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A.C. Scartezini

O novo governo Dilma nasce agora, mas com aparência mais insegura do que o primeiro

A perspectiva para os próximos quatro anos é de uma gestão minada por denúncias de corrupção que a tornam mais incerta do que a dos últimos anos 

Dilma se sente perseguida pelas constantes denúncias de corrupção em seu governo / Reuters

Dilma se sente perseguida pelas constantes denúncias de corrupção em seu governo / Reuters

A presidente Dilma inicia um novo mandato, na quinta-feira, 1º, mas a futura gestão já exibe, no ber­ço, um perfil mais inseguro do que a primeira, que agora se encerra. Entre o primeiro e o segundo go­verno, Dilma sentiu o peso das denúncias sobre a corrupção que a levaram à exótica ideia de consultar o procurador-geral da Re­pública, Rodrigo Janot, sobre os novos ministros.

Há quatro anos, no primeiro discurso de posse, a presidente não se revelava tão abatida como se apresentou aos repórteres no último encontro anual, na segunda-feira. O discurso de posse perante o Congresso, em 2011, foi incisivo quanto a desvios de conduta no governo:
“Serei rígida na defesa do interesse público. Não haverá compromisso com o desvio e o malfeito. A corrupção será combatida permanentemente, e os órgãos de controle e investigação terão todo o meu respaldo para atuarem com firmeza e autonomia.”

A maneira tosca, embora enfatizada, com que Dilma apresentou aos repórteres a ideia de consultar o Ministério Público sobre novos ministros delineia o impulso de um desabafo presidencial, a dez dias da nova posse, de quem se enreda na recomposição da ocupação da Esplanada junto a partidos que querem tudo para cada um:

— Qualquer pessoa que for indicar, vou consultar (Janot). Vou perguntar o seguinte “Há alguma coisa contra fulano que me impeça de nomeá-lo?” Só isso que eu vou perguntar. Não quero saber o resto. Eu só quero saber isso.

Seria cômico se a consulta ocorresse. O questionamento da presidente seria curto e grosso. O Ministério Público investigaria o cidadão indicado antes de dar a resposta? O MP não é subordinado ao Executivo, como ensinou o ex-ministro Joaquim Barbosa. “Ministério Público é órgão de contenção do poder político”, tuitou e continuou a referir-se à relação com o governo:

— Existe para lhe controlar os desvios, investigá-lo. Não para assessorá-lo.
O impulso da presidente, enfim, revela como se sente perseguida por denúncias de corrupção, o que pareceu abatê-la diante dos repórteres e fotógrafos. É clara a falta de paciência com questionamentos éticos que se chocam com o modo de fazer político institucionalizado na Petrobrás — o que tem tudo a ver com a pressão de partidos por posições rendosas no governo.

Em artigo recente, FHC, com a experiência de pai do Plano Real, observou que reordenar a economia num formato racional é mais fácil do que reformar o modo de fazer política vigente num ambiente onde proliferam tantos ministérios disponíveis a tantos partidos políticos que existem hoje. A redução de ministérios poderia desestabilizar um governo.

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