Goiânia tem solução, desde que gestores se comprometam com a cidade

Essa é a visão que profissionais da área de urbanismo, arquitetura e mobilidade têm sobre a possibilidade de se encontrar soluções para o crescimento desordenado da capital goiana

A verticalização descontrolada da cidade é um dos problemas que precisam de mais atenção na cidade | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

A verticalização descontrolada da cidade é um dos problemas que precisam de mais atenção na cidade | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Augusto Diniz

Desde o dia 26 de agosto, por 20 minutos se­pa­rados em dois horários diferentes, os sete candidatos a prefeitos de Goiânia se revezam na televisão e no rádio para convencer o eleitor de que suas propostas são as melhores e mais viáveis para solucionar o tão falado caos urbano vivido pelo crescimento de­sordenado que acontece na capital goiana. Esses prefeitáveis têm mesmo a fórmula para gerir um projeto de cidade viável e que funcione, desde sua infraestrutura até a oferta de serviços públicos, ou são apenas promessas jogadas no ar para conquistar votos?

Para tentar entender o que acontece com Goiânia e buscar uma discussão do que poderia ser feito para encontrar um ordenamento no desenvolvimento urbano da capital, o Jornal Opção conversou arquitetos e urbanistas que deram sua contribuição para começar a pensar um modelo de gestão pública que parece, na visão deles, estar distante daqueles propostos até então nos 20 minutos diários de propaganda eleitoral obrigatória de rádio e televisão neste primeiro turno das eleições de 2016.

A palavra mais citada pelos profissionais ouvidos pelo Jornal Opção é planejamento. E parece ser algo bem simples. Mas não é. Para se planejar uma cidade é preciso ter comprometimento com um projeto de gestão do município, dizem os profissionais que estudam e acompanham os problemas de Goiânia.

Aos entrevistados, a reportagem perguntou quais são as medidas imediatas que o próximo prefeito da capital terá de adotar para encontrar um caminho, nem que seja paliativo, para começar a corrigir o desenvolvimento desordenado da cidade, que hoje tem estimativa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) de 1.448.639 de habitantes e enfrenta problemas na segurança pública, na saúde, na moradia, na área de saneamento básico e distribuição de água, que precisa tratar melhor a questão do lixo produzido diariamente, a limpeza urbana e todos os problemas enfrentados por grandes cidades.

A resposta encontrada é única e taxativa: não há solução imediatista a ser adotada para tentar melhorar a cidade de Goiânia. Aliás, para nenhuma cidade, entendem os entrevistados. “É como se tivéssemos uma pessoa com dor e déssemos uma aspirina para ela. Nós reduziríamos os sintomas, mas não descobriríamos a causa nem trataríamos a doença”, comparou a vice-presidente do Conselho de Arquitetura e Urbanismo de Goiás (CAU-GO), Maria Ester.

Para ela, medidas imediatistas para solucionar qualquer problema enfrentado pela cidade se apresenta como “uma cilada”. “Não se remedia um problema para uma cidade de mais de 1 milhão de habitantes. A solução está em um planejamento, que estipule uma previsão para resolver qualquer demanda a médio e longo prazo”, defende.

Maria Ester diz ficar de “cabelo em pé” com algumas propostas apresentadas por candidatos a prefeito de Goiânia em debates, programas eleitorais na televisão ou no rádio. “O que a gente vê é um pensamento muito rápido, com propostas generalistas e fragmentadas para a cidade.”

A vice-presidente do CAU-GO cita como exemplo uma proposta apresentada por mais de um dos candidatos a prefeito, que é au­men­tar o número de ônibus nas li­nhas do transporte coletivo da capital goiana. “Colocar mais veículos nas ruas de Goiânia como forma isolada de solução para o transporte coletivo pode até causar outro problema, que é o aumento do tamanho dos congestionamentos já enfrentados diariamente na cidade.”

Organismo complexo

A cidade, que se dá em sua existência como um organismo complexo, tem muitas e diversificadas demandas em diferentes regiões e bairros. A capital então é formada por pessoas que pensam de forma muito divergente sobre cada questão relacionada ao município. E fragmentar a solução dos problemas como isolados e em projetos personificados dos candidatos ou de suas coligações, sem interligá-los como partes de uma construção de medidas ou discuti-los com a sociedade em suas várias representações gera novos problemas ainda mais graves, descreve.

“Tem um candidato que volta a prometer asfaltar todas as ruas e avenidas da cidade. Você tem a questão das árvores, da drenagem do solo, das casas, do esgoto. Co­mo pensar no asfalto e isolar esse problema de todos os outros que afetam a segurança, como a iluminação pública, a captação de esgoto, que aliada ao asfalto reduz os problemas de saúde da população?”

Para Maria Ester, a cidade tem essa característica de ser caótica em sua formação e isso a define, tanto nas suas demandas, como na busca por soluções. “Os gestores precisam olhar para as pessoas, porque Goiânia é formada por pessoas, e não por coisas. O que eu vejo são candidatos que enxergam a coisa, não pessoas”, descreve a vice-presidente do CAU-GO.

Uma cidade que desde a década de 1970 não pensa nas diferenças entre as pessoas, que tem em sua população crianças, idosos, deficientes físicos. “Quando um candidato propõe melhoria da infraestrutura, parece que as propostas se voltam para a ampliação da cidade com abertura de mais ruas para carros e motos, não focadas no que importa, que é quem mora nessa cidade que se amplia de forma desordenada.”

Para Maria Ester, fragmentação das ações é o maior problema | Foto: Fernando Leite/ Jornal Opção

Para Maria Ester, fragmentação das ações é o maior problema | Foto: Fernando Leite/ Jornal Opção

Bairro modelo

Maria Ester diz que um possibilidade seria a de os candidatos a prefeito pensarem na adoção de um bairro modelo, que tratasse de forma unificada e interligada de todos os problemas e áreas existentes na cidade. “É pensar, por exemplo, em tirar o lixo ao mesmo tempo que se cuida do esgoto, o que garante cuidados à saúde.”

Não há solução para ontem. “Como que se resolve um problema de segurança pública de hoje para amanhã? Ou da falta de água? Não existe isso”, comenta. Maria Ester defende que o gestor da cidade, que assumirá a prefeitura no dia 1º de janeiro de 2017, precisa realizar um planejamento que leve em consideração o levantamento de estimativas ou projeções baseadas na quantidade de pessoas em um período futuro delimitado. Por exemplo, imaginemos que Goiânia terá 2 milhões de habitantes até 2025. Onde essas pessoas vão morar? O que elas vão fazer? Como arrumar trabalho e estudo para todos? O que elas vão comer?

O início do trabalho é, a partir desse diagnóstico, saber o que será preciso melhorar a partir do perfil de cidade que se quer construir, quais serão as prioridades de investimentos. “O que temos hoje não são pautas voltadas para a gestão da prefeitura, mas políticas. É o desejo pessoal de ser líder, de tocar um projeto para determinado candidato, grupo ou partidos”, critica Maria Ester. E essa não é a visão adequada para pensar uma cidade, como a vice-presidente do CAU-GO observa.

Segundo a arquiteta e urbanista, fala-se tanto em Goiânia inserida na Região Metro­polita­na, mas ninguém planeja, por exemplo, uma cidade polo de geração de serviços para Goiânia inserida em uma linha que liga a capital a Anápolis e Brasília (DF).

Correções

Maria Ester quer que o próximo prefeito continue o Parque Macam­bira-Anicuns, que ela vê como vital para Goiânia. Na análise da vice-presidente do CAU-GO, a capital precisa repensar seus projetos de mobilidade urbana. “São um equívoco. As empresas e a Secretaria Muni­cipal de Trânsito, Trans­porte e Mobilidade (SMT) não entram em um acordo. O gestor quer atender um plano de cidade sem pressão nas concessões para que ele funcione.”

Para a arquiteta, da mesma forma como pessoas de terno e gravata discutem futebol com a ideia de que têm todas as soluções para um time melhorar seu desempenho, elas atuam na gestão do trânsito, por exemplo. “Não são técnicos da área que vão gerir uma pasta como essa dados os acordos políticos que visam cumprir acordos eleitorais com determinado partido que apoiou o prefeito”, observa.

Ela afirma que pensar a cidade de forma planejada não precisa ser algo necessariamente a um prazo tão longo como 20 ou 30 anos. “Eu posso elaborar um projeto para os próximos dois anos e executá-lo nesses dois anos enquanto o imediato acontece.”

Como mudança de paradigma na gestão pública de Goiânia, Maria Ester entende que é preciso ver um prefeito mais como mediador entre os interesses da cidade e os da iniciativa privada do que um refém dependente do poder econômico simplesmente. “Você pega exemplos em uma mesma cidade que tem um Parque Flamboyant e um Vaca Brava, mas que também possuiu um Parque do Cerrado, que são realidades completamente diferentes.”

Participação popular

Parte das soluções está em ouvir mais a população, dar oportunidade de participação à sociedade das decisões de políticas para a cidade, e menos dependência do poder econômico. Maria Ester diz que se questiona há algum tempo, mas ainda não encontra uma resposta para a seguinte pergunta: “É preciso ser tão dependente do poder econômico para fazer uma cidade funcionar?”

Professor da UFG defende volta do Instituto de Planejamento

Bráulio Ferreira defende pensar a cidade de forma institucionalizada | Foto: Arquivo pessoal

Bráulio Ferreira defende pensar a cidade de forma institucionalizada | Foto: Arquivo pessoal

“Goiânia já teve o Instituto de Planejamento (Iplan), que tinha que pensar a cidade a médio e longo prazo.” Arquiteto e urbanista Bráulio Vinícius Ferreira, professor da Universidade Federal de Goiás (UFG), diz que Goiânia perdeu com o fim do Iplan, que passou a ser parte da estrutura da Secretaria de Planejamento Ur­bano e Habitação (Seplanh) e deixou de ter importância na discussão da cidade com políticas públicas planejadas.

Bráulio defende que havia um “planejamento instuticionalizado”. “Vemos vereadores aprovarem projetos, como o da Lei Com­plementar 291, que permite a venda de áreas públicas, sem consultar um colegiado formados por técnicos da área e outros setores da sociedade”, lamenta.

Para ele, o que a cidade enfrenta hoje, esse chamado caos urbano causado pelo desordenamento do desenvolvimento urbano, vem de políticas públicas equivocadas, com leis permissivas à expansão vertical e a modificação da legislação que define os parâmetros de crescimento da capital. “Não vejo uma saída sem ouvir os segmentos que tenham algo a contribuir, como técnicos, urbanistas, legisladores, incluindo na discussão de Goiânia o setor imobiliário.”

O professor da UFG diz ser complicado apresentar um modelo pronto e concreto para desamarrar os nós da cidade completamente. “A cidade precisa ser repensada e parar de jogar as pessoas nos carros e motos, resolver os problemas dos vazios urbanos, do trânsito ruim”, observa.

O problema da verticalização descontrolada da cidade é visto por Bráulio com problema que atinge di­retamente a qualidade de vida na capital, como o caso das grandes tor­res no Jardim Goiás, próximo ao Parque Flamboyant, que utilizam o su­bsolo e retiram água do lençol freá­tico, o que também acontece no cru­­zamento das avenidas Mutirão e T-7.

A maior preocupação do arquiteto é com a recente autorização de venda de áreas públicas. “Isso pode fazer a gente perder o Setor Sul, que tem um desenho urbano tão sutil, com destaque para as vielas e cidades-jardins, o que é importante para a cidade.” Para ele, tudo isso poderia ser evitada com uma reativação e eficácia de atuação do Instituto de Planejamento na capital.

“É do lugar de encontro das tensões de interesses que nascem as ideias para a cidade, com participação de todos os setores da sociedade em suas representações.”

Propostas de sempre

Bráulio diz não ter se entusiasmado com as propostas que viu dos candidatos a prefeito. “Pare­cem as mesmas de sempre, ditas a cada eleição. Me parece um discurso eleitoreiro. É preciso buscar a parceria com outros poderes”, afirma. Para ele, tudo parece apontar para soluções pontuais. “Não dá para decidir nada tão rápido assim, pensando em resolver problemas de forma imediata. O transporte coletivo, por exemplo, precisa de decisões tomadas para os próximos 30 anos.”

Segundo o professor, até o momento é possível perceber candidatos que buscam destacar seu passado em cargos públicos, outro que pretende fazer uma varredura nas contas da prefeitura, mas que não apontam um plano de governo que dê condições de transformar a cidade na busca de mais qualidade de vida para a população.

Especulação imobiliária

Bráulio defende que parte da tentativa de solucionar os vazios urbanos existentes em Goiânia poderia vir do combate ao caráter especulativo da manutenção de lotes sem construção na capital. “Não posso ter a mesma carga tributária de quem tem vários lotes. A cidade não pode ser um campo da especulação”, afirma. Para ele, é uma busca por lucro que faz com que a cidade perca em seu desenvolvimento.

Sobre a proposta de descentralização dos serviços e atividades na cidade, Bráulio diz que até é possível pensar nisso como uma possibilidade para algumas áreas, mas que não é possível retirar das áreas centrais de Goiânia tudo. “A descentralização de alguns serviços, inclusive da gestão, é a mais interessante.”

O arquiteto cita o exemplo do Conjunto Vera Cruz, construído na década de 1980, como um erro de gestão de habitação. Colocar um bairro na saída para Trindade quando ele poderia ter sido construído em uma região mais perto do Centro seria mais interessante para a cidade. “Mas a ideia de centros administrativos, nos quais o deslocamento se torna menor para que a pessoa possa ter perto quase tudo que precisa, é interessante”, analisa.

Outra saída?

Para Bráulio, o imediato para Goiânia é sentar e planejar para tentar corrigir o que está errado. “Com a retomada do Instituto de Pla­nejamento, nós poderíamos pensar em propor que quem pretende ser candidato precisa se submeter ao levantamento feito para a cidade que aponte as políticas públicas a serem adotadas para os próximos 20 anos”, aponta.

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