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A.C. Scartezini

A abertura dos centros de torturas encontrará resistência, mas não uma virada de mesa

Logo no início, a própria ditadura fechou a fábrica de golpes quando Castello criou a aposentadoria compulsória de militares aos 70 anos, a expulsória

Posse de João Goulart  na Presidência em 1961desencadeou o processo de golpe dos militares três anos depois

Posse de João Goulart na Presidência em 1961desencadeou o processo de golpe dos militares três anos depois

A abertura de centros militares de tortura e morte para investigações civis veio em momento oportuno ao governo para competir no noticiário com os holofotes que acompanham a presença de Dilma Rousseff na aprovação da compra da refinaria de Pasadena, mas isso não sairá de graça à presidente. Haverá um preço político a pagar, mesmo sem o risco de virada de mesa como em 1964.

Evocado na passagem dos 50 anos do golpe militar como responsável pela era mais dura da ditadura, o general Garrastazu Medici ensinava na intimidade porque não haverá outro 1964. No ostracismo desde que deixou de responder pelo Planalto em 1974, o general não acreditava, no começo dos anos 80, que uma nova intervenção militar pudesse sufocar a abertura política.

“A revolução de 64 começou a se preparar na posse de Jango em 1961”, ensinava o general que os chefes militares, vencidos na trama contra a posse do vice-presidente João Goulart, iniciaram ali a nova conspiração, que demandou três anos de organização até o desfecho do golpe com sucesso.

Naqueles 1980, a demanda da articulação exigiria tempo mais amplo por causa da falta de lideranças internas nos quartéis desde que o marechal Castello Branco assumiu o governo e impôs aos militares a aposentadoria compulsória aos 70 anos. Assim, não haveria tempo na caserna para a produção de líderes internos como antes. Castello fechou a fábrica de golpe.

Agora, a presidente Dilma que se prepare para ser incomodada por oficiais da reserva como ocorreu há dois anos, quando o Planalto preparou a instalação da Comissão Nacional da Verdade como ferramenta da investigação de violações do Estado aos direitos humanos desde a redemocratização em 1946 à constitucionalização de 1988.

Naquela época, surgiu a entrevista em que o general da reserva Eduardo Rocha Paiva questionou a versão de que Dilma foi torturada enquanto presa política nos anos 70. Secretário-geral do Exército no segundo governo Lula, o general sugeriu que a Comissão Nacional da Verdade providenciasse depoimentos de vítimas de guerrilheiros e ouvisse a presidente a respeito:

— Ela era da VAR-Palmares, que lançou o carro-bomba que matou o soldado Mario Kozel Filho. A comissão não vai chamá-la, por quê?

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