Britânicos querem um unicórnio mas a União Europeia só oferece um pônei

Teme-se que o Brexit se prolongue, durante mais tempo e sem resultado conhecido. É a possibilidade que ninguém quer

Edgar Welzel

De Stuttgart, Alemanha

O Brexit é o tema dominante na Europa desde o plebiscito britânico em junho de 2016. O assunto é comentado tanto na mídia como em encontros particulares, no trabalho e no ambiente familiar. A data para a saída da Grã-Bretanha da União Europeia, adiada várias vezes, mais uma vez foi postergada, desta vez para 31 de janeiro de 2020. Ninguém sabe se será a derradeira ou se será apenas um novo meio astucioso do primeiro-ministro Boris Johnson, da Grã-Bretanha, para emaranhar os peritos em Bruxelas.

Boris Johnson, primeiro-ministro britânico | Foto: Reuters/Andrew Yates/File Photo

Os europeus estão fartos de serem confrontados diariamente à exaustão com o assunto que dividiu a Grã-Bretanha. Nesta interminável discussão dois primeiros-ministros, David Cameron e Teresa May, já perderam o cargo e o atual, Boris Johnson, o BoJo, apesar de seus altos e baixos, com verdades e mentiras, é o homem dominante do momento. Ao proclamar novas eleições para 12 de dezembro, inicialmente tinha-se a impressão que Boris Johnson se expusera ao risco de ser o terceiro primeiro-ministro a perder o cargo neste extraordinário complexo divórcio europeu.

No entanto, não parece ser este o caso. Segundo enquete do “Sunday Times”, “Mail on Sunday” e do “Observer” de domingo, 24 de novembro passado, os conservadores de Boris Johnson, os tories, alcançariam entre 39 e 41% dos votos; a oposição, liderada por Jeremy Corbyn (Labour Party), chegaria a obter entre 26 e 29%; em terceiro lugar chegariam os liberais-democratas com 15 a 17%.

No caso de uma eventual vitória do Partido Conservador, Boris Johnson tem chance de continuar sendo primeiro-ministro e não poupará esforço para levar adiante o seu projeto de separação. Convém lembrar que, no passado, Boris Johnson atuou, politicamente, pela causa europeia. Mas passou por uma metamorfose política camaleônica. Paira a dúvida se a metamorfose foi por convicção ou oportunismo.

A possibilidade de uma desagregação da Grã-Bretanha paira, como a Espada de Dâmocles, sobre o assunto. A Escócia, no caso de um Brexit sem acordo, tende a separar-se da Grã-Bretanha — o que significaria, segundo a lei vigente britânica, uma segunda Catalunha no contexto europeu.

O Brexit transformou-se em um processo demasiadamente irritante — que exaure, importuna e, enfim, bloqueia o trabalho em vários níveis e aspectos nas diversas instituições da União Europeia em Bruxelas: a incerteza dos europeus quanto a seus direitos de ambos os lados do Canal da Mancha; a incerteza quanto ao relacionamento comercial entre a Grã-Bretanha e a União Europeia; os prováveis entraves na divisa entre a Irlanda e a Irlanda do Norte, um detalhe de crucial importância, que tanto a União Europeia como a Irlanda e a Irlanda do Norte querem evitar; o futuro da Escócia;  o (livre?) tráfego através do Eurotúnel sob o Canal da Mancha; decisões orçamentárias da União Europeia para os próximos anos emperradas sem a participação da Grã-Bretanha e, enfim, a presença da própria Grã-Bretanha nas instituições da UE são apenas alguns tópicos de uma longa lista de assuntos não esclarecidos de transtornos recíprocos cuja complexidade consiste de um amplo cardápio com ingredientes de inseguridade, imaginação, imprevisibilidade e mais ainda de incompreensibilidade.

Menina com balão, de Bansky

Além dos entraves de cunho político e burocrático deve-se considerar os agravantes dos aspectos sociais-laborais que atingirão o mercado de trabalho na maioria dos países da União Europeia. Segundo um estudo da Universidade de Leuven (Bélgica), o Brexit sem acordo provocaria preocupante desemprego — principalmente na própria Grã-Bretanha, onde cerca de 530 mil pessoas acabariam perdendo seu trabalho. Na Alemanha 292 mil; França 142 mil; Itália 140 mil; Polônia 123 mil; Espanha 71 mil; Irlanda 51; República Checa 47 mil; Romênia 44 mil; Portugal 30 mil. No total, segundo o citado estudo, a União Europeia se confrontaria com mais de 1 milhão de pessoas desempregadas em virtude das decisões britânicas. Para os países menores e mais fracos da União Europeia, como Grécia, Malta, Romênia, Bulgária e os países bálticos, este desenvolvimento, com cifras bem menores, mesmo assim, representaria um problema de maior relevância.

A Grã-Bretanha, apesar de reiteradas admoestações, ainda não indicou um candidato a comissário em Bruxeles. Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia, vê-se em apuros para formar seus quadros.

Para muitos, a falta de um comissário britânico parece ser assunto de menor importância. Por que, afinal, um comissário britânico em Bruxelas se o desligamento da Grã-Bretanha da União Europeia realmente ocorrer em janeiro de 2020? É a pergunta simples que muitos fazem. A resposta, no entanto, é mais complicada.

A Comissão Europeia tem razões para insistir em que o governo britânico indique um candidato para a equipe executiva de comissários de Ursula von der Leyen. Boris Johnson, no entanto, nega-se a fazê-lo. Em consequência a Comissão Europeia moveu uma ação judicial contra a Grã-Bretanha por violação do Acordo de Lisboa, documento que rege as normas da União Europeia.

Boris Johnson, político inteligente, sempre dois passos à frente de seus adversários, é suficientemente conhecido em Bruxelas. Daí a precaução e a insistência da União Europeia na nomeação de um comissário britânico a fim de evitar futuros transtornos.

O Acordo de Lisboa estabelece que as decisões deverão ser tomadas de forma unânime por todos os comissários. Decisões tomadas sem a presença de um comissário poderiam ser declaradas nulas na eventualidade em que a Grã-Bretanha resolvesse não se desligar da União Europeia em fins de janeiro de 2020.

Por outro lado, no caso da separação da Grã-Bretanha da União Europeia em janeiro de 2020, um comissário britânico nomeado apenas para poucas semanas teria os mesmos direitos de polpuda aposentadoria como outros que permanecem por um período completo de cinco anos ou mais. Um paradoxo que muitos europeus, com justa razão, criticam.

Entrelaçamento e separação

Fator que dificulta a separação é o intrínseco entrelaçamento que indubitavelmente existe entre os países da União Europeia. Destrinçá-lo é um nó górdio de abissais emaranhados. Poucos especialistas estão a par da profundidade desta complexa temática. A população da União Europeia é de 500 milhões de habitantes; em comparação, a Grã-Bretanha tem 66,5 milhões; além disso, o PIB da Grã-Bretanha representa apenas 2,25% do PIB total da União Europeia (fonte: Statista), uma grandeza de menosprezo que a União Europeia facilmente digere. Onde é, portanto, que reside o problema? Resposta: no entrelaçamento dos países da União Europeia em todas as áreas — incluindo aspectos relevantes, como a segurança continental, defesa e pesquisa científica.

A União Europeia tem dado demasiada atenção às latentes manias de grandeza do Grande Império Britânico, historicamente morto, mas concretamente incrustado na cabeça da maioria dos britânicos. Um erro fatal — considerando que um problema bem maior do que o Brexit vem do sudoeste europeu, dos Erdogans e comparsas que ameaçam abrir as comportas para milhões de migrantes e refugiados que procuram as benesses do estado social europeu. E quem é que garante que algum dia não o farão?

Em verdade, para muitos observadores, este divórcio está se tornando incompreensível. Mesmo aqueles que acompanharam o Brexit desde o plebiscito em junho de 2016 dizem ter dificuldades em acompanhar e muito menos compreender a balbúrdia britânica que, com o governo de Boris Johnson, por mais dramático que seja, também assumiu pinceladas humorísticas.

Nas redes sociais encontram-se interpretações curiosas a respeito do assunto. Encontrei uma que explica a dificuldade do diálogo entre a Grã-Bretanha e a União Europeia. O cidadão que a postou, Hans Gerd, que não me parece ser o autor, enquadrou-a no ramo das parábolas. E como toda a parábola tem um cunho de verdadeiro, traduzi-a para o Jornal Opção. Ei-la:

“GB = Grã-Bretanha; UE=União Europeia

GB: Queremos um unicórnio!

UE: Unicórnios não existem; vocês podem obter um pônei (cavalo pequeno).

GB: Queremos um unicórnio!

UE: Já falamos sobre isso: um pônei ou nada!

GB: Não queremos o pônei!

UE: Em ordem! Então nada!

GB: Não queremos o nada!

UE: Vocês não entendem isso! Ou?

GB: Precisamos de mais tempo para pensar sobre tudo isso!

UE: Sobre o pônei ou sobre o nada?

GB: Queremos um unicórnio!”

Considerando que o último acordo elaborado por Boris Johnson (não aceito pelo Parlamento) é muito semelhante ao acordo elaborado por Teresa May (refutado três vezes), o diálogo acima sobre o unicórnio pode ser visto como espelho dos reais acontecimentos.

O artista plástico Banks

Outro autor que mostra as dificuldades dentro do Parlamento Britânico é um indivíduo totalmente desconhecido, mas muito afamado no campo da arte. Trata-se de um pintor cujo nome verdadeiro não é conhecido e faz questão de conservar-se no anonimato. No campo da arte é afamado por seu pseudônimo — Banksy —, que, supõe-se, tenha nascido em Bristol em 1974. Suas obras encontram-se nos mais afamados museus do mundo. Seu gênero de pintura é a Street Art.

Em 6 de outubro de 2018 uma obra de Banksy, a “Menina com o Balão”, foi posta a leilão na Sotheby’s em Londres. No momento em que o leiloeiro encerrou o lance de um interessado por 1 milhão de libras a obra autodestruiu-se mediante um mecanismo eletrônico que Banksy instalara na moldura. (A obra destruída encontra-se hoje na Galeria de Arte de Stuttgart). Banksy permanece no anonimato.

Banksy, pintor fantasma, parece ter reais faculdades videnciais. É o que facilmente se deduz de uma de suas obras, uma tela com apreciáveis dimensões de 2,5 m x 4,2 m, produzida entre 2006 e 2008 e exposta pela primeira vez em 2009 em Bristol. A obra com o título “Devolved Parliament” mostra o interior do Parlamento Britânico só que em vez de estar ocupado com os membros do Parlamento, vê-se a enorme sala repleta de chimpanzés.

Bansky vendeu a obra em 2011. Só agora, em outubro de 2019, a obra foi leiloada na Sotheby’s por 11 milhões de euros (cerca de de 51 milhões de reais). Por meio de seu agente, Banksy manifestou-se: “Lamento não mais ser dono da obra”.

No auge dos debates sobre o Brexit, a foto da obra de Banksy foi amplamente divulgada. Fica a pergunta: por quais razões Banksy viu o Parlamento Britânico já em 2006 desta forma? Dez anos antes do início Brexit?

Pintura de Bansky

Nesta altura, faltando poucos dias para as eleições de 12 de dezembro vindouro, discute-se sobre o que é que poderá acontecer após a eleição. Quais são as possibilidades para Boris Johnson (ou outro em lugar deste) para sair desta situação tremendamente complicada? Após intensa ocupação com a temática, leitura de informes, análises de dados, sempre ocupado em entender a problemática do ponto de vista britânico, concluo que há cinco possibilidades que se apresentam para os futuros acontecimentos:

1 — Saída da Grã-Bretanha da UE em 31 de janeiro de 2020 baseado no acordo elaborado.

2 — Renegociação do acordo.

3 — Novo referendo.

4 — Cancelamento do Brexit.

5 — Saída da Grã-Bretanha sem acordo em 31 de janeiro de 2020.

Pior será, o que muitos temem, se o Brexit continuar a se prolongar durante mais tempo — sem fim e sem resultado conhecido. Seria esta a sexta possibilidade — a que ninguém quer.

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