‘DragonBear’: o jogo de Rússia e China na invasão da Ucrânia

por Ycarim Melgaço, especial para o Jornal Opção*

DragonBear
Foto: Reprodução / Institut za Razvoj Obrazovanja

A invasão da Ucrânia pelo exército russo expõe uma guerra e duas batalhas. Em uma delas, a mais sangrenta, temos uma população desesperada, devido às bombas que caem sobre as cidades, obrigando as pessoas a deixarem suas casas e a procurarem abrigo em países vizinhos. Talvez tenhamos mais de um milhão e meio de refugiados. A outra batalha envolve a Rússia, o Ocidente e a OTAN, liderados pelos Estados Unidos. Essa é a velha guerra da geopolítica. Claro, agora muito mais poderosa.

Todavia, o maior interesse dessas potências centra-se, na realidade, na guerra econômica e financeira, acompanhada pela pressão do mercado voraz em tirar proveito da guerra. Nesse jogo, entra em cena um player poderoso, a China, que passa a atuar como um importante filtro das sanções aplicadas à Rússia.

Para tentarmos compreender a aproximação entre Rússia e China, na invasão da Ucrânia, vamos nos espelhar no jogo do “DragonBear” (em tradução livre, DragãoUrso)”. Nesse tabuleiro de interesses mútuos, temos, de um lado, os chineses (Dragon), a segunda economia do mundo, que adotaram a estratégia do softpower, isto é, a guerra sem pólvora, sem bomba; de outro, temos os russos (Bear), que, ao invadirem a Ucrânia, adotaram o hardpower, a tradicional guerra de invasão bélica.

O jogo do “DragonBear” é uma expressão criada pelo jornalista Tom O’conner, da Revista Newsweek, em 2015. Segundo O’Conner, o objetivo foi o de descrever a probabilidade do surgimento de um relacionamento sistêmico de alto nível e uma aproximação abrangente entre China e Rússia em vários campos-chave.

O jornalista deixou bem claro que o “DragonBear” “não é uma aliança, nem um casamento de conveniência, mas sim um relacionamento temporário e teria um importante interesse comum aos dois países, a oposição aos EUA em todos os campos possíveis”. Quando o Ocidente, liderado pelos Estados Unidos, emprega fortes sanções jamais vistas contra a Rússia, é o momento de aplicar o jogo do “DragonBear”. Na verdade, podemos dizer, sem pestanejar, que essa tática é proveniente de um plano muito bem elaborado pelos russos, em que a China – parceira poderosa – entra em cena.

Podemos acrescentar a essa aliança, russo-chinesa um item que aproxima esses países: ambos vivem um momento de pós-socialismo e caminham para a consolidação da economia de mercado, evidenciando a penetração do capitalismo em suas economias.

O jogo do “DragonBear” na Ucrânia, começaria com o mercado de gás, em outros termos, com a energia fornecida pela Rússia para a Europa. Sabemos que o gás natural russo alimenta a economia do Velho Continente, ou seja, dos países membros da Otan. Não poderíamos de forma alguma esquecer que a energia é vital para o desenvolvimento e a qualidade de vida de um país. Cerca de 41% do gás da União Europeia é proveniente da Rússia, e essa dependência cresceu nos últimos anos. Para se ter uma ideia, os preços do petróleo e do gás dispararam após a guerra em ritmo ascendente, ultrapassando as crises dos anos 1970.

A invasão da Ucrânia pela Rússia já fez a Alemanha interromper, um novo e importante gasoduto da Rússia para a Europa, o Nord Stream 2, exigindo do país outros fornecedores para seu consumo. A Alemanha parece ter acordado para a grande dependência da Rússia de um produto estratégico. Óbvio que isso é perigoso! Nessa guerra, o fator econômico-financeiro entra em cena por meio de sanções. Mas, mesmo assim, os russos continuam fornecendo petróleo e gás através de oleodutos e navios-tanque.

Especialistas dizem que os países europeus precisam preparar-se para a possibilidade de interrupção total do fornecimento, apesar do impacto financeiro que a Rússia sofreria. Esse país é o segundo maior produtor de gás e petróleo do mundo. Em 2020, sua produção global de gás foi de 17%, e de petróleo, 13%, ficando atrás apenas dos EUA.

O maior poder que Vladimir Putin tem sobre a Europa é a possibilidade de desligar o gás. Alguém poderia indagar: por que os russos ainda não cortaram esse fornecimento? Esse desligamento seria um total desastre para a economia europeia. Isso até parece um cinismo de guerra! Entretanto, consideramos o posicionamento russo como algo estratégico, pois substituir o que a Rússia oferece demandaria tempo e complexos estudos. O carvão mineral seria uma alternativa, mas esbarra no quesito poluição, e a energia nuclear está em fase de desativação. Outra possibilidade seria importar mais gás de países do Norte da Europa, como a Noruega.

Enquanto a Alemanha e outros países europeus encontram-se em posição frágil, devido à dependência do gás e do petróleo russo, o jogo do “DragonBear” vai se desenvolvendo. Isso porque, Rússia e China se unem para construir um novo gasoduto, o projeto “Power of Siberia-2”. Devemos lembrar que, em 2019, foi inaugurado o “Power of Siberia-1”. Portanto, antes da invasão da Ucrânia. O “Power of Sibéria-2” traria a ampliação do gás em direção ao principal parceiro econômico russo, a China, que tem um interesse imenso nesse projeto.

Além disso, duplicaria as exportações de gás para esse país, atravessando a Mongólia e entrando nas regiões industriais carentes de energia, próximas a Pequim. Por um lado, do ponto de vista geopolítico, isso dá à Gazprom – empresa de gás russo – a opção de diversificar seu portfólio de energia para longe da Europa; por outro, a Rússia amplia o fornecimento de gás para um mercado fora desse continente.

De imediato, é importante forcarmos nas sanções financeiras impostas à Rússia. As maiores bandeiras de cartões, Visa e Mastercard, anunciaram a suspensão de uso no país. A American Express e o Paypal também declararam que estão fora de operação por lá. A princípio, os bancos russos precisariam utilizar uma rede alternativa de pagamento – aliás uma delas, a UnionPay já se encontra em plena operação na Rússia –, possibilitando aos clientes dos cartões norte-americanos mudarem de bandeira. Dá pra perceber que a Rússia (The Bear) se preparou para essa situação, contando mais uma vez com a China (The Dragon), sua parceira.

A bandeira chinesa, UnionPay, criada em 2013, por exemplo, é uma empresa de gestão de pagamentos; emite cartões bancários e lida com operações relacionadas a transações bancárias. Com reconhecimento internacional, encontra-se em mais de 180 países. Essa empresa e a rede russa Mir vão substituir as bandeiras norte-americanas. Na realidade, a UnionPay, com a sanção imposta, principalmente pelas empresas Visa e Mastercard, adentra-se a um mercado livre de concorrência, efeitos do jogo do “DragonBear”.

Na tentativa de sufocar o sistema financeiro da Rússia, em meio às sanções aparentemente mais drásticas, podemos citar a retirada do país da Society for Worldwide Interbank Financial Telecommunication (Swift). Essa sociedade cooperativa internacional belga foi fundada no ano 1973 para fornecer mensagens seguras para pagamentos internacionais. Conta, atualmente, com cerca de 11.000 bancos membros, de 200 países. Por meio de um sistema de mensagens, instrui e monitora pagamentos interbancários e financiamento comercial, integrados aos sistemas de processamento dos bancos em todo o mundo. A Swift lida com aproximadamente 40 milhões de mensagens de pagamento por dia.

Mesmo que a retirada da Rússia da Swift possa parecer uma medida de grande impacto, é, na realidade, menos eficaz do que a maioria das coberturas midiáticas imaginam. Para entender o efeito limitado dessa sanção, tomemos o exemplo das sanções contra o Irã. Os bancos iranianos foram expulsos da Swift em 2012, todavia, essa exclusão não impediu esses bancos iranianos de continuarem suas operações, uma vez que organizam e realizam pagamentos dentro e fora do Irã, através de bancos de outros países dispostos a obterem benefícios nessas transações.

Pode-se mencionar ainda outro exemplo de pouca eficácia da Swift. A sanção afeta somente pagamentos de menor valor, como aqueles em cadeias de suprimentos de pequenas empresas, uma vez que essa sociedade torna o processamento de pagamentos mais barato e fácil, o que atrai esse mercado. Por sua vez, uma empresa de grande porte como a Gazprom, ao negociar compra e venda de petróleo ou gás, realiza pagamentos, em euro ou dólar americano, diretamente em contas bancárias mantidas por ela mesma. Dessa forma, se a intenção das sanções é a de bloquear os pagamentos do gás russo, o meio não é a Swift, e sim sanções diretas a bancos onde a Gazprom mantém contas.

Ainda resta à Rússia outra alternativa para se proteger dessa  sanção de retirada da Swift: recorrer ao jogo do “DragonBear”. A China tem, desde 2015, um sistema de pagamentos próprio para transações na moeda chinesa: o China Interbank Payments System (CIPS) e nesse caso específico, o país tem um grande interesse em atrair transações russas para o CIPS, pois se fortaleceria no mercado financeiro.

Ycarim Melgaço | Foto: Fernando Leite / Jornal Opção

Diante disso, percebemos que a invasão russa à Ucrânia envolve, nesse jogo de forças – interesses de poder do Ocidente, com a OTAN; e da Rússia, com sua forte aliada, a China, por meio do uso do jogo do “DragonBear”. Percebe-se, nesse contexto, que as sanções econômico-financeiras do mundo ocidental já haviam sido previamente calculadas pelos russos. Lamentável que os interesses econômicos e financeiros se sobrepõem ao sofrimento de milhares de pessoas inocentes com a perda de suas casas e mortes.

* Ycarim Melgaço é professor no Programa de Mestrado em Desenvolvimento e Planejamento Territorial (MDPT-PUCGO), Doutor em Geografia (USP) e pós-doc em Economia (Unicamp)

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