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A.C. Scartezini

Com frieza, Marina aceitou as novas regras com o PSB num dia e virou a mesa no outro

Em seguida ao golpe que desnorteou o partido, a candidata desautorizou o vice e acenou ao mercado sem testar a confiabilidade da proposta

Morte do líder do PSB, Eduardo Campos, foi o primeiro golpe inesperado para os socialistas, mas não o único | Foto: Chico Peixoto/Fotos Públicas

Morte do líder do PSB, Eduardo Campos, foi o primeiro golpe inesperado para os socialistas, mas não o único | Foto: Chico Peixoto/Fotos Públicas

Foi inesperado o sangue frio com que a presidenciável Marina Silva en­frentou a intervenção do PSB na campanha e a seguir desfechou a contraintervenção secamente. Até parecia que tudo fora ensaiado antes, como as artimanhas entre políticos matreiros. Vale a pena reconstituir a encenação teatral montado em uma semana, com pausa para o luto por Eduardo Campos.

A morte do candidato a presidente e líder do PSB foi o primeiro golpe inesperado, no desastre aéreo do dia 13, em São Paulo. Os socialistas assumiram em terra o destino do partido deles, diante da evidência de que a lógica seria a promoção de Marina, a vice de Campos para a vaga. Mas tinham dúvida por causa de seu compromisso com a criação de um partido próprio, a Rede.

Em defesa do velho PSB, tentaram impor as regras do jogo sem ouvir Marina. Mantiveram a estrutura de chefia da campanha como Campos sempre a teve, com gente puro-sangue de casa. A seguir, na terça-feira, dia 19, consagraram o deputado gaúcho Beto Albuquerque como candidato a vice de Marina, que o aceitou.

Naquele momento, Albuquerque ao sair da reunião da cúpula socialista com a viúva Renata Campos em Recife para fechar a escolha do vice, confirmou, indiretamente, a sua missão em defesa do PSB. Afirmou se sentir honrado em “representar o pensamento, a trajetória, o legado de Eduardo Campos junto com Marina.” Era a consumação da intervenção do partido.

Coerente com a fala de Al­bu­querque, líder do PSB na Câ­ma­ra, a nova presidenciável, Ma­rina repetiu o modelo, no mesmo dia em Brasília, na mis­sa fúnebre por Campos. A concordância veio num pronunciamento em que a candidata se re­feriu ao projeto de Campos pe­la renovação política, como ideal que o partido tentava preservar:

“Neste momento, nosso esforço, independentemente de partidos, é de que toda a sua trajetória, sua insistência em renovar a política não seja tratada como uma herança onde cada um pega um fragmento do despojo, mas como um legado que, quanto mais pessoas puderem se apropriar dele, maior ele fica.”

A candidata explicou como se realiza aquele crescimento do legado de Campos. “Multiplica-se no coração, nas mentes e na ação daqueles que não desistem de que este mundo possa ser socialmente justo, economicamente próspero, culturalmente diverso, politicamente democrático e ambientalmente sustentável”, emendou.

Na realidade, a engenharia socialista que envolveu a escolha de Beto Albuquerque como vice atribuiu duas missões do deputado como representante do PSB na chapa presidencial. A mais vistosa é a vigilância sobre Marina para preservar o projeto Campos. A outra missão era evitar que a presidenciável prejudicasse a relação do PSB com o agronegócio.

A credencial de Albuquerque para operar junto ao ruralismo está em seu currículo parlamentar e político. Entre outras coisas, realizou a façanha de receber financiamento eleitoral de empresas de áreas econômicas que os estatutos da Rede condenam: armamentos, celulose, agrotóxicos e bebidas.

Quer mais? Quando Marina era ministra do Meio Ambiente, no governo Lula, Albuquerque colaborou com o Planalto na aprovação pelo Congresso da legislação que liberou a soja transgênica. Aqui a porca torceu o rabo de vez. Veio a contraintervenção de Marina. Ela indicou dois ambientalistas para buscarem financiamento no agronegócio no lugar de Albuquerque.

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