Do Leitor
Do Leitor

A economia brasileira entra em recessão técnica

Por Everaldo Leite, economista.

Com a segunda retração trimestral consecutiva do PIB (-0,1%), o Brasil entrou em recessão técnica. Pode parecer um quadro assustador, já que as previsões iniciais eram melhores para este ano. Todavia, devemos ver essa performance ruim apenas como um espirro dentro de um contexto de pneumonia (esta sim, apavorante).

A expressão “recessão” assombra, porque sua persistência pode levar à depressão, que seria o que chamamos popularmente de “fundo do poço”. Não é o caso, por enquanto. O quarto trimestre deverá apresentar um resultado positivo, como efeito sazonal do maior consumo de final de ano, festas e décimo terceiro salário.

Sairemos, então, provisoriamente, do quadro técnico de recessão a partir do resultado do último trimestre. Aliás, com a possibilidade da China voltar a comprar carne bovina brasileira, janeiro poderá até ser um mês de otimismo para o mercado exportador. Os produtores, pelo menos, estão esperançosos.

O resultado do PIB do Brasil no 3º trimestre foi o 26º num ranking de 33 países, medido pela Austin Rating, e ficou atrás de outras economias latino-americanas, como Colômbia (5,7%), Chile (4,9%) e Peru (3,6%). O que aponta para os sérios equívocos do país atinentes às reações da política econômica face ao impacto pandêmico da Covid-19.

De fato, não houve gestão correta em diversos momentos e o biênio 2020/21 irá resultar efetivamente num desempenho nulo e, em relação ao fraco crescimento de 2019, um resultado negativo. Apesar de ser um ano eleitoral (quando há muitos gastos), o ano de 2022 também não promete ser um período alvissareiro para a economia, continuaremos num estado grave e com alta propensão a novas recessões.

É fácil entender. A desaceleração da economia se deve em especial à anemia do consumo, que ainda se encontra (desde 2015) sob o choque da queda do rendimento médio, do forte crescimento do desemprego, do aumento das barreiras ao crédito e da explosão inflacionária. Essa dinâmica frouxa do consumo levou a uma interrupção relativa dos investimentos reais.

Empresários cujas atividades atendem o mercado interno (a enorme maioria) estão atuando sob uma incerteza radical, o nosso horizonte econômico está completamente nublado. Nem mesmo as reformas, com todas as suas promessas, abrem um espaço de expectativa que faça diminuir os riscos de investimento. Insuficiência de investimentos faz com que a taxa de desemprego continue alta, redundando em baixo consumo agregado.

Preocupado com ajuste fiscal para reduzir gastos, o governo somente robustece a gravidade que empurra a economia para baixo ao lançar mão de aumento de juros como ferramenta de ataque a uma inflação de oferta. Ora, o escasso consumo e os juros apontados para cima são o melhor receituário para gerar recessões em um país em crise. Em 2022, mesmo que cheguemos ao fim da pandemia, nada evidencia mudanças, portanto, o resultado será o mesmo.

Everaldo Leite é economista

Economista Everaldo Leite

Uma resposta para “A economia brasileira entra em recessão técnica”

  1. Avatar luciano Ferreira DA SILVA disse:

    Excelente artigo! É uma honra ler textos de um economista que tem uma visão crítica tão diferenciada, consegue fugir do senso comum e apresentar ótimas análises.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.