Um tema incômodo a ser debatido nas próximas eleições: as privatizações

Uma pauta que exigirá respostas dos governadores responsáveis pela negociação desembestada do maior ativo do povo: a Celg Distribuição


Salatiel Soares Correia
Especial para o Jornal Opção

Não tenho dúvidas de que teremos, nessas eleições, um tema bastante árduo, no debate político, em torno de quem será o novo “Inquilino da Casa Verde”. Esse tema exigirá respostas dos governadores, responsáveis pela privatização desembestada do maior ativo do povo: Celg distribuição. Vale ressaltar que, se formos analisar o antes e o depois de Ronaldo Caiado, a balança do poder pende, favoravelmente, para ele. É o que procurarei demonstrar narrando a dinâmica desse processo.

O ANTES DE CAIADO
Sob a liderança do então governador Marconi Perillo, as estatais goianas, sucateadas pelo populismo, foram, de fato, a herança maldita que o,” estadista” de Palmeiras recebeu de seus antecessores. Não custa lembrar que isso ocorreu pelo intenso uso político, liderado por governadores, oriundos do MDB, em torno de algo da conta que os financiadores das campanhas políticas iam, passadas as eleições, cobrar do governo eleito: obras sobredimencionadas feitas, sob medida, para atender a uma classe, que passou a ter muita força política, desde que os governadores começaram a ser por eles financiados: os empreiteiros.

A partir de 1994, o Plano Real coibiu as obras sobredimencionadas, que tanto contribuíram para elevação da inflação. Sem dinheiro em caixa para alimentar as políticas paroquiais populistas, o governo Maguito privatizou a Usina, pagando, por isso, o preço de diminuição de sua estatura política e disso resultou: a negação do povo para que ele voltasse a ser um “Inquilino da Casa Verde.” Criou-se, assim, um vácuo de poder o qual foi, completamente, ocupado pelo príncipe, que mais tempo foi “Inquilino da Casa Verde”: Marconi Perillo.

Sob a égide da Lei de Responsabilidade Fiscal, o novo governo ficou impedido de adotar a velha prática das eternas renegociações de dívidas, que possibilitavam jogar sempre para o futuro as dívidas contraídas de curto prazo em nome do desenvolvimento. Quanto a isso, nada mais apropriado citar o grande economista Inglês, John Maynard Keynes, que, sabiamente, ensina-nos que “no futuro estaremos todos mortos.” Dito de outro modo: dívidas nunca eram pagas, mas eram eternamente renegociadas.
Sem essa opção, o governo tucano tinha, diante de si, dois caminhos: o da grandeza e do nanismo político. Neste último, o governo manifestaria vontade política de não mudar a forma de gerenciar as duas maiores estatais goianas—Celg e Saneago. Naquele primeiro, o governo imporia sua vontade soberana de mudar, radicalmente, a maneira de gerir suas estatais.

A partir daí, a nova gestão tucana, sob a amarra da Lei de Responsabilidade Fiscal, passou a si financiar da maneira mais penosa para o patrimônio público: mantendo o desequilíbrio econômico-financeiro e, através dele, financiando o caos gerencial, desprovido de Planejamento Estratégico.

O fim dessa era repetiu a sábia reflexão do grande escritor Italiano, Tomasi de Lampedusa, em seu famoso livro “O Leopardo”. Esse, ambientado na fase da transição, na Itália da Nobreza para a República, ensina que a nobreza decadente deve aderir aos valores da nascedoura República: “É preciso mudar para continuar tudo como era antes”.

De Maguito para Marconi tal reflexão é, absolutamente, verdadeira. O mesmo não pode se disser da mudança Marconi para Caiado. É o que procurarei, a seguir, explicar.

A PARTIR DE RONALDO CAIADO
O governador Ronaldo Caiado assumiu o poder com a Celg privatizada e a Saneago, em situação falimentar, bastante semelhante a da Celg Distribuidora. Ante a essa realidade, qual foi a postura do novo governador? Eis a resposta: completamente, diferente do seu antecessor. Para isso, o mais recente “Inquilino da Casa Verde” blindou, totalmente a empresa contra a orgia dos maus políticos. Além disso, fortaleceu a tecnoestrutura da empresa. Passados quase quatro anos, a Saneago é hoje uma empresa premiada nacionalmente. Uma companhia salva pela grandeza política de um homem público, que assumiu suas responsabilidades de estadista perante seu povo.

O maior ativo, que detém o governo Ronaldo Caiado, é de ter sido duro no combate à corrupção. Órgãos tão contaminados por essa prática—a exemplo do Detran, Ipasgo e Agetop—vivenciam uma nova realidade, na qual é possível, sim, o Estado manter-se empresário. O que diferencia o bom do mau estado centra-se na grandeza ou na pequenez de quem nos governa. Confesso que não tenho bolas de cristal, entretanto pelas armas da racionalidade acho muito difícil o Palácio das Esmeraldas mudar de inquilino. Quem viver, verá.

Salatiel Soares Correia é engenheiro, administrador de empresas, mestre em Energia pela Unicamp. É autor, entre outros livros, de A Energia na Região do Agronegócio.

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