A.C. Scartezini
A.C. Scartezini

As crises que levaram Dilma voltar a procurar Lula em São Paulo a bordo do avião oficial

A presidente cedeu diante de problemas com a corrupção, o PT e partidos aliados, que ameaçam o ajuste fiscal e montam um governo paralelo no Congresso

Com baixa popularidade, presidente Dilma Rousseff percebeu que uma visita ao “criador” Lula era inevitável  Foto: Ricardo Stuckert/ Instituto Lula

Com baixa popularidade, presidente Dilma Rousseff percebeu que uma visita ao “criador” Lula era inevitável Foto: Ricardo Stuckert/ Instituto Lula

“O olhar de Lula, terno e, ao mesmo tempo, recriminador, parece o olhar de um pai para uma filha que está meio perdida na vida.”

Um observador, ao contemplar a foto do reencontro entre Lula e Dilma, feita por Ricardo Stuckert, exclusivo do Instituto Lula

Mais uma vez Lula trouxe seu fotógrafo para ser o único jornalista a documentar um encontro com a presidente Dilma. A atitude do ex-presidente não se liga ao fato de ser o anfitrião. Há um ano ele trouxe Ricardo Stuckert e um grupo petista de São Paulo para uma visita que ele impôs a Dilma na intimidade da residência do Alvorada.

Era mais um gesto para assumir a campanha da reeleição. Não deu certo porque Dilma continuou a impor a distância entre ambos. Poucas vezes fizeram campanha juntos, cada um com transporte próprio. A atitude de Lula na última quinta-feira, 12, expunha mais a ideia de demarcar ascendência. Depois, posse de território paulistano. No caso, um hotel.

Qual foi o momento em que a criatura decidiu ceder em seu orgulho e voltar a procurar o criador, em São Paulo, a bordo do avião presidencial, depois de uns dois anos, para pedir conselho sobre o rumo do governo? Ela aproveitou a visita de rotina ao hospital para exame? É a história oficial, editada pelo Planalto.

A agenda presidencial do dia mencionava somente o voo a São Paulo, onde o avião pousaria às 8h50 da manhã. Não havia horário da volta a Brasília. No dia seguinte, Dilma teria um encontro, no Planalto, com o ministro das Relações Exteriores da Ale­manha, Frank-Walter Steinmeir. Se pudesse ser antecipado para São Paulo, justificaria a viagem. Não foi possível improvisar.

O fato é que Lula critica a articulação política da sucessora desde que Dilma se isolou, mas os seis dias anteriores ao reencontro entre ambos ofereceram uma série de motivos imediatos para a presidente voltar a buscar proteção junto a Lula no meio das crises sucessivas que abalam o governo. Além das críticas do ex que animam a dissidência governista.

Seis dias antes, eles se viram em Belo Horizonte, no encontro nacional do PT, mas a presidente não sentia ainda necessidade de uma conversa a sós. Aproveitaram para posar diante de câmeras e do público como velhos amigos. Aliás, se dependesse do chefe da Casa Civil, Aloizio Mercadante, Dilma não iria ao encontro dos petistas – que hostilizam o companheiro do palácio.

No fim de semana seguinte, começou a cair a ficha da presidente a respeito da visita a Lula. A nova pesquisa do Datafolha demonstrou que a aprovação ao governo caiu quase à metade em dois meses: estava com 42% em dezembro e desceu a 23% no início deste fevereiro. Efeito de corrupção, má gestão e arrocho na economia, antes negado por Dilma.

Entre brasileiros que ganham até dois salários mínimos mensais, a popularidade da presidente caiu 23 pontos. O Nordeste continuou a ser a região com maior apoio a Dilma: 29%. Dois meses antes, o apoio era da maioria nordestina: 53%. A corrupção se apresentou como o segundo maior problema do país, com 21%. Em primeiro, a saúde, com 26%.

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