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A.C. Scartezini

A economia quebrou, mas Dilma apenas faz política, não se agarra ao combate da crise

A presidente assumiu a articulação do novo governo e deixou de lado a função de gerente executiva da administração pública

Miséria no Brasil parou de cair, informação que foi guardada para não atrapalhar a reeleição de Dilma Foto: Adriana Spaca /Brasil Press

Miséria no Brasil parou de cair, informação que foi guardada para não atrapalhar a reeleição de Dilma Foto: Adriana Spaca /Brasil Press

A presidente Dilma se reelegeu há duas semanas, Depois, passou outra semana em repouso com a família no litoral baiano. Re­tornou há uma semana, no domingo. Mas ainda não se agarrou ao trabalho de gerência administrativa como executiva do governo, função que deixou de lado desde o fim de agosto, para se aplicar na campanha pela reeleição presidencial.

Enquanto Dilma atua mais como articuladora política do novo mandato, a economia espera ações que abranjam a área social, onde a miséria parou de cair em 2013, segundo pesquisa do Ipea que estava engavetada para não perturbar a reeleição. A pesquisa começou em 2004 e, desde então, pela primeira vez a extrema pobreza aumentou.

Abrange pessoas que sobrevivem com renda mensal inferior a 70 reais. Elas eram 3,6% em 2012, segundo ano de governo Dilma. No ano passado, caíram a 4%, que correspondem a 8,059 milhões de brasileiros na extrema pobreza. Ao sair da gaveta, a expansão da extrema pobreza confirmou ser mais uma herança maldita que Dilma legou a si mesma.

Se ainda não perguntou, Lula poderia indagar à sucessora o que ela fez com o Brasil Sem Miséria, programa de seu governo que atende àquela faixa social. Dilma talvez respondesse com o mesmo cinismo com que a ministra do Desenvol­vimento Social, Teresa Campello, invocou as pesquisas eleitorais:

— Trata-se de uma flutuação estatística, que está dentro da margem de erro.

Em compasso de espera, a economia aguarda providências. O que saiu até agora, como o aumento da gasolina e a projeção de novos juros mais altos estava no piloto automático, à espera dos ventos de novembro para decolar. Em entrevista, a presidente anunciou, na quinta-feira, o objetivo imediato na economia:

“Nós vamos ter de fazer nosso dever de casa: apertar o controle da inflação, vamos ter limites dados pela nossa restrição fiscal para fazer toda uma política anticíclica que poderia ser necessária agora.”

Disse o óbvio. A começar pelo “vamos ter de fazer”, o que significa que a máquina enguiçou de repente e agora o conserto é uma imposição de emergência. Por que a máquina enguiçou? Emergência por causa do rombo das contas públicas que quebrou o país, o que exige a adoção de metas de desempenho menores para caberem nos limites possíveis? O que se fazia antes?
A economista Dilma se queixou aos repórteres de que ninguém possui um manual com a li­ção sobre a superação de crise. Leia-se em sua linguagem confusa:

“Não acho que tem uma re­ceita prontinha que alguém tenha e que nós devemos nos apropriar dela, seguir à risca. Os Estados Unidos são os pragmáticos dos pragmáticos. Diziam: ‘Não salvem empresas privadas’, eles vão lá e salvam todo o setor automobilístico.”

Há três anos, a presidente julgava ter a receita, que considerava a salvação do Brasil diante da crise internacional: estimular o consumo interno para impulsionar a produção. Orgulhosa, foi à Europa e repetiu receita a alguns governantes e à União Europeia. Em seguida, esteve nos Estados Unidos e confirmou a receita em discurso nas Nações Unidas dirigido ao planeta.

Hoje, a quebra das contas públicas foi anunciada no fim de semana seguinte à vitória da reeleição. O atestado de quebra está no desempenho das contas fiscais em setembro, com o déficit primário de R$ 25,5 bilhões. Há cinco meses seguidos as contas estavam no vermelho. Ainda não se conhecem os números de outubro.

O vilão do rombo foi o governo central, com o pior déficit primário mensal da história, R$ 21 bilhões, acumulados pelo Tesouro Nacional, Previdência Social e Banco Central. O governo reconheceu que não terá como cumprir a meta fiscal prevista para 2014, com o superávit primário de R$ 99 bilhões, correspondente a 1,9% do PIB.

E agora? Se o Congresso não vier a galope e reduzir a meta na Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO), Dilma desrespeitará a Lei de Responsabilidade Fiscal criada na era FHC. Não é nada, não é nada, estará desfeito o Plano Real, com a volta do país à situação anterior à criação da nova moeda quando Fernando Henrique se sentava na cadeira que hoje pertence a Mantega.

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