Edgar Welzel
Edgar Welzel

Considerações sobre o terror de ontem e de hoje

Terror de hoje não será de curta duração. O mundo ocidental terá que se confrontar com este câncer por muito tempo

O termo terror (do latim terrore) surgiu durante a Revolução Francesa, entre a queda dos Girondinos (31 de maio de 1793) e a de Robespierre (27 de setembro de 1794). Milhares de pessoas morreram, arbitrariamente, durante aquele período de 14 meses através da guilhotina. Em determinados dias, o número de guilhotinados ultrapassava a casa dos cem. Ao todo, foram decapitadas mais de um milhão de pessoas. O terror vinha de cima, o que originou a expressão Regime de Terror.

O Estado, como instituição política, servia-se do terror para alcançar seus objetivos políticos. Maximilien de Robespierre, Louis-Antoine de Saint-Just e Joseph Fouché são os homens mais conhecidos que defendiam o regime de terror da época. Seus nomes bem poderiam constar como os primeiros representantes do terror da Idade Moderna. Seguiu-se o período de Napoleão Bonaparte, não menos imbuído de terror, cujas tropas conturbaram a Europa, inclusive o Egito.

Durante a 1ª Guerra Mundial (1914-1918) o terror era instrumento usual praticado entre ambas as partes: de cima e de baixo. O mesmo sucedeu-se na Guerra Civil Espanhola (1936-1939) na qual os falangistas que, em terminologia atual, nada mais eram do que terroristas treinados para combater o inimigo em emboscadas, explosão de cruzamentos estratégicos em estradas, vias férreas ou de pontes para dificultar o deslocamento do inimigo. Ernest Hemingway, em sua obra “Por Quem os Sinos Dobram”, descreveu os atos de terror praticados naquela guerra civil.

Mais ou menos na mesma época, os “partigiani” na Itália iniciam suas atividades “de baixo” contra o terror fascista de Mussolini; com o mesmo espírito combativo, os “partisanes” ou “partisãos” dos Bálcãs, entre os quais encontrava-se o próprio Josef Broz Tito, agiam nos subterrâneos contra o terror de cima. Tito tinha passado por uma escola de espionagem do Império Áustro-Húngaro antes da 1ª Guerra Mundial e tornara-se o homem forte da ex-Iugoslávia após a 2ª Guerra Mundial. Colega de classe de Tito na escola de espionagem foi Adolf Hitler que, posteriormente, instituiu um dos regimes de terror mais hediondos da História.

Joseph Stálin e seus sucessores lideraram o regime de terror da União Soviética que incluía todos os países comunistas do leste Europeu. Acrescente-se ainda Mao Tsé-Tung da China, Ho Chi Minh da República Democrática do Vietnam e Pol Pot do Camboja. Em termos de atrocidades, onde o terror vinha de cima, encontram-se todos em mesmo pé de igualdade.

Na Europa, os últimos representantes desta espécie foram António de Oliveira Salazar, de Portugal, que morreu em 1970; Francisco Franco, da Espanha, em 1975, e Nicolae Ceausescu, da Romênia, executado em 1989. Os líderes políticos da República Democrática da Ale­manha, a Alemanha comunista, que sucumbiu com a queda do Muro de Berlim, também são representativos de um regime de terror.

Fidel Castro, um parente político dos demais citados, morreu há pouco. Entre os vivos encontram-se dois políticos exóticos de idêntica periculosidade: o caricato Kim Jong-un, líder máximo da Coreia do Norte, e Rodrigo Duterte, atual presidente das Filipinas. O último tem demonstrado ser um presidente excêntrico, fascínora psiquicamente desiquilibrado, que se gaba de ter matado pessoalmente dezenas de drogados ao fazer ronda em sua moto, enquanto chefe de polícia de Manila.

A Europa mudou em 1968 com a revolta estudantil, quando a juventude saiu às ruas portando cartazes com Che Guevara, Ho Chi Minh e Mao Tsé-Tung. Foi difícil entender as razões pelas quais a juventude estudantil de então idolatrava líderes que foram, reconhecidamente, os maiores carrascos do século 20. Na Alemanha, surgiu o grupo terrorista Baader-Meinhof, responsável por vários atentados mortais conta altos representantes da política, da indústria e da rede bancária.

Na França, esses acontecimentos quase derrubaram o general Charles de Gaulle, na época, presidente do país. As arruaças em Paris só terminaram quando de Gaulle, num pronunciamento enfático na televisão, advertiu: “Demonstração sim; anarquia não”. A turba entendeu. As arruaças silenciaram, mas alguns arruaceiros daquela época fazem parte da política europeia até hoje.

A Europa mudou em 1968, mas o mundo mudou a partir do 11 de setembro de 2001, o dia que entrou na história com a designação 9/11, “Nine Eleven” , o dia no qual o “terror de baixo” transformou em cinzas as torres gêmeas do World Trade Center em Nova Yorque, símbolo do capitalismo ocidental, odiado por uma parcela do mundo islâmico, na época, representada por Osama bin Laden.

George W. Bush, então presidente dos Estados Unidos, declarou guerra contra o radicalismo islâmico e invadiu arbitrariamente o Iraque, o que terminou com mais um fracasso bélico dos Estados Unidos depois da Guerra do Vietnam (1955-1975) e a Guerra do Afeganistão, que perdura até hoje.

A invasão do Iraque contribuiu para acirrar o já existente profundo ódio de certos grupos islâmicos contra o ocidente. Nasceu daí o Estado Islâmico, que nem Estado é, mas que, com seu regime de terror baseado numa interpretação fanática e duvidosa do Alcorão, ameaça não só a Europa, mas o mundo ocidental em seu todo.

A onda migratória, resultado da total destabilização do Oriente Próximo e a desesperançosa situação de vida de grandes regiões da África, serve aos islamistas radicais como argumento para aniquilar o mundo ocidental que veem como decadente.

A selvageria, o canibalismo e o barbarismo fazem parte da teoria evolucionista de certos grupos em diversas sociedades humanas. Tudo isto pertence ao passado. Mas o islamismo radical, representado pelo Estado Islâmico (EI) e demais grupos e grupelhos idênticos que veem a sua religião como a única verdadeira, demonstra, com seus ataques terroristas no mundo ocidental, querer voltar àquele passado. As imagens transmitidas pelo EI são altamente selvagens e barbarescas.

Muitos atos terroristas de fundo islâmico têm ocorrido depois do 9/11. A lista é longa e os fatos são conhecidos. No entanto, os acontecimentos na passagem do ano em Berlim, em Istambul, na Síria, no Iraque, no Iémen e demais lugares são prova de incidência crescente. Está em mira o mundo ocidental em seu todo e nenhum país sozinho está em condições de garantir sua segurança. O problema é global e, consequentemente, o terrorismo não tem fronteiras e só pode ser combatido no conjunto da comunidade das nações.

Por mais que os serviços secretos do mundo ocidental se esforcem, não há e nunca poderá haver segurança total como demonstra o atentado no mercado natalino em Berlim, na véspera do Natal. A ocorrência foi de tal tragicidade e complexidade que merece comentário à parte. Voltaremos ao assunto.

Afinal, o que é que estamos presenciando? Encontramo-nos numa guerra geoestratégica ou num confronto religioso? Eis a questão que preocupa uma legião de políticos, estudiosos e estrategistas. Os serviços secretos mostram-se nervosos. Apesar dos vultosos investimentos em infraestrutura, pessoal, equipamento técnico e eletrônico, os especialistas confrontam-se com um problema de difícil controle e duvidosa solução.

Segundo dados da Enciclopédia Britânica, a população mundial em 2010 era de 7 bilhões de habitantes, entre os quais 2,4 bilhões de cristãos (31,5%) e 1,7 bilhões de muçulmanos (23,2%). Um estudo minucioso realizado na Áustria em 2015 estima que, até o ano de 2050, a população mundial será de 9 bilhões de habitantes. A participação cristã permanecerá inalterada com 31,5% ao passo que a população islâmica crescerá a 29,7%, o que em números representa um aumento de 2,2 bilhões de muçulmanos. Isto significa que em 2050 o Islã, provavelmente, superará em números a comunidade cristã.

Em 1993, Samuel P. Huntington, cientista político americano, publicou um artigo na revista Foreign Affairs no qual defendera a hipótese de que “a fonte fundamental de conflitos neste mundo novo não será principalmente ideológica ou econômica. As grandes divisões entre a humanidade e a fonte dominante de conflitos será cultural. Os Estados-nações continuarão a ser os atores mais poderosos no cenário mundial, mas os principais conflitos da política global ocorrerão entre países e grupos de diferentes civilizações. O choque de civilizações dominará a política global”.

O artigo foi criticado em quase todo o mundo ocidental, razão pela qual Huntington resolveu aprofundar a ideia o que deu origem a sua obra “The Clash of Civilization” (Simon & Schuster, New York 1996). O livro também causou polêmica. Mesmo assim a obra foi traduzida, em poucos anos, em dezenas de línguas. No Brasil, saiu com o título “O Choque de Civilizações e a Recomposição da Ordem Mundial” (Editora Objetiva, 1997).

Ao reler o livro, 21 anos depois do lançamento, pode-se constatar que a hipótese de Huntington deixou de ser hipótese. O terrorismo que presenciamos transforma a hipótese do autor em dura realidade.

O terror da Revolução Francesa foi de curta duração e teve outras causas do que o terror de nossos dias. O mundo ocidental de hoje continua a usufruir os resultados do lema daquela revolução, uma condensação das ideias iluministas, “Liberté, Egalité, Fraternité”. Em outras palavras, a nossa liberdade é fruto da Revolução Francesa. É bom lembrar-se disso, o que não significa tolerar o terror daquela época.

O terror de hoje não será de curta duração. O mundo ocidental terá que confrontar-se com este câncer religioso com muitas metástases malignas, por décadas vindouras do século XXI. O terror de hoje não nos deixará nenhum lema que servirá de diretriz para as sociedades do futuro. O grito de guerra do Estado Islâmico, “Alá é grande”, aliado a seus métodos selvagens que pertencem ao baú da História, definitivamente não pode ser tolerado no mundo ocidental. l

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