A.C. Scartezini
A.C. Scartezini

O grilo falante não deixa a consciência de Dilma esquecer Lula, que se achega a Zé Dirceu

Com a inspiração lulista de sempre, Gilberto Carvalho retoma a fidelidade ao antigo líder, que tenta atrair o apoio da presidente rumo a 2018

José Dirceu: antes foi o mensalão, agora também suspeito no petrolão |  Fabio Rodrigues Pozzebom/ Agência Brasil

José Dirceu: antes foi o mensalão, agora também suspeito no petrolão | Fabio Rodrigues Pozzebom/ Agência Brasil

Há um mês, o companheiro Gilberto Car­valho deixou o batente no Planalto, onde a presidente Dilma não o quis mais. Mas ele continua a ser o grilo falante que procura acordar a consciência de Dilma com alertas para se lembrar de Lula, que está quieto naquele momento, mas atento ao que se passa. Hoje, a acariciar a nova candidatura presidencial em 2018 com apoio da sucessora.

Mesmo fora do governo, Carva­lho continua a zelar pelos interesses de Lula junto ao poder. Ao longo do ano passado, o companheiro fez contraponto a momentos em que a presidente esteve em evidência. Foi assim na Copa do Mundo, quando Carvalho, ainda secretário-geral do Planalto, corrigiu a ideia da chefe sobre a origem social da hostilidade que ela sofreu nos jogos.

Em janeiro, foram duas intervenções do companheiro, sempre com a cobertura de Lula. Logo no dia dois, Carvalho rompeu a placidez com que Dilma assumiu o segundo mandato sem dar bola aos interesses do ex-presidente. Ao repassar a Se­cre­taria-Geral ao dilmista Miguel Ros­setto, Carvalho, indignado, soltou aquele grito de guerra dirigido a sujeito oculto:
— Nós não somos ladrões! Nós não somos ladrões!

A mira lulocarvalhista era a presidente em pessoa. Ela que não se fizesse de ingrata, não isolasse Lula para não se contaminar com a mancha do petrolão que, com a cumplicidade de Dilma, instalou-se na Petro­brás no antigo governo há dez anos, mas avançou pelo dilmismo. Estão todos no mesmo barco. Dilma que não queira se blindar, como diz hoje o petismo.

A corrupção acaba de voltar à pauta. O segundo passo de afirmação lulista, em janeiro, veio há uma semana. Carvalho se antecipou, na noite de segunda-feira, à reunião de Dilma com o novo ministério no dia seguinte. Em encontro com a militância do PT, na sede do partido, o grilo falante retomou o estigma da corrupção que pesa sobre o poder petista:

— Eles querem nos levar para as barras dos tribunais. O envolvimento do Zé, agora de novo, é tudo na mesma perspectiva.

O grilo Carvalho se referiu ao companheiro Zé Dirceu, que liderou a operação do mensalão e agora retorna ao palco com o petrolão. Quatro dias antes da fala do grilo aos militantes, a Justiça quebrou o sigilo bancário e fiscal da empresa de consultoria de Dirceu depois de apurar que ela re­cebeu pagamentos de em­preiteiras comprometidas com o petrolão.

A menção de Carvalho a Dirceu é simbólica. Significa que Lula procura se reaproximar de seu ex-chefe da Casa Civil no primeiro mandato presidencial. Restabelecer a velha parceria no bojo, agora, de uma parceria atenta aos movimentos de Dilma no governo. A ordem lulista é evitar que a corrupção afaste o PT de novo mandato presidencial, que teria Lula como candidato.

A trama lulista procura reabilitar Dirceu, que estava no ostracismo desde a condenação, como mensaleiro, a quase oito anos de cadeia, agora convertida em prisão domiciliar. Como não passa pela cabeça de Dilma, nem vagamente, uma parceria com Dirceu, Lula seria o único a articular-se com Zé, cujo carisma junto à militância está em repouso, mas ainda deve ser produtivo.

Cabe nisso um aviso à presidente: Dilma que se cuide, pois Lula e Zé Dir­ceu estão de olho. É visível a insatisfação das bases do PT com a guinada conservadora do segundo go­verno da companheira. A militância sindical está nas ruas do país. Há cam­po para Lula e Dirceu semearem.

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