Sem medo de ser feliz? O PT mudou, agora teme a volta do passado em que foi oposição

Os governistas pretendem ampliar o confronto direto com os tucanos nas peças da campanha de Dilma, como acontece na CPI da Petrobrás

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Marqueteiro João Santana: medo como mote, como fez no Panamá | Foto: Blog do Laerte

A. C. Scartezini

Quem não se lembra do slogan que embalava aquela cantiga do Lula Lá? Era o mote das campanhas presidenciais de Lula desde a primeira em 1989. Ao final de três derrotas, ele se elegeu presidente no embalo do som de sempre. “A esperança venceu o medo”, vibrou Lula na noite em que se sagrou vencedor do segundo turno contra o tucano José Serra há 12 anos.

Em entrevista para comemorar a vitória, Lula afirmou que o país estava mudando e então destacou o arremate:

— O mais importante, a esperança venceu o medo e hoje eu posso dizer para vocês que o Bra­sil mudou sem medo de ser feliz.

Agora, surge a outra face da moeda como reação do PT ao pe­so que sente sobre os ombros ao car­regar a tarefa de reeleger a pre­si­dente Dilma Rousseff. É a campanha Fantasmas do Passado, on­de os petistas repassam aos elei­to­res o medo quanto à eventual per­da do poder, o que poderia significar uma derrota para as conquistas sociais desde o governo Lula.

A campanha, bem feita com filmetes de um minuto de duração, possui um apelo capaz de consolidar a vocação de voto petista junto à humilde clientela do assistencialismo do governo. Porém, ao pregar o temor, o PT renega aquele sem medo de ser feliz que embalava as campanhas. A alegria sai de cena. Entra o temor.

Como todos sabem, a nova postura petista representa o efeito tardio daquela campanha de Serra em 2002, quando o PSDB colocou em cartaz o filmete em que a atriz Regina Duarte interpretava o medo social diante das incertezas que viriam com um governo Lula. Naquela época, a cotação do dólar bateu recorde no mercado. Foi a 4 reais por causa das incertezas.

No meio da semana passada, a repórter Maria Lima observou que a campanha Fantasmas do Passado não apenas replica ao PSDB de 2002. Também reproduz a campanha Futuro Conge­la­do feita há alguma semanas no Panamá pelo mesmo marqueteiro João Santana — conhecido em toda Salvador como Patinhas desde que era apenas jornalista.

A campanha panamenha serviu à candidatura presidencial de José Domingo Arias, vencido então pelo empresário Juan Carlos Varela, da oposição. No filmete de Arias, amigo de Lula, os governistas pregavam o medo quanto ao destino de programas sociais perante a vitória da oposição. Encerrava-se com o apelo de uma moça:

— Varela, não congele os nossos sonhos.

A menção direta ao nome do candidato da oposição, Varela, é um risco de marketing ao qual se recorre apenas numa situação duvidosa quanto à vitória eleitoral. O imaginário social entende o desespero que se passa com uma marca (um candidato ou um produto comercial) quando sua propaganda menciona o concorrente de forma direta.

No entanto, a ideia do PT de Lu­la e Dilma é continuar o confronto com o PSDB nas peças de campanha, o que inclui os discursos da candidata. Como confrontar o país de hoje com a gestão de FHC que se encerrou há 12 anos e desde então o PT tornou-se o responsável pelo poder? Não será algo fácil, mas o marketing petista tentará.

Assim, começam a chegar ao mercado peças com a propaganda do governo que comparam o país de hoje com aquele da virada do século. Como ocorreu no programa de dez minutos do PT na quinta-feira. Nele, Lula e Dilma abordaram programas e políticas so­ciais, inclusive com número sobre o desempenho da economia.

“Não basta crescer no mundo dos economistas”, advertiu Lula como se existissem dois países com duas concepções e desempenhos econômicos diferentes. Um deles seria o Brasil dos economistas, numa referência a FHC desde a criação do Plano Real. O outro país seria o do povão beneficiado pela ação social.

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