A.C. Scartezini
A.C. Scartezini

No sufoco, Dilma engoliu sapo, vomitou borboleta e revelou o novo jogo de cintura

Num exercício de autocontrole, a presidente domina o impulso de recriminar Joaquim Levy e preserva o ajuste fiscal

Dilma Rousseff: sem poder seguir o caminho mais curto | Foto: José Cruz/Agência Brasil

Dilma Rousseff: sem poder seguir o caminho mais curto | Foto: José Cruz/Agência Brasil

A política é a arte de engolir sapos de manhã e vomitar borboletas à tarde.
Antonio Lomanto Júnior, ex-governador da Bahia

Acuada pela crise que legou a si própria, a presidente Dilma ofereceu uma prova de autocontrole ao comentar, em entrevista, a franqueza com que o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, comentou o confuso processo de decisão da chefe. “Eu tenho clareza que (sic) ele foi mal interpretado”, disse-se compreensiva diante do deslize do ministro.

A presidente mudou, sob pressão da crise. Encolheu a margem de autoritarismo com que costuma repreender a equipe quando discorda de um comportamento. Tornou-se dependente do ajuste fiscal conduzido por Levy. Se Dilma se chocar com o ministro, ficará no prejuízo: alargaria a falta de confiança da elite branca em relação ao governo.

Por seu lado, Levy mostra ter consciência da importância de sua presença no governo com o desafio de domar a economia. Ele próprio ainda não domado pelo aparelho do Estado. Conserva certa autonomia lastreada, ainda, na carreira acadêmica e profissional bem-sucedida também na empresa privada.

Com essa bagagem, há menos de duas semanas o ministro confiou no recato de uma palestra, a portas fechadas e em inglês, para um grupo de ex-alunos da Universidade de Chicago, onde estudou e apresentou aquele comentário sobre o tortuoso processo de decisão de Dilma:

“Acho que há um desejo genuíno da presidente de acertar as coisas. Às vezes, não da maneira mais fácil… Não da maneira mais efetiva, mas há um desejo genuíno.”

Ele poderia se referir, por exemplo, naquela terça-feira, à insistência com que Dilma se empenhou em sair da crise econômica pelo estímulo ao consumo via redução da obrigação de empresas localizadas em relação às taxas públicas. Poderia ser ainda o descuido com a inflação e aquela redução populista na conta de luz.

Cinco dias depois, a fala de Levy vazou na imprensa, no último domingo. Na segunda- feira, Dilma encarou repórteres numa inauguração em Capanema, no interior do Pará. Já era, então, outra Dilma, com­preensiva e mais calma. En­dos­sou a palavra do ministro ao dizer que a fala dele aos paulistas foi “interpretada fora do contexto”.

Até encontrou um elogio, e agradeceu, no discurso de Levy. “Ele falou que nós, e agradeço o elogio dele, fazemos imenso esforço para fazer o ajuste”, registrou Dilma. Certamente tocada por aquela ressalva do ministro ao “desejo genuíno” em acertar, ela explicou aos repórteres a menção de Levy à falta de maneira efetiva, de ação direta:

— Em política, vocês sabem que às vezes não posso seguir caminho curto.

A disposição de Dilma em mudar o comportamento começou a revelar-se, há três semanas, quando em discurso e depois numa entrevista, no Palácio do Planalto, ela se referiu uma dúzia de vezes a humilde ou humildade. Um repórter perguntou, então, por que a fixação no tema, se era uma autocrítica. Eis a resposta:

— Se alguém achar que eu não fui humilde em algum diálogo, me (sic) diz qual e aí tomo providências para mudar.

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