A.C. Scartezini
A.C. Scartezini

Em público, Janot avisou à presidente sobre o início do processo contra o petrolão

Dilma recebeu o recado como se fosse abuso de autoridade, com alarmismo e uma ordem para demitir petroleiros, o que não aceita

Procurador-geral da República, Rodrigo Janot, sobre o petrolão: “É a mais completa apuração de ilícitos” | Foto: Fellipe Sampaio/ SCO/ STF

Procurador-geral da República, Rodrigo Janot, sobre o petrolão: “É a mais completa apuração de ilícitos” | Foto: Fellipe Sampaio/ SCO/ STF

Ao recomendar em público a demissão da diretoria da Petrobrás, o procurador-geral da Repú­bli­ca, Rodrigo Janot, enviou um aviso ostensivo à presidente Dilma: se­rá implacável ao encaminhar ao Judiciário o pedido de abertura de processo contra autoridades, políticos e empresários envolvidos na corrupção do petrolão. Dois dias depois, o Ministério Público Federal iniciou o processo com a denúncia de 36 pessoas.

Severamente, Janot condenou o “cenário tão desastroso na gestão da companhia” e diagnosticou ânimo com que a sociedade aguarda providências do governo:

— É a mais completa e profunda apuração dos ilícitos perpetrados, com a punição de todos os envolvidos. Esperam-se as reformulações cabíveis.

Dilma captou o recado e mandou o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, convocar uma entrevista coletiva e responder ao discurso de Janot, feito na manhã de terça, em conferência pela passagem do Dia Internacional de Combate à Corrupção, promovida pela Pro­cu­radoria Geral da República na ausência da presidente.

A manifestação presidencial sobre a data se limitou à publicação de uma mensagem no Facebook. Ao lado do desenho do rosto de Dilma, estava a fala entre aspas: “Te­nho uma vida inteira que demonstra o meu repúdio à corrupção. Eu não compactuo e nunca compactuei com a corrupção.”

A mensagem soou como ironia depois do discurso de Janot e não ficou exposta na rede por muito tempo. A declaração nem era original. Foi retirada do discurso com que a presidente encerrou a campanha pela reeleição, em Porto Alegre, em 25 de outubro. A oposição a bombardeava com o petrolão.

Antes do procurador, o ministro também discursou e mencionou a dificuldade em reprimir os corruptos e corruptores. “A corrupção é um crime que ocorre nos subterrâneos, é um crime oculto”, definiu. Na saída, provocado por repórteres, reconheceu que “há fortes indícios de corrupção” na Petrobras.

Dilma não gostou. Mandou Cardozo convocar a coletiva para negar demissões na empresa, que ameaçariam a primeira amiga e presidente da Petrobrás, Graça Foster. “O governo tem uma posição muito clara sobre isso”, assegurou o ministro. “Nós afirmamos e reafirmamos que não existem quaisquer indícios ou suspeitas que recaiam sobre a pessoa da atual presidente e da atual direção”, e arrematou para reforçar:

— Não há nenhuma razão objetiva para que os atuais diretores sejam afastados.
Ao repetir algumas vezes, o ministro da Justiça tentou repassar segurança aos jornalistas. Porém, escorregou ao se referir ao pessoal do petróleo como ‘atual’, ou seja, momentâneo. Era atual na terça-feira, hoje poderia estar demitido. Quem sabe amanhã?

No momento da fala de Janot, Dilma recebia Lula e outros companheiros graduados, no Alvorada para uma reunião de cinco horas que atravessou o almoço no palácio. Em pauta, recheada, pelo procurador, a repercussão do petrolão, a escolha da nova equipe e o relatório final da Comissão Nacional da Verdade, sobre a violência da repressão na ditadura militar. Dali saiu um ensaio estratégico de defesa do governo.

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