“50 Tons de Cinza” da vida real: conheça o (promissor) mercado erótico de Goiânia

Após lançamento do livro, número de vendas subiu cerca de 25%. Expectativa é que o longa, sucesso de bilheteria, alavanque comércio de itens da linha sadomasoquista leve

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Produtos da linha sadomasoquista da loja “Flora Sex Shop”. “Com os livros e filmes falado de produtos eróticos, as pessoas vem mais aos sex shops”, disse dono da loja, Omar Joséa / Foto: Fernando Leite/ Jornal Opção

O mercado de produtos eróticos — sensuais, como tem sido chamado — mostra ser altamente lucrativo e em expansão no Brasil. O País é sede, por exemplo, da maior feira de produtos de sex shop da América Latina, a Erótika Fair, que terá a 22ª edição no próximo mês.

E o lançamento do filme “50 Tons de Cinza”, inspirado no best-seller homônimo — parte de uma trilogia que ultrapassou a marca de 100 milhões de cópias vendidas– veio com expectativa positiva por parte do segmento.

O longa, que desbancou até Matrix Revolutions (2003) nas bilheterias, tendo arrecadado US$ 158 milhões no final de semana de estreia, no Brasil já foi visto por 1,2 milhão de pessoas. Nos EUA, as empresas já perceberam os frutos da ampla divulgação da estreia do longa, conforme divulgou a BBC.

Produtos sadomasoquistas “baunilhas” (leves) foram amplamente produzidos, com alguns lançamentos de acessórios baseados na série, como os produtos “Cinquenta Tons de Prazer”, da fabricante Intt. A própria Erótika Fair terá um espaço temático dedicado ao filme 50 Tons de Cinza.

Mordaça bola para sadomasoquismo / Foto: Fernando Leite/ Jornal Opção

Mordaça bola para sadomasoquismo da loja “Santa do Pau Oco” / Foto: Fernando Leite/ Jornal Opção

Em Goiás não é diferente. Por mais que a expectativa de venda ainda não tenha sido alcançada — até porque o filme foi lançado há pouco mais de uma semana –, empresários goianos do ramo de produtos sensuais têm investido na linha de itens como os retratados na série de sucesso, com a esperança de alavancarem os lucros.

O mercado de sadomasoquismo é amplo, como explica a dona da loja “Santa do Pau Oco”, Ana Márcia Carvalho. Com clientela fiel na loja que existe há nove anos, a empresária garante que existe um público grande interessado em produtos sadomasoquistas, que vão dos mais leves a outros mais pesados. “Os que gostam compram muito, e pedem vários produtos por encomenda”, disse mostrando um catálogo de 5 mil itens.

Ela também aproveitou a trilogia “50 Tons de Cinza” para impulsionar venda de produtos sado mais leves, como chicotes e vendas. Com postagens nas redes sociais desses itens ao lado dos livros de E.L James, ela explica que coloca desta forma para que os clientes interessados percebam que se trata dos mesmos acessórios.

Sobre os itens inspirados em “50 Tons de Cinza”, a Abeme divulgou que os mais vendidos são, em primeiro lugar, algema de metal, em segundo lugar, venda em couro, e em terceiro lugar, a bolinha de pompoar. O chicote de couro vem em quarto lugar,  cosméticos sensuais em quinto e chibata em sexto.

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Foto: Fernando Leite/ Jornal Opção

Por unanimidade, os empresários apontaram uma média de aumento de vendas em 25% dos itens da linha sado/fetiche após o lançamento do primeiro livro, em 2011. A Abeme, que espera um aumento significativo com o filme, divulgou que houve um crescimento nas vendas desses produtos em uma média de 28%, em 2013. Pesquisas do mesmo ano atestaram o crescente interesse pelos itens eróticos protagonizados nos livros, especialmente vendas, algemas e chicotes.

A Abeme divulgou em pesquisa realizada em 2014 que o melhor desempenho em vendas de algemas, máscaras e chicotes aconteceu nas lojas físicas de sex shops e boutiques sensuais, onde houve de alguma forma a exposição do livro em conjunto com os produtos.

Sobre esta questão, a associação explica que há relatos de que com a popularidade do livro, não houve necessariamente crescimento nas vendas dos itens sado, mas sim de outros produtos, como cosméticos.

Algumas marcas nacionais estão investindo pesado não apenas em produtos, mas também em marketing, como o caso de um revendedor de produtos da empresa Hot Flowers em Minas Gerais. Nas sessões de estreia do “50 Tons de Cinza”, Cristian Ferreira fez uma campanha junto a uma rede de cinemas, em que ele distribuiu produtos eróticos e sorteou kits nas salas de cinema. “Foi um sucesso”, garantiu.

A diretora comercial da Hot Flowers, Susi Saga, explicou à reportagem que a empresa já trabalha com varios acessórios da linha sadomasoquista, e que espera um aumento significativo no número de venda com o sucesso de “50 Tons de Cinza” agora nos cinemas.

Empresária Ana Márcia Carvalho, da loja "Santa do Pau Oco", apresentando catálogo com mais de 5 mil itens, incluindo produtos sadomasoquistas / Foto: Fernando Leite/ Jornal Opção

Empresária Ana Márcia Carvalho, da loja “Santa do Pau Oco”, apresentando catálogo com mais de 5 mil itens, incluindo produtos sadomasoquistas / Foto: Fernando Leite/ Jornal Opção

Dentro desta expectativa, irão produzir vendas, algemas, coleiras, plugs entre outros produtos que aparecem no longa. “Focamos mais em trazer esses produtos que se encaixam dentro do filme e lançamos dois produtos feitos de cetim que são utilizados no filme”, afirma.

O revendedor dos produtos Hot Flowers em Goiás, Alexandre Vioto, há 13 anos no ramo, explicou que com o sucesso do primeiro livro da série de E.L James, foi perceptível o aumento de aproximadamente 25% no número de vendas de produtos eróticos especificamente da linha “leve” sadomasoquista.

Alexandre garante que lançamento de livros e filmes que retratam sex shops tem ajudado no aumento de vendas no geral. Com expectativa que a procura por produtos sado cresça bastante, como foi no caso do filme “De pernas pro ar”, quando percebeu aumento de 40%, Alexandre explica que aguarda o lançamento da linha sadomasoquista da empresa que representa.

Alexandre lembra do filme nacional estrelado por Ingrid Guimarães, “De pernas pro ar”, sucesso de bilheteria em 2011, quando houve um aumento no número de vendas de cerca de 40% — além do volume de consultoras ter tido uma alta de 42%, conforme Abeme.

Dono da Flora Sex Shop, Omar José da Silva, de 38 anos, garante já ter percebido um leve aumento de vendas, por mais que a estreia do filme ainda seja recente. A vendedora que trabalha para o empresário, Michelly Borges, afirmou que durante a semana várias mulheres têm procurado os produtos retratados no filme. “Hoje mesmo veio uma moça aqui”, afirmou.

Omar, que garante que várias pessoas vão à loja procurar produtos especificamente por causa do filme, irá investir em itens ligados ao filme. Conforme empresário, um novo catálogo está chegando com nomes parecidos com o filme, como “50 Tons de Prazer” e “50 Tons de Desejo”.

A empresa Erika Toys, por exemplo, está com vários kits relacionados ao filme. “50 Tons de Prazer” e “Kit Sr. Grey”, que inclui até uma corda. A fabricante INTT também investiu pesado, e além dos kits “50 Tons de Prazer”, também está produzindo cosméticos, como vibradores e extensores de orgasmo.

Pseudo Sadomasoquista
Chibata, chicote, algemas, mordaça, entre outros produtos sadomasoquistas "baunilha" / Foto: Fernando Lite/ Jornal Opção

Chibata, chicote, algemas, mordaça, entre outros produtos sadomasoquistas “baunilha”. Loja “Santa do Pau Oco” / Foto: Fernando Lite/ Jornal Opção

A busca pelo prazer sexual por meio da dor. O sadomasoquismo utiliza de práticas que vão muito além do que é mostrado na trilogia romântica “50 Tons de Cinza”. Mesmo porque a intenção da autora, fã da série “Crepúsculo”, não era falar de sadomasoquismo, mas sim de um romance. No filme, o galã Christian Grey mostra para a mocinha Anastasia como funciona a prática.

O empresário Alexandre Vioto explica que os acessórios sadomasoquistas são muito mais pesados do que os citados na trilogia de sucesso, ou no filme. Conforme Alexandre, a utilização de chicote, algema, venda, é mais na intenção de explorar da sensualidade, e menos da dor. O representante da Hot Flowers em Goiás explica que produtos sadomasoquistas são vendidos geralmente em lojas especializadas, em um mercado mais abrangente no Rio de Janeiro e em São Paulo.

A presidente da Abeme, Paula Aguiar, compactua com esse pensamento, e diz que a grande maioria dos empresária confirma o comercio de produtos mais “baunilha” do que artigos de couro que infringem algum tipo de dor. “Isto confirma o caráter lúdico e excitante da literatura, sendo que o produto no livro é mais ingrediente para uma brincadeira erótica do que incentivador de praticas sadomasoquistas”, atesta.

Conforme pesquisa da associação, 80% dos itens comercializados são algemas, máscaras, vendas, chibatas e chicotes feitos dos mais diversos materiais, de tecidos macios a couro e metal, no entanto, com caráter fantasioso.

Quebra de tabus
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Foto: Fernando Leite/ Jornal Opção

Empresários goianos concordam que com livros e produções cinematográficas de sucesso falando de sexo e produtos sensuais, os tabus relacionados a itens que incrementam relacionamentos vão sendo quebrados.

Conforme a presidente da Abeme, Paulo Aguiar, independente de críticas, a trilogia abriu espaço para debater principalmente o tabu relacionado ao sadomasoquismo, percebendo que são muitas formas de amar, de sentir desejo e prazer.

O empresário goiano Omar José da Silva acredita que o mercado erótico ainda possui muito tabu, mas com o passar do tempo as pessoas estão ficando menos preconceituosas. “O filme ‘De pernas pro ar’, por exemplo, foi muito importante para o mercado, porque as pessoas começaram a procurar sem medo os sex shops”, pontuou.

Alexandre Vioto também vê as produções como incentivo para as pessoas procurarem produtos eróticos. Segundo empresário, homens e mulheres começaram a se sentir mais confortáveis com a ideia de entrar em uma loja que vende acessórios para o sexo. “Público vem cada vez com menos receio”, e conclui: “O mercado agradece.”

Quase lá

Talvez a crise no País, além do feriado de Carnaval, possa ter prejudicado um maior aumento de vendas após o lançamento do filme. É isso que pensam os empresários goianos entrevistados.

Ana Márcia Carvalho, da “Santa do Pau Oco”, é mais pessimista do que Alexandre Vioto e Omar José. Ela garante que até o momento não identificou uma procura maior por produtos mostrados no filme, e não acredita que haverá aumento significativo. “Alguns clientes até comentam que não gostaram do que viram no filme”, afirma.

Com o sucesso do primeiro livro “50 Tons de Cinza” — e subsequentemente os outros dois — a empresária percebeu aumento de vendas em 25% de produtos como algema, chicote, chibata, venda pros olhos.

Empresária Elinete Cabral, em loja "Super Sexy Lingerie e Sex Shop. Ela iniciou no ramo para fugir do estresse de seu antigo trabalho, e assim como o outros comerciantes, não percebeu aumento de vendas após o filme "50 Tons de Cinza" / Foto: Fernando Leite/ Jornal Opção

Empresária Elinete Cabral, em loja “Super Sexy Lingerie e Sex Shop. Ela iniciou no ramo para fugir do estresse de seu antigo trabalho, e assim como o outros comerciantes, não percebeu aumento de vendas após o filme “50 Tons de Cinza” / Foto: Fernando Leite/ Jornal Opção

A vendedora Camila Costa, 29 anos, da loja “Art Sexy”, explica que não conseguiu identificar também um aumento de vendas após lançamento do filme – nem mesmo com o início da ampla divulgação do longa que arrecadou no final de semana de estreia mais de US$ 168 milhões. “No livro sentimos um aumento, mas com o filme… muita gente vem aqui e fala que não gostou”, diz a vendedora.

Elinete Cabral, dona da loja Super Sexy Lingierie e Sex Shop que abriu a quase dois anos, também garantiu à reportagem não ter percebido aumento de venda de produtos da linha sadomasoquista.

A empresária, que considera o ramo muito menos estressante — principalmente para ela que trabalhava em uma seguradora de veículos — explicou que vende mais cosméticos, em especial os direcionados para sexo anal. Algo também comentado por Alexandre Vioto, que afirma que há anos esses são os produtos mais vendidos.

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