Edgar Welzel
Edgar Welzel

Alemã Ursula von der Leyen é eleita para o mais alto cargo da União Europeia

“A partir do momento em que assumirmos nossos trabalhos, não mais seremos poloneses, finlandeses, húngaros, alemães, portugueses ou italianos. Seremos todos europeus”

De Stuttgart, Alemanha — O mais alto cargo no organograma da União Europeia é o da presidência da Comissão Europeia.  Numa eleição surpreendente, que a muitos não convenceu, a alemã Ursula von der Leyen, inesperadamente, foi eleita para o mais importante, cargo político desta organização.

Mas quem é Ursula von der Leyen e como chegou ao posto máximo desta organização política e econômica sem sequer ter sido candidata? É a pergunta que formulamos em matéria passada, publicada neste jornal em 10.09.2019, que passaremos a responder.

A União Europeia passou por uma situação eleitoral-política nunca antes vivenciada desde  sua fundação em meados do século passado! Um processo de notável artimanha atrás dos bastidores que lembra   o teatro de fantoches no qual os pimpolhos não sabem quem é o articulador do boneco, esbanjam alegria e acreditam piamente no que lhes está sendo encenado.

No caso em questão os articuladores são conhecidos, mas nunca saberemos com certeza  quais os interesses, obviamente recíprocos, que objetivaram tal maquinação.  Há, evidentemente, conjeturas  e algumas bem poderiam refletir a realidade. Para muitos, fora da Europa, Ursula von der Leyen era personagem pouco conhecida. Falaremos, portanto, sobre  a nova presidente da Comissão Europeia. Afinal, é um direito do leitor em saber quem é a pessoa que lidera os destinos da maior união de países e uma das três grandes potências políticas e econômicas do mundo.

Ursula von der Leyen: poderosa chefe da União Europeia

Nascida em 1958 em Elsene, distrito de Bruxelas, na Bélgica, quando o pai, Ernst Albrecht (1930-2014),  lá cumpria altas funções  de 1954 a 71 nos primórdios da organização que é hoje a União Europeia. Posteriormente o pai foi ministro-presidente (governador) da Baixa-Saxônia, estado nórdico da Alemanha . A filha Ursula passou a juventude, até a idade de 21 anos, em Bruxelas onde logo aprendeu duas línguas estrangeiras, o francês e o inglês, que domina impecavelmente ao lado de sua língua materna, o alemão.

Em 1976 Ursula, agora já na Alemanha, iniciou seus estudos superiores em Arqueologia que abandonou para inscrever-se em Ciências Econômicas nas universidades de Göttingen e Münster. Em 1978 passou um ano na London School of Economics and Political Science (LSE). Em 1980 matriculou-se na Faculdade de Medicina de Hannover que terminou em 1987. Em seguida trabalhou como médica assistente na Clínica Universitária de Hannover.

Ursula von der Leyen é casada com Heiko von der Leyen, catedrático em Medicina, do qual tem a partícula “von” em seu nome, usual em famílias da nobreza alemã. De 1992 a 1996 a família dos von der Leyen viveu na Califórnia onde o professor Heiko von der Leyen assumira importante função de pesquisa  na área da terapia genética cardiovascular na Stanford University.

Em 1990, antes de ir à Califórnia, Ursula von der Leyen já se filiara ao partido CDU (União Democrática Cristã), provavelmente influenciada pelo pai, governador eleito pelo mesmo partido. De regresso à Alemanha, Ursula participou ativamente em vários grêmios partidários municipais. Não tardou começou a atuar na esfera estadual. Em 2003 foi eleita deputada na Assembleia Estadual de Hannover, Baixa-Saxônia, onde foi nomeada ministra (secretária) para assuntos Sociais, Família e Saúde. Em 2004 foi eleita membro da diretoria da CDU à nível federal, desde 2010 como suplente, que ficou sendo, ininterruptamente, até hoje.

Neste entretempo enquanto o marido Heiko continuava a labutar em suas pesquisas científicas, Ursula arquitetava sua carreira política, já que a Arqueologia, a Economia e a Medicina, aparentemente, não eram o campo ideal e definitivo de seu futuro. Paralelamente Ursula tornara-se mãe de sete filhos o que não lhe foi empecilho para candidatar-se para as eleições para o Parlamento Alemão de 2009, 2013 e 2017. Perdeu nas três eleições contra uma candidata do Partido Social Democrático. Mesmo assim, graças a uma particularidade do sistema eleitoral alemão, Ursula conseguiu, por três vezes, tornar-se deputada no Parlamento Alemão, cujo mandato abdicou, após sua eleição para a presidência da Comissão Europeia.

No primeiro governo da chanceler Angela Merkel de 2005 a 2009 Ursula von der Leyen foi nomeada ministra para assuntos de Família, Idosos e Juventude; no segundo de 2009 a 2013 Ursula inicialmente continuou ocupando a mesma pasta, para assumir, na metade do período, o ministério do Trabalho. Em fins de 2013, no terceiro governo de Ângela Merkel, Ursula von der Leyen foi nomeada ministra da Defesa, a primeira mulher a ocupar tão importante cargo, num ministério que, na Alemanha, é considerado “cadeira de fogo”. Em nenhum ministério houve tantas trocas de ministros como no ministério da Defesa.

Ao ser nomeada para o cargo Ursula von der Leyen foi alvo de severas críticas por falta de experiência e desconhecimento militar. Contestou as críticas com um argumento conciso de mãe, simples, hilariante: “Uma mulher que soube administrar uma família com sete filhos, possui capacidades para comandar um exército”! E von der Leyen foi empossada.

Uma análise da carreira política de Ursula von der Leyen, iniciando com as secretarias que encabeçou a nível estadual e passando para os ministérios de âmbito federal revela que, em funções executivas, nem sempre colheu os louros da vitória. Foi incansável e ávida em lançar ideias e projetos que gostaria de ver transformadas em leis mas que, após acirrados debates, acabaram sendo engavetados. Seria demasiadamente longo narrar tais detalhes, que se estendem por quase duas décadas de sua vida política. Concentremo-nos em sua última função, a do ministério da Defesa onde não só “herdou” problemas de seus antecessores como criou outros que engordaram a lista dos não resolvidos e que também irão dificultar o trabalho de sua sucessora no cargo.

No início de sua gestão à frente do ministério de Defesa confrontou-se com uma ocorrência cujos resultados da investigação militar foram mais prejudiciais à ministra do que a ocorrência em si: descobriu-se uma ovelha negra na tropa. Entre vários casos destacou-se o de um jovem oficial que –  conhecido pelo nome de Franco A. – chamou atenção por seus comentários de conteúdo radical direitista. Em seu apartamento foram encontrados objetos de culto nazista. Em discurso a ministra declarou que o exército “tem um problema de comportamento” e ordenou investigações em todas as casernas à procura de casos semelhantes. O afirmado em seu discurso foi visto pela tropa como acusação coletiva; a investigação, como suspeita coletiva. A maneira como foi tratatada a ocorrência foi motivo para que a ministra nunca encontrasse um vínculo com os seus comandados o que grudou-se-lhe como estigma que a acompanhou durante cinco anos à frente do ministério da Defesa.

Confrontada com constantes críticas sobre materiais obsoletos, frota de helicópteros com deficiências técnicas, fregatas ancoradas também por problemas técnicos, drones que não alçavam voo, aeronaves de uso do governo com frequentes panes, tanques mais em oficinas do que em exercícios e por aí vai. Diante destes fatos, a ministra tomou uma decisão de graves consequências: nomeou uma conselheira, Katrin Suder, em alto posto hierárquico dentro do ministério de Defesa, semelhante a de um secretário de Estado,, responsável pela aquisição de materiais. Por razões óbvias, a reação da mídia não tardou.

Katrin Suder, até então, ocupava cargo executivo na consultoria McKinsey de Berlim, filial da consultoria americana com o mesmo nome. Críticos viam esta decisão como imprópria, por motivos também óbvios. Fato é que, em pouco tempo, muitas decisões dentro do ministério tinham que passar pelo crivo de consultores da McKinsey e de outras consultorias com a consequência de que um exército de pessoas estranhas começou a ter acesso a repartições dentro do  ministério da Defesa, inclusive em repartições sensíveis, normalmente acessíveis só a uma elite qualificada das próprias Forças Armadas. Foi esta, apenas uma parte da problemática; a outra foi a da prestação de contas.

O Tribunal de Contas da União criticou o ministério da Defesa por gastos exagerados com consultorias  que guarda em segredo. No entanto, vazou a informação de que só no primeiro semestre de 2018 o ministério da Defesa firmou contratos com diversas consultorias no valor de 165 milhões de euros. Não foi por menos nos anos anteriores. O ministério da Defesa da Alemanha, encabeçado por Ursula von der Leyen, tornou-se, para empresas de consultoria, uma galinha de ovos de ouro. Com justa razão a mídia indagou: Afinal, não há gente competente para tratar e resolver estas questões dentro do ministério da Defesa? No Exército, nas Forças Armadas?

Escândalo é um vocábulo que a mídia alemã usa com elevada frequência muitas vezes em situações impróprias ou exageradas.  O caso do Gorch Fock é realmente um escândalo de abissal proporções financeiras. Trata-se de um veleiro de três mastros usado pela marinha da Alemanha para o treinamento de cadetes, lançado ao mar em 1958. Passados 60 anos, foi necessário submetê-lo a uma reforma geral.  A oferta do estaleiro encarregado orçou os trabalhos em 10 milhões de euros.

Os consertos ainda estão em andamento e os custos já se elevaram a 135 milhões de euros. O casco do veleiro todavia se encontra alçado numa armação fora da água e estima-se que outro tanto acabará sendo devorado. Comparado aos 10 milhões de euros da oferta inicial, é realmente um escândalo de arromba. Diante do alarde da mídia a ministra reagiu com uma medida por ela já tomada em demasia inúmeras vezes antes: autorizou a empresa Marine Service, de Hamburgo, uma das líderes mundiais em consultoria marítima, para investigar os motivos da enorme extrapolação de custos e coordenar os trabalhos das reformas junto ao estaleiro encarregado. A previsão de custos para esta investigação até o fim de 2019 é de 300 milhões de euros. Nesta altura a mídia pergunta: “Por que a marinha necessita de um veleiro, uma embarcação que lembra a Idade Média?” Enquanto isso a consultora Katrin Suder já deixou o polpudo cargo no ministério e, segundo o semanário “Spiegel” o estaleiro estaria em precária situação financeira.

O Gorch Fock é um saco sem fundo e continuará sendo por indeterminado tempo. Curioso é que houve uma oferta séria de outro estaleiro para construir uma embarcação completamente nova por um custo de 100 milhões de euros o que foi refutado pelo ministério da Defesa. Além desses episódios, há  outros  que deixaremos de detalhar para nos dedicar mais a personagem principal desta matéria.

Ursula von der Leyen passou cinco anos, aos trancos e barrancos, na chefia do ministério da Defesa onde foi alvo de constante  fogo da mídia. No entanto, a ministra soube lidar e viver com os ventos contrários que se lhe sopravam. Mesmo em momentos tensos, nunca perdeu o sorriso enigmático que herdara do pai. Sua carreira, nos últimos quinze anos como ministra de várias pastas em Berlim, baseou-se em vários fatores: extremamente ambiciosa, eloquente com domínio da fraseomania que emprega quando necessário, forte queda para a autopromoção, (segundo  rumores em Berlim a ministra sentia atração magnética por microfones), e não por último sua estreita amizade com sua amiga, a chanceler Ângela Merkel.

Seu apetite por ambição parecia insaciável e ela própria via-se  capacitada para tarefas sempre mais abrangentes. Fato é que Ursula von der Leyen, por vários anos, era vista como sucessora da chanceler Ângela Merkel. E havia claros indícios de que a chanceler estava-lhe terraplanando o caminho neste sentido.  No entanto, em 2010 houve troca de presidentes na Alemanha e Ursula von der Leyen  (na época ainda não ministra da Defesa) ansiava ardentemente ser nomeada candidata ao cargo de presidente  a ser eleito pelo Parlamento Alemão. Ângela Merkel, não se sabe porquê, decidiu indicar outro candidato, Christian Wulff, que de fato foi eleito. Na época Ursula von der Leyen dasabafou: “Senti-me emocionalmente como trancafiada numa máquina de lavar roupa”!

No prato de sua ambição ainda havia outras guloseimas. Não é nenhum segredo que Ursula von der Leyen simpatizava com o interessante cargo de secretário geral da OTAN, desde outubro de 2014 ocupado pelo norueguês Jens Stoltenberg. Verdade é que Ursula von der Leyen gozava de reconhecido prestígio naqueles círculos. É conhecido também que von der Leyen alimentava interesse em ocupar a cadeira do secretário geral das Nações Unidas em continuação ao período de Ban Ki-moon findo em 2016 quando o cargo foi ocupado por António Guterres de Portugal. Também não é segredo que Ursula von der Leyen estava de olho em Bruxelas  num cargo de comissária e mesmo o da presidência da Comissão Europeia que agora, milagrosamente, conseguiu galgar.

Na Alemanha Ursula von der Leyen foi política extremamente controversa e constantemente na mira de ataques da mídia. No entanto, à nível europeu, sua eleição para o cargo de presidente da Comissão Europeia é vista de bom grado. “Ela é uma pessoa que poderá unir a Europa do Leste ao Oeste e do Norte ao Sul”, declara o ex-general da Otan Hans-Lothar Domröse.

Como ministra da Defesa da Alemanha von der Leyen fomentou a cooperação do exército alemão com o exército da República Tcheca, da Polônia e dos países do Báltico e a parceria militar com a França. Mostrou compreensão para os anseios de segurança dos países do Leste europeu e apoiou em, especial, os países menores da União. Foram  estas as razões que levaram os chefes de governo de 27 países da União Europeia a apoiar sua indicação para a sucessão de Jean-Claude Juncker à presidência da Comissão Europeia.

Ao ser nomeada para a sucessão de Jean-Claude Juncker, Ursula von der Leyen lançou-se numa campanha impressionante que durou três semanas para conseguir  uma maioria no Parlamento Europeu para sua eleição para o cargo máximo da União Europeia. Procurou o apoio dos presidentes e das fracções de todos os partidos. Com seu último discurso da campanha proferido no Parlamento Europeu, conseguiu convencer a maioria dos deputados presentes. Começou seu discurso em francês, continuou em alemão e terminou-o em inglês. Contados os votos Ursula von der Leyen venceu com uma simbólica margem de nove votos e com isso é a sucessora de Jean-Claude Juncker na presidência da Comissão Europeia.

Grande apoio von der Leyen recebeu das bancadas dos países bálticos, dos do Benelux , da Itália e curiosamente dos países do grupo Visegrado (Polônia, Rep. Tcheca, Eslováquia e Hungria) que não nutriam muita simpatia para o partido  (CDU) da nova presidente.

O fato de ter sido nomeada von der Leyen deve ao presidente da França Emmanuel Macron que alardeou: “Ela tem o DNA da União Europeia e é froncófona perfeita”.  A chanceler Ângela Merkel sentiu-se aliviada com a sugestão de Emmanuel Macron. Acatou-a de bom grado. Num passe de mágica sua amiga Ursula von der Leyen saiu da linha de fogo (com potencial de recrudescimento), foi catapultada para o cargo mais importante da União Europeia deixando para trás todos as embrulhadas com os quais se confrontara enquanto no ministério da Defesa.

Como presidente da Comissão Europeia,  função de soberba responsabilidade, Ursula von der Leyen é a primeira mulher a ocupar tal cargo desde a criação da União Europeia (que, neste entretempo, passou por várias denominações) com o Tratado de Roma de 1957, assinado doze anos após o fim da 2ª Guerra Mundial, época na qual boa parte da Europa ainda se encontrava em um mar de escombros e Ursula von der Leyen nem sequer tinha nascido.

É a segunda personalidade política da Alemanha a ocupar a presidência da Comissão Europeia desde a sua fundação; a primeira foi Walter Hallstein, que foi o primeiro presidente da Comissão Europeia de 1958 a 67. Luxemburgo teve 3 presidentes; França 2; Itália 2; Bélgica 1; Holanda 1; Portugal 1; Reino Unido 1 e Espanha 1.

Ursula von der Leyen assume o cargo em tempos, sob vários aspectos, extremamente difíceis. Na Europa ver-se-á confrontada com o Brexit, o rápido crescimento da direita populista em vários países europeus, o problema migratório que tende a agravar;  a complicada distribuição dos refugiados que chegam à Europa e a recusa de alguns países em aceitar contingentes;  a questão climática, a poluição marítima, a guerra comercial desencadeada pelo presidente Donald Trump e o consequente difícil relacionamento da Alemanha e da Europa com os Estados Unidos, tão frio como nunca desde a Segunda Guerra Mundial.

Como se isso não bastasse, somam-se os preocupantes desenvolvimentos nos países ao sul do Mediterrâneo: a ingovernável Líbia, a débil situação na Argélia, Marroco e Mauritânia; o interminável conflito na Síria, as ambições do presidente Recep Tayyip Erdogan em transformar a Turquia em grande potência, a questão do Irã provocada pelo presidente Donald Trump ao cancelar um acordo elaborado e assinado por profissionais de seu próprio país, o problema palestino e outros do Oriente Próximo; a guerra no Iemen e os conflitos na zona saariana, em especial no Sudão, no Mali, no Niger, Chade, Nigéria, Somália; enfim o Afeganistão, o leste ucraniano e não por fim a situação em Hong-Kong são palcos de conflito que reverberam na Europa. Muitos destes focos de conflito encontram-se às portas da Europa e alguns só poderão ser resolvidos em nível global e a Europa não se esquivará em  dar a sua contribuição.

Para enfrentar os difíceis problemas europeus e globais do futuro Ursula von der Leyen terá que ter uma boa equipe de colaboradores que a ajudará nestes próximos cinco anos. Há poucos dias apresentou-a. Tudo indica que que a nova presidente, que assumirá em 1° de novembro próximo, foi feliz na escolha internacional de candidatos. Quem são os homens e as mulheres mais importantes que dirigirão os destinos da União Europeia no próximo quinquênio? Trataremos de apresentá-los numa terceira edição desta “Eleição à europeia”.

Ao apresentar oficialmente a equipe de colaboradores em Bruxelas, Ursula von der Leyen, em breve discurso, impressionou com uma frase simples mas de impressionante impacto: “A partir do momento em que assumirmos nossos trabalhos, não mais seremos poloneses, finlandeses, húngaros, alemães, portugueses ou italianos. Seremos todos europeus”. Parece que a nova presidente realmente tem o DNA da União Europeia.

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