Sobre as cinzas das igrejas do Chile

As igrejas são invadidas, como no Paraná recentemente. Quando tais delitos entrarão no rol dos crimes hediondos? 

Rafael Magul e Pedro Sergio Santos

Em 2020 o mundo assistiu, atônito, ao incêndio de igrejas em Santiago no Chile. O fogo e a depredação foram promovidos por manifestantes da esquerda, que bradavam por mais democracia no país. É… Isso mesmo, bradava-se por democracia, liberdades e melhorias sociais, incendiando igrejas, promovendo atos de vandalismo, violência, nudez e cenas pornográficas em público.

Igreja incendiada no Chile | Foto: Reprodução

O fogo nas igrejas do Chile não se iniciou em Santiago, mas na Europa, quando um alemão, no século XIX, afirmou que “a religião é o ópio do povo”. Marx, o autor da frase, sintetizou e assumiu no seu discurso intelectual (em uma crítica ao filósofo Hegel), o que outros filósofos iluministas vinham dizendo. Para Marx, a religião era entendida com superstição, servindo para ofuscar a consciência, de certa forma como droga, e deveria ser extirpada para que o indivíduo pudesse compreender o processo revolucionário por ele proposto. A seu ver, religião, família e o Estado deveriam ser substituídos por uma ditadura da classe proletária com a finalidade de se implantar o comunismo.

Tal conceito de religião é a mão que incendeia igrejas na América Latina, que colocou centenas de milhares de cristãos nos campos de concentração no leste Europeu, na Rússia stalinista, matando milhões na China com a revolução cultural de Mao Tsé-tung e nas cadeias de Cuba e do Vietnã, da Coréia do Norte, para não nos estendermos muito na geografia da morte provocada por uma ideologia que matou noventa por cento mais que o nazismo.

No exterior, são dezenas os ataques à fé e às igrejas nos tempos atuais. Na Ucrânia, militantes feministas seminuas, com uma motosserra, cortaram uma cruz na porta de uma Igreja Ortodoxa em 2012. Outras foram presas na Praça São Pedro, no Vaticano, quando diante do público ali presente introduziam crucifixos no ânus.

No Brasil, a tal ideologia da democracia incendiária de igrejas já está presente há bom tempo, porém o Estado, nos seus três poderes, ainda faz vista grossa. São igrejas evangélicas com paredes pichadas, bíblias queimadas em festas nas universidades federais, imagens católicas destruídas nas ruas do Rio de Janeiro na Jornada Mundial da Juventude, com cenas imorais de nudismo e outras mais vexatórias. Assistiu-se ainda ao patrocínio do Banco Santander, em 2017, a uma suposta exposição de arte, Queermuseu, na qual objetos da fé e a imagem das crianças eram vilipendiados. Posteriormente, um indivíduo nu usou um ralador para destruir uma imagem da Virgem Maria.

Tudo isso ficou somente na indignação e no sofrimento moral de cristãos indignados com estas e outras cenas incontáveis não descritas aqui. Agora, o país vive diante da chocante cena de um cidadão africano, Moïse, morto no Rio de Janeiro por criminosos violentos. Desse episódio só se pode esperar a devida condenação da Justiça. Mas o que tem tal assunto com o que até aqui relatamos? O leitor deveria se perguntar se os assassinos do jovem africano eram inocentes senhoras e outros fiéis que rezavam pacatamente em uma igreja de Curitiba junto com o padre que ali celebrava a missa…evidentemente não eram eles.

Igreja Católica invadida por militantes da esquerda | Fotos: Reproduções

Todavia, militantes inflamados pelo fósforo de Marx, usando da causa do jovem assassinado como pretexto para todo tipo de bandalheira, fizeram protestos diante de uma igreja no centro de Curitiba no último dia 7 de fevereiro. O padre solicitou que fizessem a manifestação em outro local, pois atrapalhavam a missa; em resposta, eles invadiram a igreja com faixas, gritaria, xingamentos e palavras de ordem. Violaram o sagrado local de culto, como se aquilo fosse o banheiro da casa deles. Rasgaram a Constituição Federal e pouco se importaram se ali estavam a cometer crimes.

Diversos seguimentos da sociedade manifestaram sua indignação em relação a esse episódio. Já se fala em pedir a cassação de um parlamentar que liderava a bagunça criminosa. Deputados da bancada católica no Congresso divulgaram nota de repúdio e por aí o tempo passa até que chegue o próximo escândalo para ocupar as páginas dos jornais.

O Código Penal, em seu artigo 208, prescreve: “Escarnecer de alguém publicamente, por motivo de crença ou função religiosa; impedir ou perturbar cerimônia ou prática de culto religioso; vilipendiar publicamente ato ou objeto de culto religioso: Pena — detenção, de um mês a um ano, ou multa.” Vejam os ilustres leitores que a lei penal para esse tipo de delito é totalmente ineficaz, não chega a fazer cócegas no mau-caratismo que se apossa desse tipo de militância, pois se forem processados, a pena dos delinquentes não passará de uma audiência com algum promotor de justiça numa sala de um juizado especial criminal.

Ora, senhores deputados e senadores que se dizem escandalizados com tais fatos, quando é que tais delitos entrarão no rol dos crimes hediondos?  Ou ao menos que se indicará a substituição da pena, com tempo maior de reclusão somada a multa? É fundamental que o Poder Legislativo cumpra com seu papel. É fundamental que os delinquentes do Rio de Janeiro — tão negros ou pardos quanto o jovem assassinado, diga-se de passagem — sejam punidos, assim também como os delinquentes de Curitiba. O Poder Judiciário deve cumprir com o seu papel de garantir o Contrato Social, em que o Estado laico é aquele que não tem religião oficial, mas ampara constitucionalmente todas as crenças e confissões.

Por fim, o Poder Executivo deve intervir, cuidando para que o currículo das escolas seja voltado também a ensinar às crianças e adolescentes o respeito ao próximo, à religião  e à família e  que não lhes sejam retirados os valores verdadeiros da cultura greco-romana e judaico-cristã que herdamos , sem desprezo aos povos locais, visto que reformas recentes na educação estão a contribuir com a formação de jovens (como esses que invadiram a igreja de Curitiba) com graves equívocos éticos , cívicos e ideológicos.

Das cinzas das igrejas do Chile há de haver um renascimento moral para toda a sociedade brasileira e internacional.

Rafael Magul é padre ortodoxo Antioquino, pároco da Igreja São Nicolau em Goiânia. Pedro Sérgio Santos é diácono da Igreja Ortodoxa, advogado e professor na UFG.

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