A.C. Scartezini
A.C. Scartezini

A corrupção, a TV Globo, o controle da mídia, o Datafolha e a reforma política

roberto marinho

João Roberto Marinho, todo-poderoso da Globo, foi recebido por Dilma

A confluência entre os escândalos de corrupção, a queda do prestígio da presidente Dilma Rousseff e o ano eleitoral levou o ex Lula a convocar a sucessora para a reunião fechada, em São Paulo, no último dia 4, uma sexta-feira. Ali combinaram a sacudida que Lula daria na semana seguinte no governo e no PT para não perderem mais posição eleitoral.

Há algum tempo, o poder de influência da TV Globo leva Lula a cultivar discretos contatos pessoais com o vice-presidente do grupo, João Roberto Marinho. Hoje, as televisões andam preocupadas porque o governo ensaia oferecer à nova geração de telefonia celular uma frequência de operação que seria capaz de interferir nos sinais das emissoras.

Por isso, naquela sexta, Lula recomendou a Dilma receber Marinho em Brasília com urgência. O noticiário da Globo sobre corrupção preocupa o PT. Naquele momento, o Datafolha já processava os dados sobre a pesquisa que foi publicada dois dias depois, no domingo. Pessoas influentes como Lula conseguem se informar, naquela fase, sobre a tendência da pesquisa.

Além disso, o governo tem pressa em instalar as condições de operação celular da geração G4 antes do início da Copa do Mundo, dentro de dois meses. Dilma entendeu e recebeu Marinho quatro dias depois, na terça. No mesmo dia, Lula ofereceu a entrevista a blogueiros amigos e nela defendeu abertamente o controle do conteúdo da mídia.

Há uma coerência no processo coordenado por Lula, mas a presidente Dilma parece meio perdida no redemoinho porque apresenta uma única solução para suas aflições políticas: a reforma política.

Há quase um ano, na eclosão dos protestos de junho, agarrou-se a um projeto exótico de reforma: uma constituinte exclusiva para a política a ser pautada por um plebiscito prévio que decidiria a linha das mudanças. Não deu certo. Nem com Lula daria.

Agora, diante do panorama visto do Planalto, a presidente retoma o samba de uma nota só, a reforma política. Recebeu um grupo de estudantes de esquerda e recomendou que atraíssem outros movimentos sociais e saiam às ruas para pressionar pela reforma. “O momento eleitoral é de discutir a reforma política”, apelou ao imaginar algo do vulto das Diretas Já e emendou:

— É preciso que os movimentos sociais pautem essa reforma.

Tudo tem muito a ver com junho. Naquela época, o povo participaria de um plebiscito para decidir o que reformar numa constituinte autorizada a mudar somente a politica. A assembleia funcionaria paralelamente ao Congresso. Hoje a massa popular produziria algo tão denso e afinado como a pressão, há 30 anos, do movimento pela volta da eleição presidencial direta.

A reforma poderia começar em casa. Ainda na quarta-feira, o senador brasilense Gim Argello desistiu do convite de Dilma para assumir uma cadeira de ministro no Tribunal de Contas da União (TCU) em nome do PTB. Não suportou a pressão contra sua indicação: o senador responde a seis inquéritos no Supremo Tribunal Federal.

Foi denunciado ao Supremo por corrupção ativa e passiva, lavagem de dinheiro, peculato, falsidade ideológica e fraude em licitação pública. Até o Senado viu com desconfiança a sua indicação. Por 25 votos contra 24, os senadores recusaram o pedido feito por Dilma para examinar o processo com urgência, o que livraria Argello de ser previamente sabatinado. Os ministros do TCU soltaram em seguida uma nota ameaçando barrar a posse do novo colega.

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