Edgar Welzel
Edgar Welzel

Brexit é a pesada herança de Thereza May para a Inglaterra

Bruxelas sobre a atuação da comissão britânica encarregada da gestão de separação: “A dificuldade é que os britânicos sempre nos dizem o que não querem mas nunca nos disseram o que querem”

De Stuttgart, Alemanha — A separação da Grã-Bretanha da União Europeia, o Brexit, foi e continua sendo o assunto mais controverso discutido na Europa desde o plebiscito realizado no Reino Unido em junho de 2017.

É obra de políticos britânicos anti-europeus e saudosistas inveterados que, em suas fantasias e devaneios, sonham em restaurar o Grande Império Britânico — cuja desintegração começou com a Declaração da Independência dos Estados Unidos em 1776 e culminou com o fim do colonialismo. O trauma de muitos britânicos é o de ainda continuarem a sentir-se membros daquele grande império cuja existência encontra-se hoje apenas nos livros de história (como “Império — Como os Britânicos Fizeram o Mundo Moderno”, do historiador Niall Ferguson).

David Cameron, quando primeiro-ministro britânico (2010-2016), enfastiado com as intermináveis discussões e convencido de resultados favoráveis, propôs acabar com o assunto via plebiscito. Um erro fatal. Chegou a hora de os populistas e oportunistas em cuja frente salientaram-se homens como o sempre extrovertido Boris Johnson, ex-prefeito de Londres, e Nigel Farage, este desde 1999 deputado no Parlamento Europeu pelo partido United Kingdom Independence Party (UKIP) — apoiados por outros demagogos, separatistas e nacionalistas, sem exceção inflexíveis opositores à causa europeia. Com falsos argumentos ludibriaram infame e indecorosamente o povo britânico. Cômputo geral: 52% a favor e 48% contra a separação.

David Cameron perdeu o cargo em virtude de uma derrota por ele mesmo provocada e deixou a Grã-Bretanha envolta em sua maior turbulência política após a Segunda Guerra Mundia. O fim ainda não é previsível. Os líderes do movimento brexista, os brexiteers em inglês, tinham apenas um plano A — que visava única e cegamente a separação da Grã-Bretanha da União Europeia. Faltou-lhes, no entanto, um plano B para o difícil arreglo prático da separação no caso de uma vitória nas urnas do plebiscito.

Enquanto isso já passam dois anos de árduas gestões com Bruxelas, em cujos corredores ouviu-se repetidamente um comentário que resume a atuação da comissão britânica encarregada das gestões de separação: “A dificuldade é que os britânicos sempre nos dizem o que não querem mas nunca nos disseram o que querem”. Esta situação permanece até hoje quando faltam apenas quatro semanas para o desfecho final, em 29 de março, conforme o  Tratado de Lisboa.

Nessa altura o nervosismo no Parlamento Britânico, que não encontra consenso, é claramente visível. Se nada de inesperado acontecer durante os poucos dias que restam, não haverá acordo com Bruxelas e a Grã-Bretanha confrontar-se-á com um Brexit descontrolado — o que não pode ser de seu interesse nem mesmo de interesse da UE. Um Brexit sem acordo não terá vencedor; haverá, isto sim, perdedores de ambos os lados.

A separação da Grã-Bretanha, segunda economia da europeia, membro da OTAN com poderio nuclear, representaria uma perda substancial também para a UE. A transferência da Grã-Bretanha aos cofres de Bruxelas atualmente é de 172 milhões de euros semanais — o que corresponde a uma contribuição anual de quase 9 bilhões de euros, um passivo exigível que não poderá ser debitado de forma paritária aos restantes 27 países da UE. Países menores não estariam em condições de suportar um ônus adicional (grande parte destas transferências voltam à Grã-Bretanha em forma de empréstimos ou suporte para múltiplos projetos).

Processo lunático de separação

Neste processo visionário lunático de separação destacam-se dois detalhes que chamam atenção. Primeiro, a incapacidade do Parlamento Britânico em encontrar um consenso para resolver a questão com o menor prejuízo possível. Os debates caóticos televisionados, inclusive pela BBC, não deixam dúvidas quanto ao caos existente. Outros órgãos da mídia britânica também não deixam de comentar.

Segundo, a atuação inesperadamente surpreendente de Theresa May, primeira-ministra do governo britânico que, na época do plebiscito, ocupava o cargo de ministra do Interior. Durante a campanha plebiscitária, Theresa May, decididamente contra o Brexit,  nunca se envolveu nos debates. Nos poucos comentários que deu, jamais afastou-se de seu posicionamento.

Conhecidos os resultados do plebiscito, Theresa May respeitou-os sem comentários ardilosos mas com uma observação que não deixou margem a dúvids: “Brexit é Brexit”. A expressão tornou-se seu axioma irrefutável e delineou toda sua desenvoltura política posterior. Ao assumir o governo, Theresa May confrontou-se com a pesada herança do Brexit, uma megamontanha de entulhos, enfim, um trabalho de terraplenagem digno de Hércules. No Reino Unido muitos receavam que Theresa May não teria condições para dar conta de tão extraordinária e complexa missão.

Fato é que Theresa May, entre todos os chefes de governo do mundo ocidental, talvez lute com o problema interno mais complicado para resolver. E isso diante de um Parlamento que lhe é ostensivamente hostil. Enganaram-se aqueles que não lhe davam crédito. Em maio de 2017 Theresa May adiantou aos líderes em Bruxelas que seria “uma mulher cruelmente difícil” (a bloody difficult woman), o que realmente demonstrou, em várias ocasiões, durante os dois anos de gestões em Bruxelas das quais resultaram duas propostas para o acordo de separação, ambos rechaçados desastrosamente por grande maioria do Parlamento.

Nunca, no pós-guerra, um chefe de governo da Grã-Bretanha sofreu tão calamitoso debacle. A mídia inexorável apostrofava o fim da primeira-ministra: “Pior debacle de todos os tempos” (“Metro”), “Maior derrota governamental da História” (“The Sun”), “Sem acordo, sem esperança, sem a menor ideia, sem confiança” (“Daily Mirror”), “Completa humilhação” (“The Daily Telegraph”) são alguns exemplos que ilustram a reação da mídia. Nessa altura parecia que Theresa May fracassara em seu intento de evitar o despencar da Grã-Bretanha num precipício e que seus dias como primeira-ministra estavam contados.

Theresa May, no entanto, não desanimou. Enérgica, incansável, inquebrantável, a primeira-ministra continuou e continua sua luta para encontrar um acordo que sirva a ambas as partes, uma luta na qual outros em seu lugar já teriam desistido por simples falta de energia. Até seus adversários mais ferrenhos admiram e respeitam seu fôlego de extraordinária resistência.

Margaret Thatcher, primeira-ministra do governo britânico de 1979 a 1990, entrou na história com o atributo “The Iron Lady”, a Dama de Ferro, por sua intransigência, austeridade de caráter, severidade e rigidez com quaisquer outros interlocutores. Qual seria o atributo, para Theresa May, que poderia superar o “Iron Lady” de Thatcher? A mídia britânica, além de implacável, é   altamente criativa. Um exemplo deu Tom Peck que escreve para o “Independent” referindo-se a Theresa May: “Ela é uma barata num inverno nuclear, ela personifica dever e obrigação, ela é patriota e é uma serva de nossa pátria. Ela é indestrutível” (“She is indestructible”).

Eis aí um atributo que outros órgãos da mídia britânica acataram e tudo indica que Theresa May entrará na História como a “Indestrutível”, atributo que supera o “Dama de Ferro” de sua antecessora. Independentemente do resultado das gestões com Bruxelas, o atributo lhe compete, pois o maior problema de Theresa May é o fato de que o Parlamento Britânico realmente não sabe o que quer e nenhum de seus mais ferrenhos adversários anseia estar em seu lugar. Theresa May sabe disso e talvez resida aí a fonte de sua admirável e inesgotável energia.

No contexto europeu muitos temas como política exterior da UE, defesa interna, defesa dos limites externos da UE, relacionamento com a OTAN, política econômica e energética, finanças, imigração e refugiados e outros mais, só  poderão ser resolvidos em conjunto em nível europeu e alguns só em nível mundial. A Grã-Bretanha resolveu andar sozinha. No mundo globalizado, um erro incompreensível e de graves consequências.

O nervosismo no núcleo do governo britânico é enorme e as decisões e consequentes notícias mudam a cada hora. Nesta altura ninguém sabe como terminará esta guerra interna britânica. Tudo é possível. Inclusive um segundo plebiscito — permitido tanto pelo Parlamento Britânico quanto pela Comissão da Justiça da UE. Segundo pesquisas, os resultados seriam favoráveis à permanência da Grã-Bretanha como membro da UE. O assunto seria arquivado e muitos, além e aquém do Canal da Mancha, respirariam aliviados.

Quais seriam as consequências de um Brexit sem acordo? As conjeturas publicadas a respeito desta questão já formam uma biblioteca.

Abordaremos na próxima coluna alguns detalhes problemáticos, que afetariam tanto a  Grã-Bretanha quanto a EU — bem como um assunto crucial, de suma importância, do qual a UE não cederá um passo: a questão da Irlanda do Norte.

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