por Kohl é Hans-Peter Schwaz que segue trabalhando em sua biografia).

Um detalhe da atividade política de Helmut Kohl é amplamente conhecido na Alemanha, mas largamente desconhecido fora das fronteiras do país. Não se sabe se Helmut Kohl teve um plano, se premeditou, ou se foi seu instinto, “faro” político ou outra coisa que valha que originaram tais desenvolvimentos. Helmut Kohl foi o “descobridor” de Ângela Merkel, atual chanceler da Alemanha, sucessora de Kohl, apenas intercalado por um período governamental de Gerhard Schroeder. Kohl não foi apenas o descobridor de Ângela Merkel. Passou a ser seu mentor, protetor, patrono e, no fim, acabou no papel de suprapai do qual Merkel conseguiu desvencilhar-se em momento certo. Para melhor entendimento, são necessárias algumas explicações iniciais:

Ângela Merkel nasceu em Hamburgo. Seus pais mudaram-se para a Alemanha Oriental (comunista) onde o pai, pastor da igreja protestante, assumiu uma pequena comunidade luterana no norte do país. Ângela tinha 1 ano de idade. Criou-se na Alemanha Oriental, onde teve toda a sua formação profissional e política (marxismo e leninismo faziam parte do currículo), é doutora em física, em cujo campo trabalhou várias anos em pesquisa. Além disso estudou três anos na Universidade Lumumba em Moscou. Já na Alemanha Oriental engajara-se em atividades políticas.

Em 1989 caiu o muro e Berlim. Ângela Merkel deixou a Alemanha Oriental e veio a Berlim Ocidental, onde filiou-se à CDU, o partido de Kohl, em 1990. No mesmo ano foi eleita deputada no Parlamento Alemão. Foi aí que conheceu Helmut Kohl que, cedo, deve ter detectado suas qualidades políticas. Na época Merkel tinha 36 anos. Em 1991 Helmut Kohl chamou-a para assumir o Ministério para Juventude e Mulheres. Em 1994 Merkel assumiu o Ministério do Meio Ambiente, que chefiou até 1998 quando foi eleita secretária-geral do partido.

Em 2000 eleita presidente do partido; de 2000 a 2005 paralelamente líder da oposição. A brilhante carreira política desenvolvida por Ângela Merkel em apenas 15 anos qualificou-a para o cargo de chanceler, como sucessora de Gerhrd Schroeder, cargo que assumiu em 2005 e no qual permanece até hoje. Caso nada de imprevisto aconteça, Ângela Merkel poderá ser reeleita nas eleições em setembro próximo e, neste caso, ultrapassará em longevidade na chefia do governo o seu descobridor, seu suprapai.

Curioso é que Kohl costumava chamar Ângela Merkel de “A Menina”. Não raro até usava a denominação a“Minha Menina” quando a ela se referia. Chegou o dia em que Kohl decidiu alterar esta denominação. No auge do escândalo financeiro no qual se tornara figura central, houve rumores dentro do partido. Muitos pleiteavam que o partido deveria afastar-se de Kohl pois o escândalo tendia a deteriorar a imagem da própria organização. No entanto, dentro do partido não houve ninguém que se aventurasse a explicar medida tão delicada ao suprapai Kohl.

Ângela Merkel, secretária-geral do partido, andava preocupada, pois mais do que ninguém sentia que algo deveria ser feito a fim de evitar danos maiores. Tomou uma medida inusitada. Publicou um artigo na edição de 22.12.1999 do jornal “Frankfurter Allgemeine Zeitung”, no qual não poupou em clareza: “…os acontecimentos em torno de Helmut Kohl, por ele confessos, macularam o partido….não só ele mas também o partido terá que se responsabilizar pelos estragos feitos….é provável que, após uma vida política tão longa como a que teve Helmut Kohl, seria realmente demais pedir que coloque, de um dia para outro, todos os cargos à disposição e se retire da vida política e deixe todo o campo de batalha imediatamente para sucessores mais jovens. O partido terá que aprender a caminhar e a confiar em si mesmo a fim de, no futuro, lutar contra o adversário político sem o seu velho cavalo de batalha, como Kohl mesmo muitas vezes se intitulava. O partido terá que, como na puberdade, livrar-se da casa paterna e seguir seus próprios caminhos”.

Helmut Kohl, ao tomar conhecimento do artigo, pôs à disposição o único cargo que lhe sobrava, o de presidente honorário do partido. Era exatamente o que Merkel queria. A partir deste episódio, Helmut Kohl começou a chamá-la de “Aquela Dama” quando a ela se referia.

Merkel, apesar de ter feito o papel de Brutus, não foi criticada de nenhum lado. Mais tarde comentou: “Foi um processo dolorido pois sei o que devo a Helmut Kohl. Na época não tive outra alternativa. Tive que tomar aquela medida a fim de evitar ser vista como conivente no escândalo”. Helmut Kohl desapareceu da vida pública. E Ângela Merkel? Com passo tão inusitado, que nenhum outro do partido ousou tomar, desvencilhou-se psicologicamente de seu suprapai político, seu “Übervater“. Era o que queria!

Helmut Kohl faleceu em 16 de junho passado. A viúva, Maike Kohl-Richter, a segunda esposa, nem sequer teve o cuidado de informar os filhos do marido, Walter e Peter. Walter soube da morte do pai em viagem ao escutar o noticiário no rádio do automóvel. Os restos mortais de Kohl permaneceram por dias em sua residência em Oggersheim, onde Walter com o filho e a filha chegaram dois dias depois para se despedir do pai e do avô. Ao tocar a campainha da casa paterna ninguém atendeu. Após várias tentativas, sem ser atendido, aproxima-se um policial que lhe diz: “O senhor não é bem-vindo“. A cena foi flagrada pela TV e divulgada à noite. Um choque para muitos alemães e muita crítica à madrasta.

Em Berlim discutiu-se sobre a forma de despedir Helmut Kohl em cerimônia pública condizente. Enquanto os responsáveis do cerimonial em Berlim conjeturavam, manifesta-se um cidadão de Bruxelas. Era Jean-Claude Juncker, presidente da Comissão Europeia, de longa data um dos poucos amigos íntimos de Helmut Kohl. Juncker propõe uma cerimônia no Parlamento Europeu, em Estrasburgo (França) a nível europeu, já que Kohl, além de estadista alemão, fora estadista europeu. Por esta razão tinha lhe sido concedido o título de Cidadão Honorário Europeu, honraria que até agora apenas François Mitterrand tinha recebido.

No início surgiu a impressão que a ideia partira do próprio Jean-Claude Junker. Passados alguns dias, Juncker, que visitara Kohl com certa frequência durante seus últimos anos, explicou que fora o desejo do próprio Kohl. Diante destes fatos o governo em Berlim desistiu de uma homenagem a nível nacional já que, por mais cerimoniosa e empática que fosse, não poderia superar uma homenagem no Parlamento Europeu.
Ângela Merkel aos discursar em tom muito particular disse: “Querido chanceler, devo ao senhor o fato de estar aqui”. Kohl foi o primeiro político europeu a ser homenageado a nível europeu no Parlamento Europeu. O esquife tinha sido envolto com a bandeira da União Europeia. Os filhos Walter e Peter com os netos não estiveram presentes.

De Estrasburgo o corpo foi trasladado à cidade de Speyer em cujo cemitério do domo, uma construção que data do século XI, Helmut Kohl foi sepultado no fim da tarde de 1° de julho passado. A bandeira da União Europeia foi trocada pela bandeira da Alemanha. Os filhos e netos não estiveram presentes.

Muito foi escrito em todos os quadrantes do mundo por oportunidade do falecimento de Helmut Kohl. Norbert Lammert, em seu discurso no Parlamento Alemão comentou: “Helmut Kohl, que se sentia responsável pela herança política de Konrad Adenauer, uma vez disse que Adenaur foi uma sorte para a Alemanha. Mas Helmut Kohl também o foi. Kohl foi uma sorte para a Alemanha e para a Europa. Nós alemães podemos orgulhar-nos com personalidades de seu formato, e dos quais alguns vizinhos nos invejam”.

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