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A.C. Scartezini

O vale-tudo do Planalto falsifica a biografia de jornalistas que não agradam ao poder

A assessoria presidencial encontrou uma fórmula para censurar a imprensa enquanto o governo não cria o controle social da mídia que o PT defende

Miriam Leitão e Carlos Alberto Sardenberg: perfis alterados em computador da Presidência da República | Foto: Fotos: Divulgação

Miriam Leitão e Carlos Alberto Sardenberg: perfis alterados em computador da Presidência da República | Foto: Fotos: Divulgação

 

 

“Nós podemos disputar eleição, nós podemos brigar na eleição, nós podemos fazer o diabo quando é a hora da eleição. Agora, quando a gente está no exercício do mandato, nós temos que nos respeitar, porque fomos eleitos pelo voto direto do povo brasileiro”.

Dilma Rousseff, março de 2013

Nos dias 10 e 13 de maio daquele ano de 2013, o computador do Planalto que se identificava como IP 200.181.15.10 entrou na internet e, com informações falsas, modificou os perfis dos jornalistas Míriam Leitão e Carlos Alberto Sardenberg na Wikipédia. Era num momento em que a presidente Dilma já percorria o país em campanha franca e vigorosa pela reeleição.

Os dois jornalistas atuam criticamente na economia junto ao sistema Globo e as mudanças buscaram desmoralizar a análise diária que divulgam. As de Leitão seriam “desastrosas”. Além disso, seria comprometida com corrupção:
— Míriam Leitão fez a mais apaixonada e corajosa defesa de Daniel Dantas, ex-banqueiro condenado por corrupção entre outros crimes co­metidos contra o patrimônio público.

Segundo alteração vinda do palácio, Sardenberg “já cometeu erros no­táveis em suas previsões”. Foi ain­da acusado de defender juros altos no país para favorecer os ban­cos, pois seu irmão Rubens Sar­denberg trabalha na Febraban. “A relação familiar denota um con­flito de interesse em sua posição como colunista econômico”, denunciou uma segunda alteração em seu perfil.

As informações foram divulgadas no fim de semana pelo jornal “Globo” a partir da pesquisa com os dois jornalistas de seu grupo. Mas, evidentemente, se aconteceu com eles, outros meios da mídia e pessoas foram vítimas de mudanças desse tipo, num processo que se pode entender por impaciência do PT com a falta do controle social da mídia.

Se forem pessoas amigas, as alterações podem ser favoráveis. Aconteceu com Marcela, mulher do vice-presidente Michel Temer. O mesmo computador retirou do perfil de Marcela a idade e o registro de que foi candidata, quando solteira, a miss Paulínia, em São Paulo. Nessa onda a favor, assessores do palácio e ministros foram contemplados com loas em suas biografias.

No caso dos dois jornalistas, as alterações coincidiram com dias de nervosismo da presidente por causa da dificuldade em aprovar no Congresso a medida provisória que regulamentava os portos e cujo prazo de validade vencia em 16 de maio. Seis dias antes, Dilma fez um discurso patético ao empossar Afif Domingos como secretário de Micro e Pequenas Empresas.

“Eu quero dizer aos senhores que meu apelo é no sentido de que o Congresso Nacional faça um esforço, no tempo que resta, que é até quinta-feira, para aprovar essa que é uma das medidas estratégicas para esse (sic) país”, discursou de forma confusa. “Não é que não seja possível a divergência, mas o que não podemos ter é o silêncio, é não discutir, é não debater.”

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