Falta à mídia discutir a sério a crise da escassez de água em Goiânia e em Goiás¹

Se não debater o problema da água com responsabilidade, os jornalistas podem produzir sensacionalismo, mas não notícias verdadeiras e amplas

Marcelo Safadi

Apesar das informações disponíveis, a imprensa goiana se nega a fornecer a população uma real posição sobre nossa crise hídrica. Ocupada em apontar culpados evita abordar os temas mais insólitos do problema.

“Onde esta minha água” é o título de uma das campanhas feitas pela mídia para criar o fato sensacional. Há exatos 18 anos vivi esta situação na pele, quando era o gestor dos recursos hídricos do Estado e a água do João Leite baixou a níveis insustentáveis. Naquela época, por mais que afirmasse que o problema da água no Estado e no Brasil era o regime de chuvas e a total falta de compreensão da sociedade sobre sua condição instável, a mídia não se ocupou em dar a informação completa. Tentei várias vezes avisar sobre o problema da irrigação, do uso da água e da capacidade urbana, da capacidade populacional dos territórios baseada na oferta de água. Alguns jornalistas da época me acusaram de xiita. Era aquele rebelde que estava contra o agronegócio e dava desculpas esfarrapadas para a incompetência do Estado.

Hoje a história se repete. Ao invés de informar a população que os ciclos hídricos são instáveis, que a temperatura das nossas áreas urbanas tem afastado as chuvas de nossas regiões metropolitanas. Que aquelas antigas chuvas finas e contínuas não existem mais, aquelas famosas invernadas… Não esclarecemos que as águas superficiais estão em declínio ano a ano, fruto da ocupação do solo. Não esclarecemos que a perfuração dos poços artesianos por qualquer um compromete os poços profundos de caráter público.

Mas por que falar isto se isto é a obrigação do governo? Porque se a mídia não informa de forma completa, o gestor público não terá apoio popular para enfrentar os interesses econômicos. Se a mídia não informar que em Goiânia e municípios vizinhos o número de lotes vazios somados aos ocupados já ocupam todos nossos recursos hídricos (isto está no relatório da região metropolitana que apresentamos mais de 20 vezes nos últimos quatro meses). Mas isto a mídia não pode dizer, pois quem paga a conta é o mercado imobiliário e o agronegócio.

Não se trata aqui de tirar a culpa do governo, mas se nós do governo que atuamos nas áreas ambientais não tivermos a informação correta na mídia não teremos respaldo político. Por que será que os recursos das áreas ambientais são sempre diminuídos? Porque a mídia, ao invés de esclarecer, acusa a área ambiental. Me desculpem, amigos jornalistas, mas poucos de vocês tem tratado os assuntos de maneira responsável. E por estes motivos já tenho data pra deixar as atividades públicas, pois nesta sociedade não existe mérito nem valor. O que vale é o discurso inflamado dos hipócritas.

Nota

Marcelo Safadi, que ocupa uma superintendência na Secretaria das Cidades e Meio Ambiente, publicou o texto no Facebook. Por julgá-lo de interesse público, o Jornal Opção o transcreve, acrescentando um título e um subtítulo.

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Adalberto Araújo

Belíssimo artigo. De uma lucidez impressionante, sem contar o escancaramento da verdade que muitos odeiam ouvir. Parabéns!