Moro versus Lula: a novela da vida real que parou o País e prejudicou o jornalismo

Opção editorial da Rede Globo foi transformar as noites da semana passada em uma extensão do horário de teledramaturgia para cobrir o depoimento do ex-presidente em Curitiba

Foto: Divulgação / Justiça Federal PR

ELDER DIAS

Não há como negar que o grande dom da Rede Globo é mesmo a teledramaturgia. A cinquentenária emissora praticamente desde seus primeiros anos se dedicou a refinar o trato de suas produções de ficção, a ponto de se consagrar mundo afora pela qualidade de suas novelas, sempre à frente de produtos similares, mesmo de países mais desenvolvidos. O quadro de atores também não é desprezível : ao contrário, sua qualidade fez alguns nomes – como Sônia Braga no passado e Rodrigo Santoro na atualidade, entre outros – se projetarem em filmes de ponta em Hollywood.

A competência técnica do jornalismo global também é inquestionável. O padrão estabelecido pela emissora é tal que suas repetidoras em cada Estado precisam seguir a mesma cartilha na elaboração de seus programas jornalísticos locais. Quando isso não ocorre, pode vir um “puxão de orelhas”. Quando se propõe a fazer uma cobertura profunda e reveladora de algum evento, ainda que imprevisto ou até mesmo trágico – um exemplo recente foi a força-tarefa por ocasião da queda do avião com a delegação da Chapecoense, em novembro –, dificilmente a emissora erra a mão.

A excelência da Rede Globo na dimensão técnica é inquestionável, mas em termos de linha editorial em política sempre houve muita controvérsia. A semana passada, em particular, foi um desastre, cujo epicentro foi a cobertura sobre o depoimento do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao juiz Sérgio Moro, que protagoniza a Operação Lava Jato, em Curitiba. Antes e depois do encontro, o que se viu foi um circo armado, tanto em termos de aparato policial e logístico como de mídia.

Esperava-se um duelo de titãs entre o petista e o juiz, colocados por seus apoiadores e desafetos como arqui-inimigos – o que pode ser que tenha convencido até mesmo a ambos. Como, aliás, muito convém a um enredo de filme – ou de novela.

É bem verdade que a Justiça tem seu tempo próprio, mas, para o sentimento geral da população, os mais de três anos da Lava Jato já a tornaram uma peça dramática. A expressão “atores políticos”, muito usada nas ciências sociais, ganhou literalidade: Lula, Sérgio Cabral (ex-governador do Rio, hoje presidiário), Eduardo Cunha (ex-deputado e ex-presidente da Câmara, também presidiário), José Dirceu (ex-presidente do PT, ex-ministro e agora ex-presidiário) e outros interpretam a si mesmos na trama – ou deveriam interpretar. Da mesma forma, os demais envolvidos, ainda que servidores públicos no desempenho de sua função, também se tornaram personagens. Dessa forma, surgiu o “Japonês da Federal”, que foi sucedido em fama pelo “Hipster da Federal”, esses e outros como coadjuvantes da disputa entre o bem e o mal – sendo “bem” e “mal” posições flexíveis e convenientes, de acordo com o lado em que se posiciona cada militante ideológico.

A linha editorial da Globo transformou as noites de quarta, quinta e sexta-feira da semana passada em uma extensão do horário dedicado à teledramaturgia. Uma novela da vida real entre as fictícias dos horários das sete e das nove, já que não menos do que 80% do horário do “Jornal Nacional” foi de­dicado a destrinchar o depoimento de Lula a Sérgio Moro em tudo aquilo que poderia ser (ou que não poderia) digno de notícia. O JN não é o único noticiário da TV, muito menos o meio vital de informação em plena era digital. Mas é preciso, aqui, entender a relevância histórica que tem o principal telejornal da Globo: durante décadas ele foi aquele programa que, tradicionalmente, faz o brasileiro médio dizer, no dia seguinte: “Deu no jornal!”.

É preciso deixar claro que não isso significa, de maneira alguma, que não deva ter destaque jornalístico o depoimento de um réu que é ex-presidente da República e em um processo que apura sua eventual participação em atos seriíssimos de corrupção institucionalizada. Pelo contrário: a cobertura era absolutamente necessária. Sua amplitude, em meio a todas as questões importantes que atravessam a conjuntura que o País, é que não foi apropriada.
Enquanto Lula depunha, a proposta de reforma da Previdência avançava na Câmara dos Deputados, a toque de caixa e com o governo Michel Temer (PMDB) utilizando o que a imprensa convencionou chamar de “rolo compressor”. Como isso ocorre? Quem é do meio conhece bem o “modus operandi” e a experiente Natuza Nery, ex-repórter política da “Folha de S. Paulo” e agora na Globonews, relatou, de forma bem natural, na tarde de quarta-feira:
— Já se fala em 328 [votos a favor do governo]. (…) Quem está ali fazendo a contabilidade de votos diz que esse placar vai ser atingido, mas isso ainda não aconteceu. A partir de agora, o governo faz uma ofensiva final para o primeiro turno da reforma (…). Esse placar que o governo tenta atingir [ele] vai conseguir – liberando verbas, liberando cargos e ainda continuando naquele processo de destituir apadrinhados políticos de deputados que não votaram com o governo.

Enquanto ela estava no ar, Lula chegava a seu encontro com Sérgio Moro. Natuza Nery fazia sua participação importante – embora o tom natural do relato espante quem se atenha aos fatos narrados – em um canal por assinatura, o Globonews, a redação do “Jornal Nacional” certamente já fervilhava em preparativos para receber e editar o mais rapidamente possível o material do depoimento. E assim foi que ocorreu a edição da noite do mais popular telejornal do Brasil: nenhum detalhamento maior sobre como o governo está conseguindo os votos para a reforma da Previdência; todas as lupas e lentes atentas a verbos e vírgulas do “duelo” de Lula e Sérgio Moro em Curitiba. Veio a frustração de não ter as imagens do “confronto”, o que seria ricamente compensado no dia seguinte.

Obviamente, outros veículos também exageraram na cobertura, mas a responsabilidade da Globo será sempre maior e mais grave, justamente por deter a hegemonia absoluta da audiência televisiva, tanto em canal aberto como nos fechados. O que houve na última semana foi apenas uma infelicidade jornalística culminante, de uma sequência de excessos que têm acontecido em todo o transcorrer da apuração da Lava Jato. Uma patacoada da qual – como já fez no passado, expondo sua aliança com o regime militar ou admitindo, décadas depois, o “excesso de edição” do debate final do 2º turno entre Fernando Collor e Lula (mera coincidência estar aqui o mesmo personagem?), em 1989 – um dia, talvez, a corporação terá a grandeza de reconhecer sua exorbitância. l

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