Edgar Welzel
Edgar Welzel

Espanha: os problemas do rei, de um prefeito e de um bispo

Além da economia em frangalhos e o alto índice de desemprego, o país enfrenta outras dificuldades

Rei Juan Carlos I: caça ao elefante desastrosa para seu prestígio / Foto: Jon Nazca - Reuters

Rei Juan Carlos I: caça ao elefante desastrosa para seu prestígio / Foto: Jon Nazca – Reuters

Logo após a Espanha ter-se tornado membro da União Europeia em 1° de janeiro de 1986, a economia do país cresceu a passos acelerados. O surto de progresso durou até 2007, quando foi interrompido com a crise financeira que teve como consequência o desmoronamento do setor da construção civil e do setor imobiliário, que representavam um terço do PIB e que, durante três décadas, foram o motor da economia do país.

A quebra desses dois sustentáculos da economia repercutiu como o conhecido efeito dominó em outras áreas. Com os pilares da economia debilitados mais a crise bancária que levou alguns bancos à falência, a Espanha entrou em declínio e muitos espanhóis entraram num vale de lágrimas do qual ainda não conseguiram sair, apesar de a economia já dar leves sinais de recuperação.

A boa infraestrutura turística contribuíu para que turistas estrangeiros continuassem a preferir a Espanha, apesar da crise. Em 2005, dois anos antes do início da crise, a Espanha foi visitada por 55,6 milhões de turistas estrangeiros; em 2013 esta cifra chegou a 60,6 milhões, uma cifra superior à população do próprio país, que é de 47 milhões. No ranking internacional de turismo a Espanha ocupa o terceiro lugar, depois da França e dos Estados Unidos.

Mesmo assim, os problemas que afligem a população continuam. O alto índice de desemprego de 27% — entre os jovens abaixo de 25 anos chega a 56% — continua sendo um dos maiores da União Europeia. Além disso a Espanha confronta-se com o grave problema da imigração. Segundo dados de 2012 vivem na Espanha oficialmente cerca de 7 milhões de imigrantes aos quais deverá ser somado mais 1 milhão em situação clandestina. O maior contingente, 2,2 milhões, é formado por latino-americanos, dos quais 108 mil são provenientes do Brasil. Seguem os romenos com 900 mil; marroquinos 800 mil; Reino Unido 400 mil; Alemanha 200 mil; Itália 188 mil; Bulgária 174 mil; China 170 mil e outros. Muitos espanhóis, sobretudo jovens acadêmicos, procuram emprego em outros países da União Europeia. O país preferido é a Alemanha, razão pela qual nunca se estudou tanto alemão na Espanha como nos dias atuais. Os cursos estão repletos.

Como se tudo isso não bastasse a Espanha confronta-se com vários outras questões internas não solvidas de maior e de menor vulto. São problemas que, por sua natureza singular, são amplamente discutidos e alguns chegam até a ser curiosos. Abordaremos alguns exemplos a esmo:

O rei Juan Carlos I, filho mais velho de Juan de Borbón y Bat­tenberg e neto de Alfonso XIII, assumiu o trono em novembro de 1975 na idade de 36 anos.

Desde que assumiu o trono Juan Carlos I foi exemplo de probidade, integridade de caráter e de honradez.

Graças a sua exemplar articulação durante o difícil período de transição da ditadura de Francisco Franco à monarquia democrática hereditária, o rei da Espanha vivia como que ungido com uma aura de respeitabilidade e magnificência.

Em 23 de fevereiro de 1981 Juan Carlos I dominou um golpe de Estado graças a simples autoridade de seu cargo e o rei passou a ser visto, por muitos espanhóis, como um ser sobre-humano; o monarca tornou-se instituição colocada transfigurativamente, fora de qualquer suspeita, acima de todas as outras instituições. Tornou-se personalidade exemplar máxima que os espanhóis idolatravam e por isso viam a casa real como a mais alta instituição de respeitabilidade e o rei como figura central era benquisto, honrado e respeitado.

Esse prestígio inquebrantável do monarca começou a mostrar fissuras quando se tornaram conhecidos detalhes de sua vida particular, entre outros, os de sua vida extramarital. Desde então, no Palácio de la Zarzuela, residência oficial da família real, situada ao norte de Madrid, nas montanhas de El Pardo, o ambiente é de tensão.

A tensão cresceu quando em 2012, só por acaso, se tornou conhecido outra predileção do monarca: a caça de elefante na re­gião de Okavango, em Botsuana. Na caçada o monarca levou um tombo, fraturou o quadril e teve que ser transportado às pressas de volta de Botsuana a Madrid. A crítica por parte de seus súditos foi contundente: “Enquanto os espanhóis passam mal, o rei se diverte na África na prática de um esporte extremamene caro”.

Na verdade, só a licença para abater um elefante custa 20 mil euros, mais os custos do voo em aeronave fretada, segurança, atendimento médico, alojamento e demais medidas e equipamentos que uma caçada real exige. A caça de elefante foi repudiada pela maioria da população.

Além das críticas de seus súditos, a caçada do monarca revelou outro detalhe vexaminoso: O rei Juan Carlos I é presidente de honra do setor espanhol do World Wide Fund for Nature, o WWF, Fundo Mun­dial para a Natureza, uma orga­ni­zação não governamental representada em mais de cem países. A caça de qualquer animal é incompatível com as diretrizes do WWF. Em milhares de cartas, de todos os quadrantes do Globo, foi pedida a sua demissão da presidência de honra.

A carta mais contundente talvez tenha sido a de Brigitte Bar­dot, ex-atriz e conhecida ativista em proteção aos animais. Eis uma passagem de sua carta en­viada ao rei: “Majestade – Não lhe desejo pronta recuperação caso esta contribua para que V.M. continue a realizar suas viagens mortais à África ou a outro lugar qualquer. Espero, no entanto, que o seu tombo contribua para pôr sua cabeça mais uma vez em ordem”.

Como se tudo isso não bastasse, outro assunto, extremamente indecoroso complicou ainda mais a situação da família real. Iñaki Urdangarin Libaert, genro do rei, casado com a princesa Cristina, filha mais nova do rei Juan Carlos I e da rainha Sophia, encontra-se no centro de um escândalo financeiro de enormes proporções. A Justiça de Palma de Mallorca acusa Iñaki e Cristina, ambos com os ostentosos títulos de duque e duquesa de Palma de Mallorca, terem se apoderado de milhões de euros de dinheiro público e sistematicamente terem sonegado o fisco.

O caso, que está em andamento na Justiça, mancha de forma inapagável a casa real desde que o assunto se tornou conhecido há dois anos. É difícil de imaginar que o genro Iñaki Urdangarin saia juridicamente ileso deste escândalo que irrita tanto monarquistas como não monarquistas espanhóis.

Segundo enquete realizada pelo jornal “El Mundo”, de Madrid, publicada por oportunidade do 76° aniversário do rei Juan Carlos I em princípios de janeiro passado, 75% dos espanhóis são de opinião que o rei abdique o quanto antes possível e que passe a coroa a seu filho Felipe, duque de Astúrias. A imagem e a respeitabilidade do rei estão no fundo do poço.

Além disso a Espanha se confronta com velhos problemas de separatismo, um movimento que não existe apenas no seio da população basca, no qual nesses últimos 40 anos morreram cerca de mil pessoas em atentados terroristas. Também na região da Catalunha, cuja capital é Bar­celona, há fortes tendências separatistas. Caso os resultados de várias enquetes forem verdadeiros, a maioria dos catalões é a favor de uma separação do governo central. Em 9 de novembro do corrente ano está previsto um plebicito. Caso a maioria decida a favor da separação o governo em Madrid terá uma questão complicada para resolver, já que a Constituição proíbe o separatismo.

Segundo o Direito Internacional os catalões não teriam nenhum direito a um estado independente. O Pacto Civil das Nações Unidas de 1966 diz em seu primeiro parágrafo: “Todos os povos têm um direito à independência”. Este parágrafo, no entanto, só é válido em caso em que há pressões políticas, linguísticas ou religiosas. Nenhum desses casos existe entre o relacionamento da Espanha e da Catalunha.

Em comparação, o prefeito Lorenzo Rodrí­guez, chefe municipal de uma pequena aldeia localizada a cerca de 50 km ao oeste de Burgos, capital de Castilla y León, tem um problema menor, mas de histórica importância. O prefeito não gosta do nome da localidade que governa e por isso quer mudá-lo. A localidade existe desde a remota Idade Média no século 11, e sua origem remonta a um tempo em que cristãos, ju­deus e muçulmanos cohabitavam na Espanha.

Provavelmente no ano 1035 os habitantes de um lugar próximo chamado Castrojeriz atacaram um castelo, mataram alguns oficiais e 60 judeus. Os judeus sobreviventes foram transferidos para uma nova localidade, que teve o nome de Castrillo. Passados alguns anos, Castrillo teve um nome adicional: Castrillo Mota de Judíos o que, no espanhol da época, significava Castrillo Colina dos Judeus. Com o passar do tempo o Mota passou a Mata e daí para Castrillo Ma­tajudios que permanece até hoje. É compreensível que o prefeito queira mudá-lo.

A Espanha é um país rico em história e arquitetura islâmicas. A catedral-mesquita, ou mesquita-catedral de Córdova é uma da mais impressionantes obras arquitetônicas do mundo, e não tem outra que pudesse servir de comparação. É única. A construção, que tem uma área de 24 mil metros quadrados, foi iniciada no ano de 784 e durou três séculos para terminá-la. Serviu de templo islâmico até a Reconquista Cristã em Córdova em 1236. Desde então a construção é uma mistura entre mesquita e templo cristão católico, razão pela qual para uns ela é mesquita, para outros catedral. A construção é de propriedade do bispado de Córdova e o atual bispo quer abolir a denominação mesquita. A reação de historiadores do mundo islâmico é contundente. O bispo tocou num assunto que é de relevância histórica e tem os ingredientes que geram confusão.

A impressionante obra arquitetônica tem uma história riquíssima que, por motivos de espaço, merece ser tratada, oportunamente, em texto separado.

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