A.C. Scartezini
A.C. Scartezini

Lula teme que um novo mensalão surja numa CPI que investigue a Petrobrás

Ex-presidente compara o caso da petroleira à investigação dos Correios, mas sem dizer que hoje a oposição pode tentar o impedimento de Dilma

Ex-presidente Lula em “entrevista” a blogs a serviço do governo federal: “Vamos pra cima”

Ex-presidente Lula em “entrevista” a blogs a serviço do governo federal: “Vamos pra cima”

A dimensão da carga dramática para o PT da in­vestigação de corrupção na Petrobrás foi ilustrada por Lula nas 31 palavras desta frase toscamente construída pelo ex-presidente em entrevista a nove blogueiros que colaboram com o governo e não incomodaram o entrevistado com perguntas difíceis:

— Eu fico pensando como é possível uma CPI começou investigando R$ 3 mil numa empresa pública, que era dirigida pelo PMDB, que investigava um cara do PTB, terminou no PT.

Lula escapou de processo quando, em 2005, a CPI dos Correios destinada a investigar o suborno, filmado, de R$ 3 mil de um dirigente da empresa, Maurício Marinho, indicado pelo PTB do ex-deputado Roberto Jefferson, desviou na direção do PT. O desvio ocorreu no momento em que Roberto Jefferson, para escapar do caso do suborno, denunciou o mensalão do PT.

O ex-presidente se safou naquela ocasião e foi reeleito no ano seguinte, mas agora a CPI da Petrobrás po­de chegar ao seu segundo governo, quando a pe­troleira comprou a refinaria de Pasadena em 2006. A operação foi aprovada pelo conselho de administração da Petrobrás sob a presidência de Dilma Rousseff, na época chefe da Casa Civil de Lula.

Hoje, a presidente Dilma está numa posição frágil, com a popularidade em baixa a seis meses da eleição presidencial e minada por outras denúncias de corrupção nos governos do PT levantadas pela imprensa. Com as denúncias em ritmo crescente, o pedido de impedimento da presidente é uma possibilidade cogitada pela oposição e que poderá encontrar eco na sociedade civil.

Mesmo que Lula escape também da nova CPI, a imagem histórica dos governos do PT, já comprometida com o mensalão, deverá receber o impacto negativo dos novos escândalos. Por isso, na conversa com os blogueiros, na terça-feira, o ex, ao fazer o paralelo com a CPI dos Correios desviada para o mensalão, advertiu o PT para não se omitir agora como em 2005:

— Não houve da parte do PT a sabedoria de fazer o enfrentamento político.

Agora, Lula exortou o PT a “ir para cima” da oposição a ferro e fogo. “Espero que o PT tenha aprendido a lição”, recordou 2005 e recomendou ao governo Rousseff que impeça com “unhas e dentes” a investigação da Petrobrás. Ali, justificou a inclusão na nova CPI do escândalo em torno de corrupção de agentes do PSDB que cuidam dos trens metropolitanos paulistas:

“Quer investigar a Petrobrás? Vai. Qual o fato determinado? Acabou. Essas pessoas (a oposição) nunca quiseram CPI. Pega aqui em São Paulo. Nunca aconteceu nenhuma.”

No dia seguinte, quarta, a Assembleia estadual criou a primeira CPI nos últimos três anos. Articulada pelo PT, investigará se o governo tucano de Geraldo Alckmin cometeu irregularidade na cobrança de pedágio nas estradas do Estado.

A veemência de Lula induz a sinceridade de seu discurso quando abriu a entrevista garantindo que não assumirá o lugar de candidato do PT, mesmo que a presidente Dilma esteja em posição frágil. “Eu quero dizer a vocês que não sou candidato”, emendou. “Eu não tenho como ir a cartório e registrar que não sou candidato. A minha candidata é Dilma Rousseff.”

Mas sempre fica uma dúvida quando se trata de ambição pelo poder. Mesmo depois do louvor que Lula fez à sucessora. “Acho que a Dilma tem competência e todas as condições políticas e técnicas para fazer o Brasil avançar”, atestou. “Ela é, disparadamente, a melhor pessoa para ganhar essas eleições. Eu já cumpri a minha tarefa, já fiz o que tinha que fazer. Já me dou por realizado”, comprometeu-se.

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