Não reclamem do Valdemiro. Ele só promete entregar o que de fato as pessoas querem de Deus

O fato é que um contingente cada vez maior de fiéis não está atrás da essência da mensagem cristã

A camisa ensanguentada que virou objeto de culto para os seguidores de Valdemiro Santiago | Foto: Reprodução/Facebook

Quem nasceu para fazer dinheiro morre (ou quase) fazendo dinheiro. A facada que o pastor-bispo-milagreiro Valdemiro Santiago tomou rendeu-lhe dividendos. Para quem o segue, foi a prova de que ele é mais forte que o poder do mal, que o diabo não pode vencê-lo. E sua camisa ensanguentada ganhou, em sua igreja, poderes de Santo Sudário.

Exploração da fé alheia não é novidade. Uma das grandes batalhas de Jesus foi contra aqueles que, por meio da religião, submetiam os mais carentes de amor e de instrução. Em meio a seus sermões e durante suas pregações e caminhadas, Ele já denunciava (e combatia) os fariseus e os mercadores da religião. Basta conferir o que aprontou quando entrou no templo de Jerusalém e viu o local transformado em feira de oferendas.

A própria Bíblia diz que o povo (de Deus) se perde por falta de conhecimento. É uma passagem das mais conhecidas do livro de Oseias. Como o texto é “aberto”, há um esforço de criar várias formas de interpretá-lo. Mas que tal uma bem simples? Vamos lá: aqueles que creem no Deus das Escrituras – no caso da época, os hebreus, e no nosso atual, os cristãos – acabam sendo engabelados por conta de sua deficiência para compreender o sentido da própria fé.

E o que prometem hoje os Valdemiros da vida? Que basta ter fé para conseguir seus objetivos. Quais objetivos? Veja qualquer pregação do próprio ou de seus coleguinhas de programas de TV e a resposta está lá: bens materiais, desde um emprego até uma cura, desde um novo amor a uma ascensão profissional, de um carro novo a uma mansão. O etéreo, o místico, o sobrenatural, não faz parte dos discursos dos religiosos midiáticos.

Por quê? É que eles, espertos que são, sabem que as pessoas querem mesmo é o “aqui” e o “agora”. Elas estão nos templos ou em frente à televisão para receber uma graça que possam usar em vida – mesmo porque os pregadores já lhes dizem que basta a fé para estar no paraíso depois de partir deste mundo.

Ora, já que o céu está garantido, por que não viver também o paraíso em terra? É isso que os fiéis buscam nesses cultos “temáticos”, evangélicos ou católicos. É “a noite do livramento”, “a campanha do milagre urgente”, o “jejum da restauração”, a “fogueira santa de Israel”. E, em meio a tudo isso, uma série de produtos milagrosos e livros inspirados (geralmente do celebrante ou de algum amigo) é vendida como santos graais. Deixemos por hoje de falar da coação para recebimento de ofertas e dízimos cuja fronteira com o estelionato só se faz pela blindagem – inclusive legal – das igrejas.

O fato é que um contingente cada vez maior de pretensos fiéis não está atrás da essência da mensagem cristã. E não seria difícil descobri-la: basta ler qualquer um dos Evangelhos para entender que o mote é muito mais o gozo na vida eterna do que o paraíso na vida terrena. Por isso é que basicamente tudo (referências a ofertas, dízimos, costumes, proibições etc.) que os aproveitadores da fé alheia buscam na Bíblia para arrebanhar, aprisionar e arrecadar o que puder de suas vítimas está no Antigo Testamento. Ou seja, não tem nessas falas uma palavra sequer que possa ser atribuída a Jesus. Forjam-no onde Ele não está. Conseguem a proeza paradoxal de criar evangélicos sem Evangelho, cristãos sem Cristo.

A teologia da prosperidade prospera porque há quem acredite que seu sucesso financeiro, profissional ou familiar é “bênção de Deus”. Na prática, o que esse tipo de crença comete é uma aberração da religiosidade, prezando o individualismo e desprezando qualquer senso comunitário. Por ironia, num templo gigantesco, onde milhares deveriam estar reunidos por uma finalidade comum (o crescimento espiritual) buscada em conjunto, ali uma turba formada por indivíduos que correm apenas atrás de sua graça pessoal. Não lhes interessam nem os perturbam o drama dos demais.

O que milagreiros como Valdemiro Santiago sabem fazer de melhor é captar, da forma mais eficaz, essa sanha individualista dos tempos atuais. No cristianismo, o vinho da Santa Ceia vira o sangue de Jesus a ser derramado por todos para o perdão dos pecados. Na versão valdemiresca, o sangue dele próprio, exposto pelas facadas de um perturbado mental, é tornado objeto de culto e vira uma forma de ganhar mais dinheiro.

Não tem a ver com Jesus, tem a ver com Midas. E, quem tiver interesse, busque o triste fim da história desse rei que transformava em ouro tudo o que tocava.

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