Do que Goiânia precisa para estar entre as cidades mais desenvolvidas

Se não for planejada, a capital goiana corre o risco de virar a São Paulo no futuro, com os mesmos problemas estruturais e sociais. Especialistas apontam o que precisa ser feito

Goiânia é uma boa cidade para morar, mas seu planejamento precisa ser repensado | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Goiânia é uma boa cidade para morar, mas seu planejamento precisa ser repensado | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Marcos Nunes Carreiro

O desenvolvimento de uma cidade é, geralmente, medido sob a observação do desempenho de algumas suas áreas, como segurança, economia, mobilidade, saúde e educação. É que fazem os índices ranqueadores das cidades com maior desenvolvimento, seja no Brasil ou no mundo.

Pensando nisso, vem à mente a pergunta: qual a situação de Goiânia nesses rankings? Em 2015, foram publicados dois índices sobre o desenvolvimento das cidades brasileiras, tendo como base o ano de 2013 — como a análise depende de dados, a demora de dois anos não é surpresa.

No Atlas do Desenvolvimento Humano no Brasil, da Organização das Nações Unidas (ONU), Goiânia aparece com um Índice de Desenvol­vi­mento Humano Muni­cipal (IDHM) alto, mas não o suficiente para estar entre as primeiras do ranking. Já no Índice Firjan de Desenvolvimento Municipal, a cidade aparece na 265a posição e em 5º no estado, atrás de Itumbiara, Catalão, Chapadão do Céu e Rio Verde.

Como são feitos com base nos números disponibilizados pelos órgãos oficiais ou pelos próprios governos, os índices têm falhas. Eles avaliam, por exemplo, se a cidade tem ou não ciclovias, mas não coloca na equação a utilidade das ciclovias ou mesmo se há ou não incentivo para a utilização delas. Há vias pavimentadas na cidade? E a qualidade desse asfalto?

Essas questões não são colocadas em perspectiva por números, mas influenciam diretamente na qualidade de vida da população que vive na cidade, pois é ela quem percebe a realidade de Goiânia, que não é uma cidade ruim para morar, mas que pode melhorar e se desenvolver mais. A questão é: como?

O Jornal Opção entrevistou três profissionais: um conselheiro do Conselho de Arquitetura e Urba­nismo de Goiás (CAU-GO), um economista e uma professora doutora em Políticas Públicas. A eles foi feita a mesma pergunta: “Do que Goiânia precisa para estar entre as cidades mais desenvolvidas?”.

A busca dessas três fontes se deu pelo fato de elas falarem de lugares essenciais para o desenvolvimento de uma cidade, que depende de sua área estrutural, urbana; do crescimento econômico que consegue ter; e da educação que oferece à sua população. São esses os eixos centrais, aos quais se ligam outros também muito importantes, como saúde e segurança, estando todos interligados.

O primeiro verbo que surge já é um velho conhecido da população goianiense — de ouvir falar. A necessidade de planejar tem sido apontada com afinco por muitos nos últimos anos, mas nenhum gestor da cidade conseguiu conjugar o verbo para executar sua função primordial: a ação.

“O desenvolvimento passa pelo planejamento”, afirma o professor do curso de Arquitetura e Urbanismo da UFG e conselheiro do CAU-GO Bráulio Ferreira. O Plano Diretor da cidade, que deveria ser a forma de tirar o verbo do papel, não cumpre sua função, pois não contempla as questões específicas para que a cidade se desenvolva com qualidade.

O Plano goianiense é de 2007 e deve passar por uma revisão no próximo ano, quando completa uma década. Porém, o Plano tem sofrido críticas severas nos últimos anos, devido às suas falhas. A questão a ser entendida, na visão de Bráulio, e que muitas outras cidades já conseguiram compreender, é que o planejamento de uma cidade é uma questão de décadas.

Bráulio Ferreira: “Crescer sem planejamento é ir na contramão de qualquer desenvolvimento”

Bráulio Ferreira: “Crescer sem planejamento é ir na contramão de qualquer desenvolvimento”

Ele conta: “Quando o muro de Berlim caiu, houve uma reunião para se estabelecer um planejamento de integração e desenvolvimento da cidade, tanto na parte oriental quanto na ocidental. E esse plano foi de 25 anos. Não vejo no poder Legislativo de Goiânia essa capacidade de planejamento no longo prazo. No Executivo nem se fala, pois eles só pensam no prazo de 4 ou de 8 anos”.

Por que o Legislativo? Porque cabe aos vereadores a aprovação do Plano da cidade. E, para o arquiteto, as proposições de legislação atuais são muito restritas. Ele cita a Lei das Calçadas, sancionada em 2014 e que determina especificações para a construção das calçadas da cidade, o que deve ser feito pela própria população. Para Bráulio, isso é um sinal da fragilidade do Legislativo goianiense.

“Essa lei tem uma capacidade enorme de não ser executada”, explica. “A privatização das calçadas, que são espaços públicos, é um problema seríssimo. Se Goiânia quiser ser exemplo de mobilidade, a começar pelo pedestre, precisa pensar numa estatização desse espaço. A Prefeitura deve cuidar disso, da pavimentação, da arborização e dos equipamentos urbanos que estão na calçada. Parece mais lógico que dizer às pessoas as indicações de como deve ser feito”, relata.

Mas é fato que Goiânia está amadurecendo e, se o planejamento não parte do poder público, nos últimos anos, a própria população tem se organizado para discutir e pensar a cidade. O CAU-GO é um exemplo, mas há outros grupos e movimentos dedicados à questão.

O arquiteto diz apostar, agora, na organização civil. “Começamos a ver alguns coletivos relacionados à cidade, e não só na arquitetura e urbanismo, que começam a cobrar uma postura de planejamento no longo prazo em relação à mobilidade, crescimento urbano e desenvolvimento sustentável. O plano de adensamento em torno do Jardim Botânico, por exemplo, deve ser observado com muito cuidado”, ressalta.

No dia em que falou com a reportagem, Bráulio estava em São Paulo guiando a turma do 5º período de Arquitetura e Urbanismo da UFG em uma visita técnica. Assim, durante a conversa, comparações entre as duas capitais foram inevitáveis. “Na verdade, Goiânia está seguindo um modelo atrofiado de desenvolvimento. Eu olho para São Paulo e vejo Goiânia amanhã. O que temos feito foi realizado em São Paulo há décadas e parece que não conseguimos fazer a leitura dos exemplos de outras cidades”, conta.

Há ações básicas que podem ser feitas para que a cidade se desenvolva e que podem ser realizadas sem a necessidade de legislação. Um exemplo é uma semaforização planejada e estudada para dar mais fluência ao trânsito; outro é o transporte público, em que “bastava ter melhores condições de contratação e fiscalização”, analisa.

Além disso, aponta o arquiteto, a sinalização da cidade também é importante, assim como as calçadas. “O deslocamento a pé não é incentivado em Goiânia, porque as calçadas são muito ruins. Elas não serão acessíveis se não forem sequer calçadas. Fora isso, Goiânia precisa apostar nessa questão da bicicleta para que, daqui a alguns anos, a população incorpore novos hábitos de mobilidade. Até porque não teremos outra opção.”

Diversificação

Everaldo Leite: “O governo municipal que queira contribuir com qualquer tipo de política, deve fazê-lo por meio da educação”

Everaldo Leite: “O governo municipal que queira contribuir com qualquer tipo de política, deve fazê-lo por meio da educação”

“Desenvolvimento” é praticamente um “substantivo da economia”, segundo o imaginário popular. Porém, para os economistas, desenvolver-se não é uma questão puramente econômica. “Quando se fala em desenvolvimento, não tratamos apenas de crescimento econômico, mas também de desenvolvimento social e ambiental”, explica o economista Eve­raldo Leite.

“Está tudo intricado”, diz ele. “Em termos de economia, o desenvolvimento passa pela melhora da renda, que, por sua vez, passa pelo aumento da capacitação dos trabalhadores para diversificar a gama de serviços que temos na cidade.” Everaldo relata que um setor público atuante pode trabalhar pela qualidade de vida e investir em uma mão de obra mais qualificada e com mais produtividade, o que pode abrir possibilidades para a geração de uma maior diversidade de serviços e aumento da renda — que é pequena em Goiás.

Como o serviço público pode agir em prol da diversificação dos serviços da cidade? Segundo o economista, essa diversificação se dá de modo espontâneo, mas isso só acontece quando as pessoas conseguem observar as oportunidades que existem. “Porém, isso só é possível com uma formação adequada. Nós não temos mão de obra qualificada e não temos número suficiente de empreendedores. Goiânia precisa crescer muito para ter soluções de serviços que venham da visão de oportunidade dos trabalhadores, o que depende muito de capacitação e educação”, analisa.

Agora, um ponto considerado essencial por Everaldo para o desenvolvimento de Goiânia é a integração entre a capital e a região metropolitana, principalmente com cidades como Aparecida de Goiânia, Senador Canedo, Trindade e Goianira, que são as maiores.

A questão, segundo o economista, é que esses municípios fornecem mão de obra para a capital e também compram de Goiânia. “Existem alguns acordos de mobilidade, mas isso não é suficiente. Esses municípios utilizam os serviços da capital, pela proximidade. Então, essa integração é necessária para que haja uma distribuição maior dos serviços públicos. É preciso construir corredores entre os municípios, corredores econômicos”, afirma.

Everaldo chama atenção para um fato: Goiânia não precisa de indústrias, mas os municípios ao redor sim. “E eles demandam estrutura. Além disso, é preciso pensar que muitas pessoas de Goiânia vão trabalhar nesses municípios. Mas isso é uma questão de planejamento para o futuro.”

Educação diversificada e não-escolar é uma necessidade para que o município alcance pleno desenvolvimento

Carla Conti: “Os problemas da cidade devem ser preocupação de todos, pois problemas comuns são mais fáceis de serem resolvidos”

O caminho de pensamento traçado pelo economista Everaldo Leite faz sentido: educação gera qualificação, que produz visão de oportunidades para diversificação dos serviços da cidade e, consequentemente, provoca aumento de renda. É importante lembrar que Goiânia é uma cidade de serviços.

Assim, do ponto de vista educacional, o que pode ser feito para colocar a capital goiana no caminho do desenvolvimento? A pergunta foi feita à professora Carla Conti, que é doutora em Políticas Públicas e docente efetiva da UEG. Ela explica que, em termos educacionais, uma educação de qualidade ou mesmo o acesso à educação não bastam.

“Muitas pessoas acreditam que o acesso à educação já é uma forma de garantir o desenvolvimento, mas não é. É preciso ter uma educação diversificada, e isso entra na perspectiva da educação não-escolar, que é a cidade oferecer às pessoas condições para o desenvolvimento de uma parte mais humana e que está ligada a outras experiências como literatura, arte, música, esporte”, relata.

O ponto de análise aqui é o seguinte: uma melhor qualificação profissional só acontece quando a instituição, seja a educativa ou o Estado (o Estado é uma instituição), se preocupa com a valorização das pessoas. “Em outras palavras, se existem na cidade instituições de ensino superior para qualificar a população profissionalmente, mas não há a garantias, na cidade, de boas condições de trabalho ou remuneração, essa qualificação será perdida ou inexistente. Tudo isso precisa ser observado”, diz.

O contrário também é válido. Ela conta: “Se uma cidade tem alto potencial de turismo, mas não tem o setor como prioridade, a cidade não se desenvolve. Isso vale para todas as áreas, pois faz com que haja pessoas trabalhando nos mais variados setores sem qualificação e com baixa remuneração, o que tem efeito no desenvolvimento da cidade. Se o município não tem bons profissionais e bons serviços, ele não vai atrair outras pessoas, seja para morar, investir ou mesmo passear. Então, qualificação profissional passa pela valorização das pessoas. É um ciclo”.

Participação popular

Depois disso, existe um terceiro ponto, que está ligado à questão da solidariedade. Carla explica que uma cidade desenvolvida é uma cidade solidária, onde os problemas de um são os problemas de todos. “Enquanto a violência, o desemprego e outras questões forem preocupação de apenas alguns, a cidade não é solidária. Os problemas da cidade devem ser preocupação de todos, pois problemas comuns são mais fáceis de serem resolvidos. Um lugar desenvolvido é onde as pessoas se preocupam umas com as outras”, ressalta.

Ela diz que políticas públicas nascem da atuação das pessoas de uma comunidade, que mandam, para o poder público, as propostas de solução para seus problemas. Assim nascem as políticas públicas — ou deveriam nascer. “Agora, como a população não recebe capacitação, ela participa pouco na resolução dos problemas cotidianos. E isso diminui muito a eficiência das políticas públicas, porque elas vão satisfazer necessidades que não são as daquela população e sim a outros interesses. A capacitação popular e a valorização das pessoas também passam por isso, pela capacidade do poder público de ouvir o que as pessoas realmente precisam”.

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Excelente reportagem. Ótimos pontos que os especialistas trouxeram, em especial o problema das calçadas na cidade, precárias e com pouca segurança, realmente dificultam muito a mobilidade. Exemplo do centro da cidade.

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