Desocupação deixa rastro de destruição e famílias sem abrigo em Goiânia

Jornal Opção presenciou cenário de caos e desespero de dezenas de pessoas que foram retiradas do local pela prefeitura. Moradores relatam violência, mas Paço nega

Moradora relata desespero durante desocupação | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Desocupação de uma área pública pela Prefeitura de Goiânia, nesta terça-feira (10/1), deixou rastro de destruição no Setor Parque Atheneu, na Região Leste da capital, e diversas famílias desabrigadas. As casas construídas de forma improvisada no local foram demolidas e incendiadas pelos moradores em meio a ação da Guarda Civil Metropolitana. O Paço municipal informa que a região será destinada à habitação social.

O Jornal Opção foi até o local durante a tarde e presenciou o cenário de caos e desespero das famílias, que ainda tentavam salvar parte de seus pertences. Moradores relataram agressões por parte dos guardas civis, como socos e pontapés. Conforme a versão dos ocupantes, a corporação só teria recuado após a chegada da imprensa.

Líder do grupo de famílias, Simei da Silva durante entrevista ao Jornal Opção | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Simei da Silva, identificado como líder do grupo de famílias, chegou a ser preso após reagir à ação da Guarda, mas acabou liberado ainda na Central de Flagrantes da Polícia Civil. À reportagem, acompanhado de sua esposa, o pedreiro reforçou a indignação e denunciou a antiga gestão da Secretaria Municipal de Planejamento e Urbanismo (Seplahn) e o então secretário Sebastião Juruna de descumprir um acordo firmado com o grupo.

Segundo ele, a administração municipal teria se comprometido a assinar um termo em que doaria lotes a 80 famílias, mas recuou da decisão sem comunicá-los. “Ele chegou a enviar uma lista com os nomes das 80 famílias. Passamos o Natal em paz, só que ele já tinha deixado uma ordem de desocupação antes de sair. Ordem que o Agenor Mariano [novo titular da Seplahn] não queria assinar, mas, de última hora, concordou e passou por cima de tudo”, contou.

Em nota, Sebastião Juruna, por sua vez, negou que tenha fechado qualquer acordo com o grupo e disse que sempre procurou diálogo com as famílias, desde que a área fosse desocupada primeiro. Segundo o ex-secretário, os próprios ocupantes levaram a ele a lista de nomes dos beneficiados com a regularização de posse, mas a relação não foi acatada pela gestão, que continuou aguardando a desobstrução da área.

Durante entrevista, Simei da Silva também lamentou e condenou a ação da Guarda Civil Metropolitana. Sem lugar para ir, Simei conta que pretende acampar em frente ao Paço Municipal, localizado no Parque Lozandes, na capital, em forma de protesto e para garantir o cumprimento da suposta promessa feita pela gestão anterior às 80 famílias.

A ação cumprida pela Guarda Civil foi acompanhada pelo Conselho Tutelar da capital, que encaminhou parte dos menores a abrigos. Algumas famílias conseguiram ser acolhidas, mas, enquanto a reportagem ainda estava no local, outras dezenas aguardavam sem saber para onde ir.

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“Ação pacífica”

Em entrevista ao Jornal Opção, o representante da Guarda Civil Metropolitana José Pires informou que a ação em apoio à determinação da prefeitura foi realizada de forma pacífica, até que parte dos moradores teriam resolvido resistir à desocupação. Quanto à prisão do líder dos ocupantes, Pires informou que Simei da Silva começou a incentivar as famílias a agir de forma violenta e, inclusive, teria partido para cima dos guardas e do restante da equipe enviada pelo Paço. “Não houve exageros”, garantiu Pires, quando questionado pela reportagem.

A versão é confirmada pelo superintendente de Habitação e Regularização Fundiária da Prefeitura de Goiânia, Ronaldo Vieira. De acordo com ele, a desocupação ocorreu “em paz” e até se surpreendeu já que, segundo ele, “o pessoal aceitou bem a situação”. Segundo Ronaldo, o Paço possui para a região do Parque Atheneu planos de construção de “moradias dignas” e que as famílias que foram alvos da desocupação acabavam por “atrapalhar o projeto maior”.

“É a terceira ou quarta vez que é preciso retirá-los do local. Precisamos cuidar do patrimônio municipal para que ele tenha a destinação correta. Assumimos recentemente e temos que ir atrás dos recursos, mas vamos construir o máximo possível de moradias. Meu foco não é só retirar ocupações irregulares, mas garantir a destinação correta”, reforçou.

Quanto ao suposto acordo previamente firmado entre o ex-secretário Sebastião Juruna e as famílias, o superintende explica que todas já estão no cadastro da prefeitura, mas pondera que existem outros 20 mil goianienses que também aguardam por moradia.