A saga do bambino que quase foi morto na guerra e virou o “Rei do Biscoito” no Brasil

O ítalo-brasileiro Nestore Scodro fundou, com o irmão, em 1953, a fábrica Mabel, que depois se instalou em Goiás; livro que conta a história terá lançamento no dia 16, às 19h, na Livraria Saraiva do Shopping Flamboyant, em Goiânia

Nestore Scodro formou-se em violino na Itália, mas não conseguiu exercer o ofício como concertista de música clássica no Brasil | Foto: Fernando Leite / Jornal Opção

Cezar Santos

Há pessoas que, en­quanto tiverem força física e lucidez, estarão realizando coisas, não importa a idade que tenham. É o caso de Nestore Scodro. Esse afã de realizar o levou, com o irmão mais velho, Udelio, a fundar, em 1953, em Ribeirão Preto (SP), a empresa Mabel, fabricante de biscoitos, que se tornaria uma gigante do ramo.

Italianos de Treviso, no Norte da Itália, os irmãos Scodro vieram ao Brasil em busca de “fazer a Amé­rica”, depois da Segunda Guerra Mun­dial. Udelio chegou primeiro; Nestore veio depois. Trabalhavam em uma fábrica de linhas (equipamentos) para biscoitos. Poucos anos depois, saíram e montaram seu próprio negócio, que viria a ser uma das maiores indústrias brasileiras no ramo de alimentos e que depois foi diversificada.

Essa é a história que Nestore con­ta no livro “O Bom e Velho Jeito de Empreender” (Gente Editora, 256 páginas), cujo subtítulo é: Co­nhe­ça as lições surpreendentes de quem fundou a Mabel, um império bi­lionário e uma das marcas mais for­tes e tradicionais da indústria brasileira.

Mas, aos 86 anos, porque Nestore Scodro se deu ao trabalho de rememorar e colocar em letra de fôrma sua saga de imigrante empreendedor que “fez” o Brasil?

Ele conta que mui­tas pessoas perguntavam por que ele não escrevia um livro. Al­guns chegavam a dizer que ele ti­nha a “obrigação” de fazê-lo, pela sua vida de luta e de realizações, o que poderia incentivar outras pes­soas. O argumento o convenceu. “Se um só jovem fizer algo inspirado no meu livro, já valerá a pena.”

Nestore contratou a jornalista goiana Raquel Pinho, orientou-a sobre como queria o texto. “Eu não queria um texto demasiado descritivo, chato. Eu mesmo, quando pego um livro com excessos de descrição, com muitas minúcias, já largo. Acho que saiu muito bom, um livro de narrativa dinâmica. Eu gostei.”

O empresário fala basicamente de sua vida e da construção da fá­bri­ca Mabel, duas his­tórias que se en­trelaçam. “Par­to de um pouco da minha infância na Itália, a vinda para o Brasil, em 1949, e a minha vida a partir daí.”

Nestore chegou ao Brasil aos 19 anos. A família, de Treviso, cidade no Norte da Itália, pertinho de Veneza, tinha três filhos, dois ho­mens e uma mulher. Curio­sa­mente, a família não tinha negócios com alimentos. “A única coisa que fazíamos com biscoito era comê-los”, diz.

Depois da guerra, com a Itália arrasada, o irmão mais velho, Udelio, veio para o Brasil, mais precisamente para São Paulo, na ânsia de “fazer” a América, como se dizia. “Udelio me escrevia, me chamando para vir. Vim e consegui em­pre­go na mesma fábrica onde ele trabalhava, uma in­dústria de fazia conjuntos grandes para fabricação de biscoitos.”

Mas o sonho de Nestore não era trabalhar em fábrica. Tinha estudado música por quatro anos no Conservatório de Ve­neza, uma universidade de música, a melhor da Itália para instrumentos de corda. O jovem italiano tinha se formado em violino, tocava música clássica com nível de concertista. Fã do virtuose do instrumento Niccolò Paganini (1782-1840), Nestore queria exercer profissionalmente no seu novo país a sua maestria no violino.

“Tive a ilusão de me tornar um músico no Brasil, mas não encontrei espaço para trabalhar com música clássica. Aliás, até fui parar na melhor orquestra que havia no País, do Sylvio Maz­zucca, mas era orquestra de baile, muito afamada, tanto que fazíamos bailes no Brasil inteiro. Mas não era aquilo que eu queria.”

Nestore conta que sempre teve tino empreendedor, uma característica da família. Na fábrica de linhas para biscoitos, os donos contrataram técnicos italianos, incluindo os dois irmãos, para fabricar fornos elétricos, que não havia no Brasil na época. Aí o instinto empreendedor aflorou de vez.

Nestore, Udelio e mais dois colegas saíram e montaram uma fábrica de fornos elétricos para padarias, para fabricação de biscoitos. Foram montar essa fábrica em Juiz de Fora (MG). O mercado não estava muito favorável e os jovens empreendedores resolveram instalar uma fábrica de biscoito em São Paulo. A ideia era fazê-la funcionar e depois vendê-la.

“Fabricar biscoito não era o nosso negócio, e tivemos muita dificuldade, tínhamos pouco dinheiro. E pra piorar, havia falta de energia elétrica. A Light [empresa fornecedora de energia elétrica no Estado] não dispunha de energia para todos os lugares. Descobrimos, então, que em Mococa [município integrante da Região Metropolitana de Ribeirão Preto (SP)] tinha energia suficiente. Começamos a fábrica lá e depois, por questão de logística, nos instalamos em Ribeirão Preto.”

Iniciada com o nome de Palma, logo foi denominada Mabel, um nome muito popular na Itália. E tornou-se uma gigante que distribuía seus produtos em praticamente todo o País. Fábricas foram montadas em outros Estados.

Incentivos fiscais atraíram a fábrica da Mabel para Goiás

Os irmãos Scodro não perderiam boas oportunidades para expandir seu negócio. “Viemos para Goiás na década de 1980. Tínhamos um distribuidor em Goiâ­nia, que cuidava da região. Ele me disse que havia uma lei de incentivos no ICMS para indústrias se instalarem em Goiás”, conta Nestore, referindo-se ao Programa Fomentar, criado em 1984 pelo então governador Iris Rezende diretamente para segurar a empresa Arisco em Goiás, mas que acabou servindo para atrair outras empresas — o programa foi substituído depois pelo Produzir.

Nestore conta que em 1987 vieram pa­ra Goiânia, e ele ficou surpreso. Co­mo morador de São Paulo, quando ou­via dizer Goiânia, pensava que fosse uma cidade acanhada, “com onças e co­bras (risos)”. O empresário conta que, ao chegar, notou que a cidade era muito bem cuidada. “Muito mais que ho­je, era um jardim, percebi o quanto eu estava enganado. Compramos um terreno e ini­ci­amos a construção da fábrica. Já tí­nha­mos plantas em Ribeirão Preto (SP) e no Rio de Janeiro, muito bem constituídas. A marca estava consolidada, inclusive.”

A Mabel foi a primeira a chegar na­quele local. “Quan­do compramos o terreno em Aparecida de Goiânia, não havia nenhuma indústria ali, fomos a primeira fábrica a se instalar naquela região. Depois construímos mais duas plantas, uma em Aracaju (SE) e outra no Sul.”

De fato, o Grupo Mabel é uma potência, com atuação em diferentes áreas: administradora, investidoras, fazendas e agropecuária. Além de biscoitos, a Mabel tem fábrica de embalagens, que produz um tipo de produto único na América Latina. Tem também fábrica de condimentos de macarrão. A indústria de biscoito, que era referência da empresa, foi adquirida em novembro de 2011 pelo grupo estadunidense Pepsico.

Radicado nos EUA, Nestore continua na ativa aos 86 anos

Empresário Nestore Scodro: “Fui para os Estados Unidos para que meus filhos assumissem a direção da empresa no Brasil. Lá, eu continuei a trabalhar” | Foto: Fernando Leite / Jornal Opção

Nestore Scodro está com 86 anos. Lépido, bem-humorado, brincalhão, sua fisionomia serena, de pouquíssimas rugas, mostra a serenidade de quem está em paz com a vida e tranquilo em relação ao que fez e alerta para o que ainda poderá fazer. Sua serenidade também é fruto do casamento de 63 anos com a brasileira Maria Luiza, com quem tem três filhos: Sônia Maria, que mora na Itália, Sandro, Sérgio.

O trabalho continua sendo sua profissão de fé. “Trabalho é básico para o ser humano. O camarada que se aposenta e para de trabalhar está morto”, afirma.

Ele se mudou para os Estados Unidos (Flórida) há 18 anos. Ele achava que seus filhos tinham também que participar da empresa, ir para dentro da fábrica. “Acho muito ruim alguém criar uma estrutura empresarial sólida e depois os filhos se dedicarem a fazer teatro, a ser pintores, ou coisas assim.”

Então, chegou um momento em que o patriarca viu que os filhos estavam prontos para assumir o grupo. “Mas os diretores, distribuidores, vendedores, todo mundo da empresa queria mostrar sua capacidade ao seu Nestore, porque eu estava lá. Eu dizia que eles tinham de se reportar ao Sandro, ao Sérgio, mas não adiantava. Meus filhos eram apenas os filhos do Nestore. Isso me chateava.”

A solução: afastar-se para que sua sombra não cobrisse os filhos. Resolveu ir para os Esta­dos Unidos. Mas a mudança visava um objetivo também comercial. “Tínhamos o produto Skin­ny e fui fabricar Skinny nos Esta­dos Unidos. Após quatro anos, o Skinny era o quarto produto chip mais vendido lá.”

Depois teve de parar com a fabricação de Skinny, mas Nestore não parou de trabalhar. Passou a importar biscoitos e distribuir nos Estados Unidos. “E fui bem, colocava em grandes supermercados. Uma pena que os compradores da Mabel pararam de exportar os biscoitos, o que considero um erro, jogaram no lixo um trabalho de 15 anos.”

Atualmente, o empresário atua no ramo imobiliário. “Trabalho com compra e venda de casas. Compro, reformo, alugo, vendo. Estou no ramo imobiliário e não posso me queixar. O mercado imobiliário nos Estados Unidos já se recuperou da crise de 2008. Aliás, no Brasil é que a situação está complicada, porque os brasileiros nunca se endividaram tanto como nos últimos anos.”

Política
E o que o patriarca achou quando o filho Sandro resolveu entrar na po­lítica? Sandro fez uma carreira de sucesso, foi deputado estadual, deputado federal e chegou a disputar a Prefeitura de Goiânia. Ultima­mente, mesmo sem mandato, tornou-se um conselheiro informal do presidente Michel Temer, de quem é amigo.

“Sandro me disse que o pessoal do ramo empresarial insistia para que ele candidatasse. Eu mesmo tive alguma atuação classista. Um primo meu na Itália foi presidente da associação dos jornalistas, então há uma veia política na família. Mas eu disse ao Sandro tome cuidado.”

Nestore considera que a política exige muito da pessoa, que quase sempre acaba esquecendo família, trabalho. E o pior, afirma, é que o político é visto como ladrão. “E a maioria é mesmo, mas não são todos. Político é malvisto pela sociedade. E agora piorou muito, com essas investigações mostrando o tanto de roubalheira, de bilhões. O que fizeram com o Petrobrás é horrível.”

Falando em Lava Jato, o empresário acredita que as investigações vão melhorar a política brasileira apenas provisoriamente. Lembra que na Itália aconteceu o mesmo, com a operação Mãos Limpas, que colocou muita gente na cadeia. “O juiz Sergio Moro se inspirou no que foi feito na Itália. Mas lá durou quanto? Uns dez anos. Não digo que a situação na Itália esteja tão ruim como antes, mas… A questão é que em três ou quatro anos não se destrói uma cultura de corrupção de 200 ou 300 anos.”

Nestore ensaia uma explicação sociológica, ao lamentar a colonização portuguesa no Brasil, que segundo ele, teria forjado uma cultura mais permissiva em relação à corrupção. “Não foi uma boa influência. Se o Brasil tivesse sido colonizado pelos ingleses, seria melhor que os Estados Unidos, que enfrentam problemas climáticos sérios, têm um monte de desertos. No Brasil não tem nada disso, é um país abençoado.”

Mas, nascido na Itália, tendo feito a vida no Brasil, e hoje morando nos Estados Unidos (já adquiriu cidadania americana também), como fica o sentimento pátrio?

Nestore Scodro afirma que tem Brasil e Itália na mesma consideração. “Quando jogam as duas seleções, eu torço pelo empate. O Brasil é o País principal pra mim, claro, foi aqui que eu constituí família, fiz meus empreendimentos e tal. Mas nasci na Itália e tenho orgulho por isso.”

Soldadinho alemão quase matou o futuro empreendedor

Na Segunda Guerra Mundial, Nestore Scodro era adolescente, mas participou do conflito e chegou a dar “uns tirinhos”, como diz. Na Itália ocupada pelos alemães, havia os partigianos [Resistenza italiana ou partigiana, movimento armado baseado em estratégias de guerrilha, de oposição ao fascismo e à ocupação da Itália pela Ale­manha nazista, bem como à República Social Italiana, fundada por Benito Mussolini], que faziam reuniões na casa de Nestore.

Eram reuniões escondidas, ele lembra, porque se os alemães soubessem, reagiam com muita violência. “Eles instituíram uma lei que quando encontrassem um alemão morto, pegavam os dez primeiros italianos que estivessem passando na rua, não importasse se fossem mulheres, velhos e crianças, levavam ao paredão e matavam.”

Nestore conta que mesmo sendo pouco mais que criança, participou da movimentação dos partigianos. O auge desse movimento de resistência se deu em 1944 e 1945, no final da guerra.
Ele conta um acontecimento que continua vívido em sua memória de “gue­rrilheiro” partigiano. Finalzinho da guerra, os alemães já não aguentavam mais lutar. Nestore foi a uma lavanderia no quintal e viu um prussiano (soldado alemão) que lhe chamou e disse que chamasse um partigiano que ele queria se entregar.

“Tinha uns cinco ou seis partigiani, armados, que cercaram o homem, eu falei não precisa nada disso, ele está desarmado. Tremen­do, o prussiano colocou suas coisas, algumas moedas, cigarros, numa bandeja improvisada e ficava repetindo ‘italiano bom camarada, italiano bom camarada’, aterrorizado, com medo de ser morto ali mesmo. Nunca me esqueci daquela cena.”
A guerra, por sinal, deixou marcas em sua personalidade. “É uma coisa horrível. No início, a gente fica impressionado quando vê um corpo. Quando começam os bombardeios, logo se vê pedaços de gente pra todo lado. Depois, aquilo vai ficando comum, e a gente nem se importa mais. A guerra acaba com a pessoa, todos viram animais. A única coisa que importa é sobreviver; acorda-se de manhã e não se sabe até que hora estará vivo.”

Outro acontecimento continua claro em sua lembrança, mais de 70 a­nos depois. Ele não foi ao front de guer­ra, mas qua­se morreu. Num ti­roteio, as colunas ale­mãs se retirando, os soldados alemães ar­mados e ati­rando. Nestore viu um me­nino — no fim da guerra, conta, botaram meninos para lutar, os capacetes cobriam quase eles inteiros, não só a cabeça —, igual a ele, ali pelos 15 ou 16 anos.

“O cara estava na minha frente, peguei o fuzil e apontei, mas não tive coragem de atirar. Pensei esse cara deve ter pai, mãe, porque vou matá-lo? É uma criança, um bambino, igual a mim. Só que ele me viu e mandou bala, senti o calor da bala perto de minha orelha. Zum­mmm!, falei desgraçado! Tinha uma calheira atrás que foi esfacelada. Ele atirou e se mandou e eu quase morri. O alemãozinho só não me acertou por pura sorte minha.”

Certamente, foi essa a grande lição do infante Nestore Scodro na guerra: ou mata ou morre. l

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