Edgar Welzel
Edgar Welzel

Comentário à surdina em Bruxelas

Brexit foi a vitória do populismo e seus artífices se esconderam depois do resultado que chocou até a população da Grã-Bretanha

mapaO plebiscito realizado em 23 de junho na Grã-Bretanha para decidir sobre a permanência na União Europeia chocou a Europa. Maior, no entanto, foi o choque que a população da própria Grã-Bretanha teve ao acordar na manhã seguinte à votação. O que é que aconteceu para que os britânicos passassem da euforia à frustração? Não queriam os britânicos separar-se da União Europeia?

Segundo os resultados do plebiscito 52% dos britânicos querem separar-se da União Europeia. A pergunta que se põe: será que os britânicos realmente pertencem a Europa? A Grã-Bretanha tornou-se membro da União Europeia há 40 anos. Desde então o governo de Londres vivia às turras com Bruxelas. Os britânicos sempre viam-se numa situação especial exigindo condições, direitos e privilégios exclusivos e não necessariamente responsabilidades e compromissos em relação a União Europeia.

Um britânico que viaja de algum lugar da Grã-Bretanha para Paris, Ber­lim, Roma ou Madrid não diz que via­ja a Paris, Berlim, etc. Costuma dizer que viaja ao “Continente”. Só esta for­­ma de falar, muito usual, já implica que o britânico não se vê como europeu.

A Grã-Bretanha, afinal, o que é? Qual é a diferença entre Inglaterra, Grã-Bretanha e Reino Unido? Quem são os ingleses e quem são os britânicos? Qual é a relação entre a Ingla­ter­ra, Escócia, Gales, Irlanda e Irlanda do Norte? Mesmo europeus confundem este emaranhado e acham que a In­glaterra, a Grã-Bretanha e o Reino U­ni­do são sinônimos. Que dirão en­tão aqueles que vivem longe da Europa?

O Reino Unido é “um país de países”, uma expressão inusitada que deixa alguns leitores desnorteados. “Nunca li, nem ouvi e não entendo”, dirão alguns. Vamos aos detalhes.

O Reino Unido é formado por um conjunto de quatro países: Ingla­terra, Escócia, Gales e Irlanda do Nor­te. Unidos formam um Estado soberano com regime de governo monárquico parlamentar com sede em Londres. A designação oficial desta união é Reino Unido da Grã-Bretanha e Irlanda do Norte. O Reino Unido, portanto, é muito mais do que apenas a Inglaterra.

A diferença entre Reino Unido e Grã-Bretanha é apenas geográfica. A Grã-Bretanha é assim denominda pelo simples fato de ser a maior das ilhas britânicas, ou seja, a ilha na qual se encontra a Inglaterra, Gales e a Escócia.

A segunda maior ilha britânica é a que abriga a Irlanda do Norte e a República da Irlanda. A Irlanda do Norte faz parte do Reino Unido mas não faz parte da Grã-Bretanha. A República da Irlanda não tem nada a ver com a Grã-Bretanha tampouco com o Reino Unido. Mas a Grã-Bretanha e a República da Irlanda são membros da União Europeia.

Todos os habitantes da Ingla­ter­ra, Escócia e Gales são britânicos. Em virtude de rivalidades existentes entre estes três países, os ingleses antes de serem britânicos são ingleses; os escoceses, embora sendo bri­tânicos são, antes de tudo, escoceses. O mesmo vale para os galeses.

Esta explicação detalhada foi necessária para demonstrar a complexidade desta construção físico-política-cultural-econômica-financeira que se denomina Grã-Bre­tanha, para muitos uma construção artificial.

Para os britânicos o Brexit é uma catástrofe semelhante a um fungo que carcome uma árvore fazendo-a definhar. Caso esta não se recuperar com a própria seiva restará, no pior dos casos, apenas um raquítico e triste tronco. Esta comparação botânica tem sentido. Voltaremos ao assunto mais adiante.

O problema que se criou com o plebiscito, com resultados ao todo ainda não previsíveis, é um problema essencialmente interno da Grã-Bretanha que não causará grandes mazelas na União Europeia.

No entanto, a decisão do povo britânico poderá transformar-se no maior erro político do século resultante de uma campanha impregnada com egoísmos nacionalistas-populistas mas lá nem por isso menos democrática.

É prematuro para analisar as consequências desta abismal mancada política que aumentou sensivelmente a rachadura já antes existente na sociedade britânica. As consequências econômicas e financeiras fora da Grã-Bretanha provavelmente normalizar-se-ão mais rápido do que os vaticínios alarmantes dos mais céticos. De mo­mento a situação ainda é de impacto na qual dominam emoções. É necessário, antes de tudo, que a emoção ceda lugar à racionalidade.

Internamente o Brexit, no entanto, dividiu a sociedade britânica ainda mais. As cicatrizes abertas pela rachadura preocuparão uma geração toda que terá que viver com as consequências de uma campanha política irreal, falsa, demagógica e populista. O Brexit não terá ganhadores; só terá perdedores. O maior perdedor é a própria Grã-Bretanha, mais ainda os populistas britânicos que se veem como os pais deste movimento que provocou ódio e discórdia.

Os líderes políticos da Grã-Bretanha engolfaram-se numa aventura política sem terem tido um plano B e sem meditar sobre as consequências que poderiam resultar deste pôquer político que engendraram. As consequências estão aí: um monte de entulho do qual ninguém sabe como livrar-se e muito menos de como corrigir os estragos feitos. Na verdade não tinham plano algum.

David Cameron, o primeiro-ministro demissionário, foi quem propôs o plebiscito forçado por partidários. (Ver: Grã-Bretanha no dilema de sair da UE, Jornal Opção 2130). Cameron nunca foi europeu. Em fevereiro passado, após extorquir mais algumas (fracas) regalias de Bruxelas, comprometeu-se fazer todo o possível para evitar o Brexit. Por mais que se esforçasse na campanha, David Cameron não conseguiu explicar de forma convincente aos eleitores a sua metamorfose pessoal de antieuropeu para europeu convicto. Cameron jogou alto e perdeu.

É indubitável que o Brexit teria decorrido de forma diferente e com resultado contrário caso não tivesse entrado em cena um fenômeno bastante difundido na Europa e em outras partes do mundo: o populismo. O Brexit nada mais é do que a vitória do populismo e o populismo britânico teve dois rostos: o de Boris Johnson, excêntrico ex-prefeito de Londres, partidário e colega de estudos de David Cameron, e o de Nigel Farage, líder do partido UKIP (United Kingdom Inde­pendence Party) da extrema-direita britânica.

Tanto Boris Johnson como Nigel Farage são os responsáveis pela catástrofe britânica. Durante a campanha plebiscitária ambos ludibriaram o povo com dados, argumentações e promessas falsas não cumpríveis. Nunca houve na história da Grã-Bretanha, após a 2ª Guerra Mundial, uma campanha política tão extremada como esta que acabamos de presenciar.

Conhecidos os resultados do pleito Farage declara: “É o dia da in­dependência da Grã-Bretanha”. Boris Johnson, aparentemente assustado com os resultados, desapareceu do cenário por alguns dias. Ao reaparecer declarou que não pretende candidatar-se à sucessão de David Cameron: “Não sou a pessoa ideal para este cargo”, confessou.

Fato é que Johnson foi forçado pelo partido a não concorrer ao cargo de primeiro-ministro. Num linguajar coloquial poderíamos afirmar que Boris Johnson foi fritado pelo próprio partido, mas em realidade ele mesmo se fritou. Ao mesmo tempo Nigel Farage renuncia ao posto de líder da extrema-direita da Grã-Bretanha mas permanece com seu mandato de deputado no Parlamento Europeu.

Johnson e Farage, os homens que deram rosto ao plebiscito britânico, são os responsáveis pelo monte de entulho produzido em Londres. Na hora de fazer a limpeza, ambos se abstêm de pegar a vassoura e limpar a casa britânica. Fogem da responsabilidade.

Jean-Claude Juncker, presidente da Comissão Europeia, em discurso referindo-se aos líderes brexistas na Grã-Bretanha, declarou: “Cons­tato que os felizes heróis brexistas de ontem, são os tristes heróis de hoje. Patriotas não abandonam o barco em tempestade. Eles permanecem”. (Há analistas que afirmam que na última parte da frase Juncker se refere a si mesmo pois sua cabeça está sendo exigida por governos de alguns países do leste europeu). Dirigin­do-se a Farage que esteve presente Juncker perguntou: “Afi­nal, por que é que o senhor está aqui?”

Guy Verhofstadt, líder dos liberais no Parlamento Europeu e ex-primeiro-ministro da Bélgica, também referindo-se aos mesmos líderes do movimento na Grã-Breta­nha, em discurso no Parlamento Europeu foi mais contundente: “Os brexistas (em inglês: brexiteers) fazem-me lembrar dos ratos que abandonam um barco em naufrágio”. Boris Johnson já não pode ir às ruas. Transformou-se em persona non grata.

Além das difíceis negociações com Bruxelas para concretizar a separação (e Bruxelas não terá nenhum interesse em facilitar o “divórcio”) a Grã-Bretanha tem outro problema ainda maior: o de manter a coesão do Reino Unido.

Na Escócia 62% dos eleitores votaram contra o Brexit e com isso confirmaram que não querem separar-se da União Europeia, mas provavelmente vão se separar da Grã-Bretanha. O mesmo ocorrerá com a Irlanda do Norte onde o povo também votou com 62% contra o Brexit. A Irlanda do Norte fará as pazes com a República da Irlanda e se desligará do Reino Unido.

O fungo que agrediu a árvore Grã-Bretanha vai lhe chupar a seiva e no fim restará apenas um triste e esquálido tronco. Neste contexto o atributo grã não mais terá sentido.

Algumas observações aqui articuladas são, obviamente, de fundo especulativo. Teremos que aguardar os acontecimentos que nos darão novos e fartos assuntos para esta coluna. Voltaremos a nos preocupar com a matéria que não estará isenta de surpresas.

Nos corredores em Bruxelas ouve-se um comentário em surdina. Ninguém ousa pronunciá-lo em voz alta: “Bye, bye, Great Britain”.

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