A.C. Scartezini
A.C. Scartezini

Sem êxito ao transformar Dilma em vítima, o PT pode levar a corrupção para a campanha

O secretário-geral da Presidência deu o mote e os petistas, em autodefesa, podem confrontar a corrupção no governo, numa operação de alto risco 

Secretário da Presidência, Gilberto Carvalho: admtindo que não só a elite tem motivos para vaiar a petista Dilma

Secretário da Presidência, Gilberto Carvalho: admitindo que não só a elite tem motivos para vaiar a petista Dilma

Como quem não quer nada, o secretário-geral da Presidência, Gilberto Carvalho, passou a lim­po o discurso do ex-presidente Lula em defesa da reeleição da sucessora Dilma Rousseff depois da hostilidade que a candidata sofreu em São Paulo, no estádio Itaquerão. No dia seguinte, em Recife, Lula denunciou que a presidente é vítima da “elite branca”, o que inclui a oposição.

A operação de Lula não funcionou. Menos de uma semana depois, a mais recente pesquisa do Ibope demonstrou, na quinta, que a campanha de ódio à oposição e às elites brancas que Lula desencadeou no pós-Itaquerão prejudicou Dilma mais do que aos seus dois principais desafiantes na corrida presidencial, Aécio Neves (PSDB) e Eduardo Campos (PSB).

Na véspera da divulgação da pesquisa, Carvalho se valeu, na quarta-feira, de um encontro, no Planalto, com companheiros que operam blogs governistas para mandar um recado. Com a autoridade de quem expressa mais o pensamento de Lula, responsável pela sua presença no palácio, do que alguma ideia de Dilma, o secretário fez uma espécie de autocrítica do PT.

Reconheceu Carvalho que o partido sofre rejeição, não apenas nas elites brancas, mas também entre os mais humildes, porque carrega consigo o estigma de corrupção, o que atribuiu a uma carga diária de denúncias vindas pela imprensa. Advertiu então aos companheiros blogueiros para a missão que cabe a eles nas redes sociais:

“Esse cacete diário de que não enfrentamos a corrupção, que somos um bando de aventureiros que veio aqui se locupletar, essa história pegou. Na classe média, na elite da classe média e vai gotejando, vai descendo!”

No dia seguinte saiu a pesquisa do Ibope, cuja tendência Carvalho, naturalmente já conhecia. Assim a fala de Carvalho tinha dois objetivos imediatos. Além de encarregar os blogueiros de neutralizar nas redes as denúncias contra o PT, o secretário pretendeu preparar o público para os números da pesquisa e apontou a responsável: a mídia, a quem desejam controlar socialmente.

Numa espécie de tentativa de passar por quem se expressava por conta própria, Carvalho corrigiu aquela fala de Lula que atribuiu à “elite branca” as vaias e xingamentos a Dilma. Na linguagem descuidada de quem discursa em palanque popular, o secretário passou o ex-presidente a limpo:

“Me permitam, pessoal, no Itaquerão não tinha só elite branca, não. Eu fui pro jogo, não no estádio, fiquei ali pertinho, numa escola, para acompanhar os movimentos. Eu fui e voltei de metrô. Não tinha só elite no metrô. Tinha muito moleque gritando palavrão dentro do metrô que não tinha nada a ver com elite branca.”

Assim, Carvalho comunicou que não foi ao estádio, mas esteve na escola da vizinhança para acompanhar a agitação da massa, que poderia hostilizar a presidente. A referência a viagem de ida e volta no metrô reforça a ideia de que, encarregado no Planalto de articulação com lideranças de movimentos sociais, convive também com massas e capta o sentimento delas.

Além da articulação com movimentos, Carvalho também se entende com Lula. Veja-se. Cinco dias antes, Lula, ao defender Dilma, atribuiu xingamentos a moleques da elite rica. “Eu vi moleques gritarem no campo, e não eram nenhum pobre que estava passando fome, que não tinha escola. Pelo contrário”, afirmou. Mais tarde Carvalho não se referiu a moleque gritando palavrão no metrô?

Enfim, a afinidade entre Carva­lho e Lula permite-se encontrar na fala do secretário aos blogueiros, aparentemente improvisada, uma sugestão para se mudar mais uma vez a ênfase da campanha pela reeleição de Dilma. Seria a colocação em campo da responsabilização da mídia pelas denúncias de corrupção e confrontação de fatos com a era tucana de poder com FHC.

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