Tragédia provocada por acirramento político abriu espaço para eleição da 1ª deputada goiana

Após morte do marido, Getulino Artiaga, por integrantes do partido UDN, Berenice Artiaga foi eleita pelo PSD

Gabriella Oliveira
Nielton Santos

Primeira deputada estadual em Goiás, Berenice Teixeira Artiaga foi eleita por exceção ao invés da regra. Isso, porque foi necessário uma tragédia causada pelo acirramento político local, que resultou no assassinato do marido dela, Getulino Artiaga, com 18 tiros, para que ela fosse indicada para a vaga. Antes, o líder do então PSD, Tatico Rosa, também havia sido morto. Integrantes do UDN foram acusados pelos crimes.

As disputas entre grupos políticos e a série de atentados ficou conhecida como “a chacina de Nova Aurora”. Esses episódios trágicos em Goiás foram registrados pela imprensa daquela época. Segundo reportagens, a confusão teria começado após uma briga entre integrantes do PSD e UND, durante a campanha de 1950. Em 8 de setembro estava programado um comício do PSD, no então distrito de Catalão, com a presença de Pedro Ludovico – candidato ao governo -, quando uma caravana de udenistas chegou ao local, vindo de Goiandira.

O episódio resultou em atritos políticos, provocando a morte de Tatico Rosa. Uma matéria do jornal ‘Cinco de Março’ relata, inclusive, que após o assassinato, Getulino procurou pelo grupo adversário em um bar, onde foi alvejado com 18 disparos.  Sem o candidato e com a repercussão do crime, o PSD decidiu lançar o nome da viúva de Artiaga.

Berenice foi eleita em 1950, passando a ser primeira mulher a ocupar uma cadeira da Assembleia Legislativa de Goiás (Alego). Pelo feito, ela dá nome a uma das principais comendas oferecidas na Casa a pessoas que se destacam no Estado. Na eleição posterior, em 1954, a política foi reeleita, integrando também a Mesa Diretora da Assembleia, no cargo de primeira secretária, ficando no período de abril de 1956 a abril de 1957.

Nessa legislatura, de 1954 a 1958, Goiás elegeu a segunda deputada: Almerinda Magalhães Arantes, que depois seria ainda reeleita por mais dois mandatos. Já a terceira mulher eleita deputada estadual do Estado foi Ana Braga de Queiroz, em 1959. Ao todo, o parlamento goiano chegou a ter apenas oito deputadas, na legislatura entre 2007 e 2010. Atualmente, possui apenas duas: Adriana Accorsi (PT) e Lêda Borges (PSDB). 

Embora gostasse de política, conforme relatou o filho dela, o ex-prefeito de Goiânia, Índio Artiaga, ao Jornal Opção, Berenice deixou o cenário em prol de um novo casamento e para cuidar da família. Em entrevistas, a ex-deputada, que faleceu em 2012, aos 92 anos, se mostrava honrada em ser a pioneira na política em Goiás, mesmo em uma situação que, ela própria, afirmava que nunca desejaria, substituindo a candidatura do marido Getulino Artiaga.

No entanto, ainda na época em que a primeira deputada estadual goiana foi eleita era difícil para a mulher ter espaço na política, atualmente, pouco mudou neste aspecto, conclui a professora titular aposentada de ciência política da Universidade Federal de Goiás (UFG), Denise Paiva. Fazendo um paralelo da baixa representatividade feminina na política, Denise compara o cenário do passado com o atual. “Nós tivemos alguma participação das mulheres durante o período de 1945 a 64, quando foram eleitas três parlamentares.  Mas durante o regime autoritário nenhuma mulher foi eleita por Goiás. E essa ampliação começou lentamente depois da redemocratização”, salienta.    

Paiva ainda constata que, ao longo dos anos, é possível perceber o aumento do número de mulheres na política. No entanto, ressalta que essa conquista de espaço é muito lenta. Um dos motivos apontados é a falta de oportunidades iguais dentro dos partidos, mesmo que haja a lei de cotas, que cria mecânicos de participação feminina, por meio dos recursos dos fundos partidários e de campanha direcionados para as mulheres. “Se nós olharmos para dentro dos partidos políticos, as instâncias decisórias são controladas por homens e não por mulheres”, pontua. Para ela, isso causa dificuldade de acesso das mulheres, por exemplo, à campanha eleitoral, como tempo de televisão e recursos do fundo partidário eleitoral. “Sem maior visibilidade nas campanhas, não adianta muitas mulheres se candidatar”, frisa.

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